Opinião
No limite da paciência


As coisas mudaram, e continuam mudando sem que haja tempo de nos adaptarmos. Nesse cenário nos deparamos com momentos de reinvenção do ser que nunca tivemos a oportunidade de experimentar, e aí percebemos muitas coisas que não conhecíamos e que nos exige esforço extra em organização, disposição e paciência.
Ao falarmos de mudança é necessário um tempo de adaptação, porém não há esse tempo, mas há a necessidade da mudança; e então, como fazer? Minha formação inicial e condução de vida até aqui me ensinaram que sem ordenação de pensamento e atitudes as coisas se tornam confusas. Então, iniciando pela ordenação, foi que consegui e estou conseguindo vencer mais esse desafio.
Iniciando pela listagem de tarefas que antes eram “terceirizadas” e que agora são de minha inteira responsabilidade, tal como, educar as crianças. A esse quesito estabeleci a disciplina como aliada e os fiz imaginar cenários como se fossem de vida cotidiana. A tendência do nosso cérebro é de procurar pelo mais fácil, mais confortável, e as crianças queriam e querem ficar no sofá em frente à TV o dia todo, ou mexendo nos aparelhos eletrônicos; então, aliado à disciplina, criamos algumas regras, tipo proibirmos o uso de eletrônicos durante a semana e, aos finais de semana, somente três horas por dia, mesmo assim a liberação do eletrônico só acontece se a criança tiver os deveres em dia e cumprir tarefas domésticas bem feitas também. Já aconteceu de ficarem sem o celular por mais de um mês até encontrarem o “ponto de equilíbrio”.
Da minha parte, preciso fazer uma “auditoria” nos cadernos e livros para verificar se estão cumprindo com o que a escola tem enviado, e nesse sentido tenho percebido mais de perto as suas dificuldades, e as conquistas também.
Tenho uma filha de cinco anos que está descobrindo o fantástico mundo das letras e aprendendo a somar e diminuir, então me divirto bastante vendo suas descobertas e estou curtindo poder perceber essas novidades e como a criança vem tecendo seu aprendizado.
Meu filho de dez anos está fazendo o sexto ano e esta série traz como novidade a presença de vários professores. Até o ano passado era apenas uma professora ele chamava carinhosamente de “tia”. Agora já não é mais “tia”, são professoras.
Também tenho observado bem de perto o desenvolvimento dele e a o afloramento das aptidões; descobri que ele detesta ciências, e logo penso: “lá se vai meu sonho de ter um filho médico”, mas, por outro lado, ele tem demonstrado fascinação por português e matemática; então viajo, imaginando-o como um engenheiro ou um professor. Estou adorando isso e divagar nesses cenários.
Outra questão que antes terceirizávamos eram os alimentos de panificação. Não compramos mais nada em padarias por medo de contaminação e por contenção de despesas. Assim, nos abastecemos de todos os recursos necessários para montar nossa “pequena indústria” e temos feito em casa pães, roscas, salgados, bolos e presenteado a família com nossos produtos, os quais tem sido muito elogiados e isso já está nos fazendo passear num horizonte jamais imaginado, esse “exercício de panificação”. Também decidimos mergulhar com nossos filhos em uma série de filmes que consideramos transformadores para eles, e que podem fazê-los pensar de forma diferente.
Algo que ainda não coloquei em ordenação e que tem me tomado horas de pensamento são as atividades físicas. Há espaço aqui em casa para fazer, mas sempre somos trapaceados pelo cérebro que nas horas “vagas” pede um descanso. Dessa forma estamos levando nosso isolamento e praticando algumas mudanças. Já posso dizer que essas mudanças continuarão no meu cotidiano. Estou gostando bastante dessas novas e pequenas descobertas.
De volta ao propósito e à paciência; quais os limites? Pois bem, cada pessoa deve estabelecer o limite necessário para que as coisas não fujam do controle, se mora em uma casa pequena com muitas pessoas, pode fazer do banheiro, por alguns minutos, esse momento de limite. Todos nós precisamos nos distanciar um pouquinho e sentir a própria respiração, organizar os pensamentos para então poder partilhar e ajudar os demais. Nesse sentido, se não conseguimos desfrutar de alguns minutos conosco mesmos, a tendência é ter os nervos aflorados e a paciência ir embora, fazendo com que aconteçam ações por impulso, as quais, muitas vezes, ofendem, assustam e confundem as outras pessoas que precisam conviver conosco, agora mais ainda por causa do isolamento social.
Esse momento único que estamos vivendo trazem coisas antes imperceptíveis., São momentos de encontrar novamente com a família, de observar mais de perto os filhos e as pequenas coisas, de agradecer e se concentrar nas coisas que realmente importam: saúde, em primeiro lugar; sobrevivência em segundo lugar; segurança em terceiro lugar. É preciso acrescentar uma pitada considerável de harmonia. Dessa forma, acredito sairemos desta como pessoas melhores, mais felizes e gratas pelas coisas que temos e conquistamos.
Ana Claudia de Oliveira é mestre em Administração Profissional, coaching em Excelência Humana, professora universitária. É Diretora da empresa AeT Consultoria e CO e sócia na empresa i100, voltada ao melhoramento humano comportamental nas empresas.
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