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Escritora e poetisa anapolina é indicada a concorrido prêmio nacional no RJ
Valéria Victorino Valle é Presidente da Academia de Letras de Anápolis

Valéria Valle, presidente da Academia Anapolina de Letras, é professora formada em Letras com especialização em Literatura Brasileira, e possui um longo currículo de atividades culturais em diversas entidades literárias, participações em antologias, premiações, além de vários livros-solo. A bagagem acadêmica da autora transparece em seus poemas, nos quais é possível perceber a veia erudita que dialoga de forma orgânica com o tom moderno e o discurso prosaico. No livro “O Beijo Feminino da Poesia”, no prelo, podemos encontrar um mosaico de vozes femininas que vai desde a mulher da roça com seu dialeto estigmatizado até a poeta que luta por um espaço para mostrar sua arte.
Em “Branca de Neve”, a poeta faz uma paráfrase com o famoso conto de fadas para desconstruir a submissão da personagem, que ainda é apaixonada pelo príncipe, mas assume sem pudores o seu desejo e suas vontades e deixa de lado o papel passivo esperado dela. Por outro lado, em outros poemas desse livro encontramos amores sofridos, não correspondidos ou proibidos, porque o feminino, por vezes, é paradoxal: ora toma as rédeas da sua vida, ora se fragiliza diante do ser amado.

Valéria Valle: escritora | Foto: Divulgação
Embora o eu-lírico de muitos dos poemas de Valéria Valle seja apaixonado, pela vida, pela natureza ou pelo ser amado, sua obra apresenta um alto teor de preocupação com temas sociais. Em “Flor Negra” é a voz da mulher negra que aparece para testemunhar todo sofrimento imposto a ela, enquanto representante de uma raça escravizada e discriminada através dos séculos: “Neste reinado permanente da injustiça e da escuridão humana/ Tento, com as flores, curar o câncer da carne e da alma/ Que dissolve e nunca devolve/ O nosso direito de viver como rio e fogo…”. Já no poema Seca Vidas, é a personagem Sinhá Vitória, do livro “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, quem mostra sua voz, numa denúncia contra a miséria que ainda assola grande parte da população brasileira: “Fugir da seca é o destino/ e sobreviver é a obrigação. / O desaparecer da água,/ O aparecer da fome./ O padecer de fome./ Sonho do sobreviver nas pupilas femininas/ Que vontade de sepultar a morte…”
O papel da intertextualidade é muito importante para a construção da obra de Valéria. A autora vai buscar, em outras obras, em outros autores e em personagens alheios, os instrumentos que ratificarão as vozes da sua poesia. Esse exercício dialógico, por trazer em si uma alta informatividade, enriquece o tecido textual, mas causa certo hermetismo, pois pode fazer com que leitores que não conhecem as obras às quais a autora se refere percam parte do significado poético.
A representação da incompletude da vida não vivida em totalidade, que representa a voz das mulheres modernas, sobrecarregadas de afazeres, aparece em poemas como Encantoados: “Lemos e escrevemos durante a vida/ que passa esbaforida e sofrida,/ O restrito e o obrigado./ Nunca livres, nunca nós…/ Prisão doentia na sensação de cumprir dever/ E nunca ser…/ É o espremer, o sufocar e o enterrar/ Dos enfeitiçados/ encantoados/ no encanto e na toada/ do tempo de amar.”
LADEIRA IDENTITÁRIA
Da teia poética emerge uma canção cigana
que no véu da noite goiana
desvela o feminino no compasso e no laço,
em busca do gosto da verdade e do corte da mentira.
Nessa aventura insana, de asas cortadas,
sou várias mulheres que se completam ao luar.
Surge uma Ismália que contempla o beijo da lua namorando o mar.
E nesse ruflar de um coração insólito
que aperta o peito e despreza o colo,
bate um temporal ardente e saliente,
uma força de Capitu, algoz de mim,
uma fantástica Bárbara, exigente de luas,
uma Colombina, entre Arlequim e Pierrot,
sempre confusa no talho do desejo.
Só queria ser Maria, guia de mim, por caminhos do Bonfim,
So queria ser Madalena, pedaço confesso de mim,
Só queria ser Iracema, já que sou Martin,
Só queria ser Rosa, com seu espinho de jasmim,
Só queria ser Carolina, com seu colar carmim,
Só queria ser Teresa, presa na doçura do sem fim…
Mas na eira, na beira e na ladeira do destino
Só sou Sinhá Vitória, Geni e Severina e,
nessa sina, acompanhada de poesia pequenina,
da literatura e da música bebo água de mina,
e dissolvo-me, morena e serena, como Helena,
mais uma das Mulheres de Atenas.
Valéria V. Valle
LADEIRA IDENTITÁRIA (Para Adriana Moreno)
Com Agência de Notícias/Acréscimo de informações JOpção/




