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Explosivo memorando confidencial aumenta tensão nos EUA
O titular do Comitê de Inteligência da Câmara de Representantes, o republicano Devin Nunes, fala com a imprensa em Washington DC, em 24 de março de 2017
As tensões provocadas por um explosivo memorando confidencial sobre a vigilância do FBI à campanha presidencial de Donald Trump se acentuaram dramaticamente nesta quinta-feira (1) entre o presidente americano, o Partido Democrata e a comunidade da Inteligência.
O nó da polêmica que se arrasta há semanas é um documento de quatro páginas baseado em informações reservadas e redigido pelo titular do Comitê de Inteligência da Câmara de Representantes, o republicano Devin Nunes.
Esse relatório se baseia em escutas que o FBI realizou a um integrante da equipe de campanha eleitoral de Trump em 2016, no âmbito geral de investigações sobre a suposta ingerência da Rússia nas eleições presidenciais daquele ano.
Nunes pediu ao presidente uma autorização para tornar o documento público, em um gesto que desatou uma verdadeira tempestade política na capital do país, a ponto de o próprio FBI pedir que o memorando seja mantido em reserva.
Um funcionário de imprensa da Casa Branca, Raj Shah, disse nesta quinta que o presidente já leu o documento e a decisão sobre sua eventual publicação poderia ser iminente.
Neste cenário conturbado, o Partido Democrata tomou a iniciativa de criticar Nunes e até pedir sua remoção.
– Reação enérgica do FBI –
O vice-titular do Comitê de Inteligência, o democrata Adam Schiff, denunciou que o memorando que Nunes enviou à Casa Branca para que sua publicação seja autorizada não é o mesmo que essa comissão discutiu extensamente.
Descobri que o legislador Nunes introduziu mudanças materiais ao memorando que foi enviado à Casa Branca, mudanças não aprovadas pelo Comitê. Por isso, a Casa Branca revisa um documento que o Comitê não aprovou, assegurou em um tuíte.
Diante dessa denúncia, nesta quinta-feira a titular do partido na Câmara de Representantes, Nancy Pelosi, pediu que Nunes seja removido imediatamente da presidência do Comitê de Inteligência.
O líder democrata no Senado, Chuck Schumer, enviou uma carta urgente ao presidente da Câmara de Representantes, Paul Ryan, para alertá-lo de que a manobra de Nunes se propõe a desacreditar o FBI com um documento cheio de conspirações.
Para os republicanos, o memorando deixa evidente que o FBI se nutriu de informações do Partido Democrata para obter autorização à vigilância de um funcionário da campanha de Trump, em um caso evidente de abuso de poder.
Para os democratas, ao contrário, a redação do memorando e sua publicação são apenas uma manobra para enfraquecer o FBI e, com isso, poder questionar a investigação sobre os eventuais laços entre a campanha eleitoral de Trump e funcionários russos.
O procurador especial Robert Mueller conduz uma investigação independente do Departamento de Justiça sobre o suposto conluio da equipe de Trump com a Rússia durante as eleições de 2016. Para essa tarefa utiliza agentes do FBI especialmente escolhidos.
Na quarta-feira, este quadro motivou um momento extraordinário na política americana, no qual o diretor do FBI e o presidente entraram em uma evidente trajetória de colisão.
Christopher Wray foi confirmado no cargo de diretor do FBI somente em agosto, mas na quarta-feira se manifestou publicamente contra a divulgação do memorando, apesar de horas antes o próprio Trump ter comentado com um legislador que apoiava 100% a sua difusão.
– Consequências da polêmica –
Nos corredores do Congresso, legisladores republicanos já defendem abertamente a suspensão da investigação conduzida por Mueller, que foi apontado por Rosenstein para essa tarefa.
Toda essa investigação de Mueller é uma ficção que nunca deveria ter sido lançada, disse o legislador republicano Matt Gaetz à rede de televisão FoxNews.
John Brennan, ex-diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), não poupou palavras ao criticar Nunes: nunca vi esse tipo de comportamento partidário irresponsável que vejo atualmente por parte de Nunes e dos legisladores republicanos.
Para Brennan, a ausência de liderança moral e ética na Casa Branca inflama esta crise.
O também ex-diretor da CIA Michael Hayden lamentou que essa situação estritamente partidária provoque danos enormes a todas as instituições, do Congresso à Presidência, passando pelo FBI.
