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Bate-bolas, as estrelas de um carnaval paralelo nos subúrbios do Rio
Rio de Janeiro, 11 fev (EFE).- A Cidade de Deus está em festa. O funk ecoa pela comunidade e milhares de pessoas seguem o Abusados, seu primeiro grupo de bate-bolas, estrelas de um carnaval alheio ao Sambódromo, no qual as máscaras aterrorizadoras substituem as plumas e lantejoulas.
Vamos nos divertir em paz no carnaval, queremos desfrutar da festa, afirmou Billy Souza, fundador do Abusados enquanto o seu grupo – que completa 20 anos – prepara o desfile para a madrugada do sábado em uma favela onde a violência quase não mudou desde a estreia do filme Cidade de Deus (2002).
A tensão tem se agravado após a recente detenção do chefe do tráfico do bairro, mas é carnaval no Rio e os quatro grupos de bate-bolas de Cidade de Deus entram na festa.
O Abusados são 80 homens, 75 mulheres e 35 crianças que durante duas horas se fantasiam no pátio de um colégio com meias coloridas, um casaco de manga comprida, saia rodada e um colete de espuma com as imagens de Indiana Jones (Harrison Ford) e Cleópatra desenhadas com tinta e purpurina. Eles cobrem os rostos com máscaras de terror e levam bolas de plástico que batem insistentemente contra o chão.
Na rua, milhares de pessoas dançam ao ritmo do funk que sai de uma parede de equipamentos de som que faz o chão tremer, enquanto esperam seus heróis do carnaval.
Também conhecidos como clóvis (do inglês clown) ou palhaços, as origens dos bate-bolas não são muito claras, mas os seus seguidores concordam que trata-se de um legado da tradição portuguesa que se enriqueceu com elementos herdados da França e se nutriu da cultura popular dos subúrbios do Rio de Janeiro.
Com o tempo, se sofisticaram e substituíram a bola de couro de boi pela bola de borracha, embora alguns a mudem por sombrinhas ou paus.
Declarado Patrimônio Cultural Carioca em 2012 por sua forma alegre e irreverente de festejar o carnaval, poucos na Zona Sul do Rio os conhecem e as centenas de grupos de bate-bolas ficam na área norte e nas comunidades da Zona Oeste, em bairros como Realengo, Jacarepaguá, Marechal Hermes, Oswaldo Cruz, Anchieta e Campo Grande.
Não renegam do samba, mas escolhem o funk e o rap porque são mais realistas. O samba reflete o poder de fantasiar, resumiu Elio, que faz fantasias na Cidade de Deus.
Há anos que abriram espaço para mulheres e crianças e tentam acabar com a lenda de violência que os persegue.
Às vezes ocorrem episódios violentos, mas é preciso conscientizar as pessoas de que é uma festa e que as discussões são casuais, afirmou Anderson, um professor de judô que lidera o Badalados, também da Cidade.
Os grupos têm muita rivalidade entre eles e se misturam com os confrontos das torcidas de futebol, admitiu Vitor, um mototaxista que realizou seu sonho de fundar o Sal de Baixo, o bate-bola mais novo da favela.
Diogo deixou o Gorilas porque alguns saíam armados e havia tiros. Não era o meu ritmo e senti que minha vida corria risco, confidenciou. Hoje desfila com o Havita, em Oswaldo Cruz (norte), cujo símbolo é um pequeno índio criado pela Disney.
Os protagonistas deste carnaval paralelo também não têm uma única explicação por volta das causas que os relegaram aos subúrbios.
Muita gente não entende por que alguém entra num vestido e se cobre com uma máscara para suar e dar voltas, mas é emocionante. É uma cultura de subúrbio. Você não vai ver na Zona Sul, lá é mais um espetáculo. Aqui as crianças sonham em ser bate-bolas, disse Vitor, que prepara as fantasias num terraço da favela.
O desenho e a confecção dos trajes leva quase um ano de trabalho. E não são baratos. A fantasia pode custar até R$ 1.300, e os bate-boleiros podem pagar a prazo.
Os seus nomes estão relacionados com sentimentos (Emoção, Agonia, Amizade, Ousadia), com força (Braço de Ferro, Domínio), desenhos animados (Havita), ou animais (Cobra).
Chegou a madrugada do sábado e os Abusados estavam preparados. Billy Souza os reúne: Queremos um carnaval em paz, insiste, consciente da ameaça da violência na favela. Forman um grande círculo e rezam um Pai Nosso antes de irem para a rua.
Com o funk ao fundo e uma chuva de fogos de artifício, os bate-bolas abrem passagem a duras penas entre a multidão. É a festa do barulho e da confusão.
Outros contam a história. Nós fazemos a história, diz a frase do Abusados sob uma caveira que beija uma mulher. EFE