Brasil
‘As chances do vírus da febre amarela se espalhar pela metrópole são bastante remotas’

Considerado um dos principais especialistas em febre amarela no mundo, o virologista brasileiro Pedro da Costa Vasconcelos diz ter fortes razões para acreditar que o atual surto silvestre da doença não deverá evoluir para uma epidemia urbana.
Em entrevista ao Estado, o cientista, que dirige o Instituto Evandro Chagas, em Ananindeua (PA), explicou que o Aedes aegypti – o mosquito que tem a capacidade de transmitir a doença nas cidades – não é um bom vetor para o vírus da febre amarela, embora seja muito eficiente para multiplicar os vírus da zika, da dengue e da chikungunya.
Os últimos casos urbanos foram registrados há mais de 80 anos, quando a população de Aedes aegypti era muito maior e pertencia a uma linhagem africana mais apta à transmissão da febre amarela do que a linhagem asiática que existe hoje no País, de acordo com Vasconcelos.
Segundo o cientista, com parte da população já vacinada, com uma linhagem do mosquito menos apta a espalhar a doença e reduzida pelas medidas de controle tomadas por causa dos outros vírus, um trágico alastramento da febre amarela pelas grandes metrópoles como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro seria improvável. A vigilância, ainda assim, é absolutamente indispensável, de acordo com ele.
Membro titular da Academia Brasileira de Ciências e do Comitê de Febre Amarela da Organização Mundial de Saúde, Vasconcelos também coordena o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Febres Hemorrágicas Virais.
Médico de formação, ele tem mais de 250 artigos científicos publicados e participou diretamente da descoberta de mais de 100 novos vírus.
Já estamos acostumados com epidemias de vírus transmitidos por mosquitos no verão. Em que esse surto de febre amarela se diferencia das epidemias de dengue, chikungunya e zika que vimos nos últimos anos?
Os seis vírus urbanos competem entre si: os quatro subtipos da dengue, o da zika e o da chikungunya. Com o vírus da febre amarela é diferente. Ele é predominantemente silvestre e há mais de 80 anos não temos casos urbanos no Brasil. A alternância dos vírus de maior prevalência a cada temporada é natural – é uma questão evolutiva do vírus. Há um termo em inglês para essa dinâmica: “shift”. Quando há um surto de determinado vírus, as pessoas são infectadas e ficam imunes, o que vai reduzindo o número de suscetíveis. Um outro vírus então assume a posição, à medida que vai encontrando pessoas suscetíveis. Assim, os subtipos do vírus da dengue, por exemplo, vão se alternando. Há alguns anos, no Nordeste, depois de uma epidemia muito intensa, a população suscetível não se esgotou, mas foi reduzida e diminuiu muito a capacidade do vírus se manter circulando. O mesmo aconteceu com a chikungunya – que, no entanto, teve comportamento diferente e não explodiu como a zika e a dengue, mas continua circulando. A zika também passou por esse processo e o número de infecções caiu, mas esse vírus voltará a dar problema dentro de oito ou 10 anos, quando a população de suscetíveis for renovada.
Então já teria sido possível prever também este surto de febre amarela?
Sim e não. Sim, porque ele está ocorrendo em áreas muito próximas de onde ocorreu no passado. Era possível prever que o vírus continuaria a circular nessas áreas e que poderia reemergir em função da quantidade de macacos. Quando há muitos macacos, há muitos mosquitos Hemagogus (um dos transmissores da febre amarela silvestre), que irão infectá-los. O macaco infectado pode transferir o vírus para centenas de Hemagogous, que o transmitem ao longo de toda sua vida. E há transmissão vertical, isto é, a fêmea passa o vírus para parte dos seus ovos que, quando eclodem, já dão origem a mosquitos infectados. Por outro lado, o surto não era previsto porque se esperava que houvesse uma vacinação mais intensa nessas áreas. Aparentemente essa vacinação não ocorreu, não sei por qual razão. Estou acompanhando de longe a epidemia no Sudeste. Mas se a maior parte da população estivesse vacinada, não haveria tantos casos e, principalmente, não haveria tantas mortes.
A mortalidade está maior que a normal?
Não, está até mais baixa. No ano passado, tivemos cerca de 770 casos, com 291 óbitos, uma letalidade de aproximadamente 30%. A letalidade média no Brasil é de 50% entre os casos notificados. Se o diagnóstico pudesse ser feito em todas as pessoas infectadas, estimo que a letalidade giraria entre 10% e 20% dos casos confirmados.
Na sua opinião, quais são os riscos reais desse surto de febre amarela se tornar uma epidemia urbana na metrópole paulista?
Quantificar riscos é um tanto difícil, porque envolve uma série de variáveis que precisam ser analisadas. Não tenho como fazer uma estimativa sólida, mas, teoricamente, podemos fazer uma avaliação comparando o que ocorreu no passado e o que ocorre hoje. Nas primeiras décadas do século 20 – até 1930, quando a última grande epidemia de febre amarela urbana foi debelada no Estado do Rio de Janeiro, tínhamos um índice muito alto de infestação. Mas a quantidade de mosquitos era muito maior que agora e certamente podemos dizer que as condições atuais não permitem uma epidemia tão severa. Não temos essa quantidade de mosquitos hoje no Brasil, porque temos um controle do vetor urbano. Embora não se consiga impedir uma epidemia de dengue, zika, ou chikungunya, conseguimos evitar a transmissão humana do vírus da febre amarela. Isso acontece porque, no Aedes aegypti, esse vírus não se replica de forma tão eficiente quanto os outros três. Tanto é que os índices de infestação no Brasil costumam ficar em 5%, chegando no máximo a 10% em alguns locais. Esses números nos dão quase a certeza de que não teremos um surto de febre amarela urbana.
Graças à limitação do vírus da febre amarela para infectar o Aedes aegyti?
Além disso, grande parte da população pode dispor a vacina – mesmo fracionada – em um eventual início de transmissão urbana. Isso nos permite agir prontamente e acabar com a situação de forma rápida, vacinando a população rapidamente, eliminando criadouros e borrifando mosquitos adultos. Essa foi a experiência que tivemos em um pequeno surto de febre amarela que houve na região metropolitana de Assunção, em 2008. Com essas medidas, rapidamente o vírus foi debelado e o aumento do número de casos foi detido. Mesmo assim, lá foi estimado, na época, logo no início da epidemia, que os índices eram de cerca de 20%. A gente imagina que isso não vá ocorrer no Brasil. Como hoje o controle vetorial e a vacinação são descentralizados, atribuídos aos municípios, temos que estar alertas, porque se um município em uma área complexa, como as regiões metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro, não fizer o combate como deveria, os índices de infestação sobem e, ao mesmo tempo, o local começa a escoar a população de mosquitos para os municípios vizinhos. Os gestores de cada unidade da federação devem ficar atentos. Mas tenho certa tranquilidade para dizer que, efetivamente, não vamos vivenciar um surto de febre amarela urbana no Brasil.




