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Mercado recebe Lula com dólar em alta, tombo nas ações da Petrobras, bolsa em queda de 3%

BRASÍLIA – O mercado brasileiro reagiu com dólar e juros futuros em alta e ações em queda no primeiro pregão após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tomar posse, em meio a já conhecidas promessas de priorizar questões sociais e o combate a desigualdades, enquanto prorrogou desoneração de combustíveis e travou privatizações.

Nesta tarde, o dólar subia 1,5%, a 5,3610 reais, enquanto o Ibovespa, referência do mercado acionário local, caía 3,3%, com as ações preferenciais da Petrobras recuando 6,4%. No mercado futuro, a taxa do contrato de DI para janeiro de 2024 subia a 13,53%.

Em discursos na posse em Brasília no domingo, Lula voltou a prometer que o combate à fome e às desigualdades seria a marca de seu terceiro mandato na Presidência. O presidente também repetiu críticas à regra do teto de gastos, que classificou de “estupidez”, e prometeu revogá-la, ainda que tenha se comprometido com um governo responsável do ponto de vista fiscal.

Lula ainda afirmou que irá resgatar o papel das instituições de Estado, bancos públicos e empresas estatais no desenvolvimento do país, afirmando que especialmente o BNDES e as empresas indutoras do crescimento e inovação, como a Petrobras, terão papel fundamental neste novo ciclo.

As declarações do presidente não chegam a ser novidade, e, conforme ressaltou a XP Investimentos em nota a clientes mais cedo, reforçam as diretrizes econômicas anunciadas durante a campanha eleitoral. Mas também não trazem alívio aos negócios, uma vez que a sinalização, principalmente fiscal, segue negativa.

“A ideia de que o governo terá uma postura desenvolvimentista, com maior participação do Estado na economia pode ter um efeito negativo no equilíbrio fiscal nos próximos anos”, afirmou o analista Luis Novaes, da Terra Investimentos.

Nesta segunda-feira, Lula instruiu ministros a revogar medidas de privatização de empresas estatais tomadas pelo governo anterior de Jair Bolsonaro, incluindo estudos para vender a Petrobras.

Ele já havia assinado no domingo um decreto que prorroga a desoneração de combustíveis, medida aprovada por seu antecessor com o objetivo de baratear os preços às vésperas da eleição, mas que privará o Tesouro de 52,9 bilhões de reais por ano em receita.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, havia dito que a isenção não seria prorrogada, mas depois o senador Jean Paul Prates (PT-RN), indicado a presidente da Petrobras, disse que a prorrogação iria adiante, criando um primeiro desencontro na área econômica.

Na visão do sócio e estrategista da Meta Asset, Alexandre Póvoa, o mercado está percebendo que, diferentemente do Antonio Palocci de 2003, Haddad não conseguirá ser um anteparo a um Lula muito mais agressivo e intervencionista do que foi há 20 anos.

“Primeiro, uma infeliz declaração (de Lula) que chama de ‘estupidez’ o teto de gastos. Depois já contraria Haddad na questão da reoneração do preço dos combustíveis, importante para as contas públicas”, elencou.

Póvoa ainda destacou a declaração de Haddad de que Lula quer esperar a nova diretoria da Petrobras para tomar decisão sobre combustíveis. “Está parecendo que vão querer forçar o preço dos combustíveis para baixo para poder retornar o imposto.”

O ministro da Fazenda também afirmou nesta segunda-feira que não aceitará um resultado fiscal neste ano que não seja melhor do que a atual previsão de déficit de 220 bilhões de reais, e prometeu uma gestão fiscal confiável. “Não estamos aqui para aventuras”, disse, tentando acalmar o nervosismo do mercado.

“Duas coisas se mostram claras: o novo governo se mostra mais populista e gastão e parece haver algum conflito entre as vontades de Lula e Haddad”, observou o sócio da Nexgen Capital . Felipe Izac.

Ele acrescentou que a possibilidade de que Haddad acabe aceitando “canetadas” de Lula traz muita preocupação, principalmente na questão fiscal. A desidratação da PEC, citou, tinha dado início a algum bom humor no mercado, mas no domingo esse sentimento se reverteu.

“O mercado já começou o ano com um balde de água fria.”

Economistas criticam discursos de Lula e Haddad

Economistas receberam com, no mínimo, apreensão os discursos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, feitos no domingo (1º/1), tanto no Congresso Nacional como no parlatório do Palácio do Planalto, assim como as manifestações do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, nesta manhã (2/1).

Lula, por exemplo, definiu o teto de gastos como uma “estupidez”, reafirmou a visão do papel do Estado como indutor do crescimento, criticou a reforma trabalhista assim como a postura de acionistas de estatais como a Petrobras. Por fim, indicou que o avanço da economia deve ter o consumo como pilar.

Haddad, por sua vez, prometeu uma nova âncora fiscal até meados do ano, mas não especificou como ela será. O mercado interpretou ainda a decisão do governo de desonerar os combustíveis por 60 dias como uma derrota do novo ministro da Fazenda. Nos últimos dias, ele havia se posicionado contra a medida. Foi por isso que a bolsa e o dólar se movimentaram negativamente na manhã de hoje.

Márcio Holland, professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV/EESP), onde coordena a pós-graduação em Finanças e Economia, considera que, além das falas, é preciso observar as ações concretas que serão tomadas a partir de agora pelo governo.

De qualquer forma, contestou os pontos mencionados pelo presidente em seu discurso inaugural. “Há um grande equívoco em criticar a regra de teto de gastos” disse. “O país precisa de uma restrição orçamentária até para evitar um aumento ainda maior da carga tributária para financiar mais despesas. O Brasil necessita de disciplina fiscal de modo consistente, inclusive se desejarmos conviver com baixas taxas de juros.”

Sobre a atuação do setor público como fonte de tração para o avanço da economia, ele disse: “O Estado brasileiro tem muitas deficiências para induzir o crescimento. Também há um grande engano em acreditar no papel das estatais para tal. Isso é algo bastante arcaico.”

A respeito do papel das estatais, Holland observou que, na prática, elas estão “a serviço de um poder controlador e indicações político-partidárias”. “O fato é que elas não têm uma função social relevante”, afirmou. “É um equívoco acreditar que vão ajudar no crescimento econômico.”

Para o economista da FGV, atrelar a evolução da economia ao consumo é outro erro. “O crescimento tem de ter como base o investimento em pesquisa, inovação, além do aumento da produtividade e a distribuição de renda”, opina. “A partir daí, o consumo vem a rebolque. Não o contrário.”

Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados, considerou que os discursos de Lula foram “como o esperado”, baseados no “uso do Estado como fonte para estimular o crescimento”. “Não seria diferente e nesse sentido não houve novidade”, avalia. “Mas reforça a ideia de um governo que vai tentar ter um papel mais ativo do que seria o ideal. Por exemplo, mexer na reforma trabalhista seria um erro.”

Vale considera ainda que “chamar a regra do teto de estupidez passa a impressão de que o regime fiscal que vem pela frente pode ser frágil”. “Continua a visão, chancelada pelo Haddad, de que a arrecadação será o foco de atenção para o ajuste fiscal possível”, nota. “Com isso, tanto o discurso do Lula quanto o de Haddad sinalizam que vai haver aumento da carga tributária nos próximos anos para fazer o ajuste fiscal. E ele não vai acontecer por meio do corte de gastos.”

André Perfeito, economista-chefe da corretora Necton, ressalta que, para além do discurso, tanto Lula como Haddad precisam se posicionar de “forma concreta” sobre os temas que abordam. “É claro que eles estão falando coisas que desagradam ao mercado, mas o que querem dizer exatamente?”, questiona. “Sobre a Petrobras, por exemplo, vai haver controle de preços ao arrepio da margem de lucro da empresa? Ou ainda, como vai ser resolvida a questão fiscal?” Para Perfeito, esses pontos têm se ser esclarecidos com urgência. “O governo precisa dizer o que de fato quer”, concluiu. ‘Até agora só disse o que não quer “.

(Reportagem adicional de Gabriel Araújo)/Acréscimo de Informações-Goiás Em Tempo/

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