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Goiás lidera recorde de pesquisas eleitorais

A cinco meses das eleições municipais, o número de pesquisas eleitorais registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) neste ano é o maior já registrado desde que a série histórica começou em 2012. Entre janeiro e abril, foram realizados 1.127 levantamentos, quatro vezes mais do que no último pleito para prefeito e vereador em 2020, quando foram registradas 296 pesquisas no mesmo período.
Um dado relevante é que quase metade dessas pesquisas (44,4%), ou seja, 500 delas, foram autofinanciadas — pagas pela mesma empresa que conduziu a sondagem. Nesse modelo, ao informarem que realizaram o levantamento com recursos próprios, os responsáveis não precisam prestar contas sobre a origem do dinheiro. Isso tem gerado preocupação em entidades e tem sido tema de debate no Congresso, levantando questionamentos sobre a transparência e a integridade dessas pesquisas eleitorais.
Os dados do Tribunal Superior Eleitoral indicam que essa prática já era predominante em 2020, representando 74% dos levantamentos registrados. No entanto, esse número caiu na eleição subsequente, em 2022, para 36%. Nessa época, a Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) solicitou uma investigação sobre a proliferação de CNPJs que estavam registrando pesquisas eleitorais financiadas pela própria empresa.
“Empresas de pesquisa não são atividades beneficentes. Se surgem empresas que se dedicam a uma prática reincidente de levantamentos feitos com recursos próprios, isso pode ser um indicativo de que está acontecendo um financiamento implícito, que não aparece”, afirmou o presidente do Conselho de Opinião Pública da Abep, João Meira, que também é diretor e fundador do Vox Populi.
Projeto no Senado
A proibição de pesquisas autofinanciadas é um dos pontos do projeto que trata do Código Eleitoral, o qual já foi aprovado na Câmara dos Deputados, mas ainda não tem consenso no Senado. O relator do projeto, senador Marcelo Castro (MDB-PI), defende o fim dessa prática, buscando garantir maior transparência e credibilidade nas pesquisas eleitorais.
“O que um instituto ganha em fazer a pesquisa de um candidato? É como se fosse uma loja que não vende as suas mercadorias. Isso serve para esconder quem o contratou, geralmente com dinheiro vivo”, disse Marcelo Castro.
Em fevereiro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou uma resolução com o objetivo de trazer mais transparência às pesquisas autofinanciadas. Neste ano, as empresas são obrigadas a enviar ao TSE o Demonstrativo de Resultado de Exercício (DRE) do ano anterior para comprovar que têm capacidade financeira para custear seus próprios levantamentos.
Especialistas em eleições e representantes do setor também atribuem o aumento no número de pesquisas eleitorais registradas à popularização dos métodos de coleta de dados. Anteriormente, os levantamentos eram feitos pessoalmente, mas agora, com processos automatizados, é possível enviar uma série de perguntas usando apenas uma base de e-mails ou números de telefone.
Maurício Moura, presidente do Instituto Big Data, destaca que a proliferação de institutos de pesquisa permite que os levantamentos não se limitem apenas aos grandes centros urbanos, alcançando uma maior diversidade de regiões e eleitores.
“O mercado começa dialogar com mercados com mais oferta e competição como Europa, México e Estados Unidos. Nesses países o grau de especialização local e regional explica a maior oferta de institutos. Isso vem acontecendo no país. Estamos saindo de um regime duopolista e ampliando oferta de institutos”, afirmou Moura.
Pesquisas contratadas
Parte dos levantamentos é encomendada pelos próprios partidos políticos, que buscam avaliar o potencial eleitoral de seus quadros antes de oficializar as candidaturas. O partido que mais investiu até o momento em pesquisas foi o PL, liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, que destinou R$ 199 mil para levantamentos em municípios onde pretende disputar a prefeitura. Por exemplo, o PL contratou dois levantamentos, um em Santos (SP) e outro em Londrina (PR), cada um custando R$ 40 mil.
Em Santos, o partido avalia lançar a deputada federal Rosana Valle como candidata. Já em Londrina, ainda não há consenso sobre qual será o nome escolhido entre o deputado Filipe Barros e o presidente da Companhia de Habitação (Cohab), Bruno Ubiratan, para concorrer à prefeitura.
O PSD foi a segunda legenda que mais investiu em pesquisas, realizando 18 levantamentos em cidades do interior do Piauí. O custo total foi de R$ 66,5 mil, com cada pesquisa variando entre R$ 3,5 mil a R$ 5,5 mil, financiados pelo Fundo Partidário do partido liderado por Gilberto Kassab.
O Republicanos no Piauí também contratou quatro pesquisas, sendo três delas na capital, Teresina, totalizando um gasto de R$ 34 mil. Por sua vez, o PT, partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, registrou apenas uma pesquisa, realizada em São João do Arraial, também no interior do Piauí.
O estado que registrou o maior número de pesquisas até o momento foi Goiás, com um total de 157 levantamentos. A pesquisa de maior valor foi contratada pelo PL, que enfrenta divisões na definição do candidato em Goiânia. O partido investiu R$ 34 mil para avaliar a viabilidade do deputado Gustavo Gayer (PL-GO), que já se lançou como pré-candidato, mas enfrenta resistências internas.
Segundo o cientista político Carlos Pereira, da Fundação Getulio Vargas (FGV), devido à polarização eleitoral observada nas últimas disputas, houve uma corrida para que os candidatos testem suas chances por meio de pesquisas eleitorais.
“A pesquisa não determina o voto do eleitor, mas influencia principalmente na sua decisão de votar de acordo com suas convicções políticas e ideológicas (voto sincero) ou estrategicamente (voto útil)”, afirmou.
Há ainda uma percepção de que os pré-candidatos precisam gerar constantemente conteúdo para as suas redes sociais. “e uma pesquisa favorável serve de material para ele divulgar ao seu eleitor…”
“Uma parte da luta política hoje é feita por meio de convencimento da opinião pública. Isso é uma consequência das redes sociais e da ampliação da circulação dessas informações e da maneira como elas impactam o debate político”, afirmou Rafael Cortez, do Instituto de Direito Público (IDP).
Com Agência de Notícias/ Goiás 246/




