BrasilEconomiaJustiçaPolítica

Banco Master é investigado por transações de R$ 2,8 bilhões ligadas a suspeitas de lavagem para PCC e Hezbollah, diz Folha

A Polícia Federal investiga o envolvimento do Banco Master em uma série de transações cambiais no valor de R$ 2,8 bilhões com a empresa One World Services (OWS), apontada como elo financeiro de organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o grupo terrorista Hezbollah. As operações foram realizadas entre dezembro de 2018 e abril de 2021, quando o banco ainda operava sob o nome Banco Máxima. As informações são do jornal Folha de S. Paulo.

A justificativa oficial para os envios ao exterior era o aumento de capital de uma offshore da OWS em Miami. No entanto, documentos analisados pela PF indicam que o banco permitiu movimentações milionárias sem a devida documentação exigida pelas normas cambiais da época. Apenas 15 atas societárias foram apresentadas para justificar 331 operações.

 

 

Segundo relatório da PF, o Banco Master e outras instituições financeiras “fecharam deliberadamente os olhos para a realidade de seus clientes”.

A OWS, controlada por José Eduardo Froes Junior e seus irmãos, atua no mercado de criptoativos por meio de operações de balcão (OTC), segmento conhecido por menor fiscalização e ausência de intermediários tradicionais. A investigação revelou que a empresa comprava bitcoins para condenados por lavagem de dinheiro e intermediava valores para empresas com ligações suspeitas com o narcotráfico e o terrorismo internacional.

Mensagens interceptadas pela PF mostraram que valores foram transferidos para carteiras de criptomoedas sancionadas por Israel, ligadas ao Hezbollah. Um dos principais nomes envolvidos é o de Dante Felipini, conhecido como “criptoboy”, que movimentou mais de R$ 700 milhões com a OWS e foi condenado a 17 anos de prisão por lavagem de dinheiro e associação criminosa.

 

 

Felipini foi preso em janeiro de 2024 ao tentar embarcar para Dubai, onde mantinha uma offshore habilitada a operar com ativos digitais.

Diante das suspeitas, o Banco Central abriu uma apuração interna, após ser notificado pela Polícia Federal. O Master informou à Folha que o caso foi encerrado no âmbito administrativo por meio de um termo de compromisso, sem reconhecimento de irregularidades. O valor da multa aplicada não foi divulgado.

 

À época, o Banco Central ainda exigia a apresentação de documentos para justificar transferências internacionais. Em dezembro de 2022, a autarquia eliminou essa obrigatoriedade — justamente a norma usada pela PF para detectar movimentações suspeitas no sistema financeiro.

 

O Banco Master, diferentemente de outras instituições que romperam relações com a OWS — como o Topázio, o MS Bank e o UBS da Suíça —, seguiu operando com a empresa, mesmo diante dos sinais de irregularidade. Documentos apresentados à PF indicam manipulação de dados, como atas geradas em série com minutos de diferença.

Apesar da gravidade, o juiz federal Diego Paes Moreira rejeitou pedidos de prisão e bloqueio de bens contra Froes Junior, alegando que não havia provas de que ele tivesse conhecimento da origem criminosa dos recursos.

 

Em resposta à fragilidade regulatória revelada pelo caso, o Banco Central passou a exigir, a partir do fim de 2025, que todas as operações cambiais envolvendo criptoativos sejam declaradas com os mesmos critérios exigidos das casas de câmbio tradicionais.

As revelações ampliam a pressão sobre o Banco Master, que já enfrenta investigação por desvio de recursos, fraude financeira e colapso de liquidez. O envolvimento com a OWS, somado ao uso de instrumentos frágeis de controle, levanta questionamentos sobre o grau de conivência da instituição com práticas de lavagem de dinheiro, e expõe vulnerabilidades profundas na supervisão do sistema financeiro nacional.

 

Related Articles