{"id":9356,"date":"2018-01-08T04:37:02","date_gmt":"2018-01-08T04:37:02","guid":{"rendered":"http:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=9356"},"modified":"2018-01-08T04:37:02","modified_gmt":"2018-01-08T04:37:02","slug":"escritores-e-um-escandalo-impulsionaram-a-primavera-de-praga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/escritores-e-um-escandalo-impulsionaram-a-primavera-de-praga\/","title":{"rendered":"Escritores e um esc\u00e2ndalo impulsionaram a Primavera de Praga"},"content":{"rendered":"<p>Escritores, como Milan Kundera, e um estranho esc\u00e2ndalo contribu\u00edram para que fosse desencadeado um breve per\u00edodo de liberdade em 1968 na Tchecolosv\u00e1quia comunista, antes que os tanques do Pacto de Vars\u00f3via entrassem em a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Este per\u00edodo de socialismo com rosto humano introduzido por Alexander Dubcek, que mais tarde seria chamado de Primavera de Praga, teve origem em um congresso tchecoslovaco de escritores de 1967, segundo a soci\u00f3loga Jirina Siklova.<\/p>\n<p>Homens de letras, como Kundera e o futuro presidente tcheco, Vaclav Havel, instaram o Partido Comunista (PC) a garantir a liberdade de express\u00e3o, abrindo caminho para a pr\u00f3pria liberdade.<\/p>\n<p>O PC come\u00e7ou a se dividir e estava claro que algo iria mudar, afirma Siklova, que naquele momento estava afiliada ao partido. A esperan\u00e7a era imensa.<\/p>\n<p>Petr Pithart, que tamb\u00e9m era comunista naquela \u00e9poca, e depois presidente do Senado (1996-1998 e 2000-2004), recorda as tens\u00f5es entre tchecos e eslovacos, outro fator que, segundo ele, debilitou o sistema.<\/p>\n<p>Os eslovacos queriam ser tratados como iguais perante os tchecos e entenderam que um choque frontal era sua \u00fanica op\u00e7\u00e3o, aponta.<\/p>\n<p>Em 5 de janeiro de 1968, Alexander Dubcek, um eslovaco, se p\u00f5e \u00e0 frente do pa\u00eds como primeiro secret\u00e1rio do PC. Criticado por sua pol\u00edtica, o presidente Antonin Novotny, chefe de Estado desde 1957 e do PC desde 1953, teve que lhe ceder o lugar, porque o Comit\u00ea Central proibiu que ele acumulasse os dois cargos.<\/p>\n<p>Esta cadeia de eventos criou um ambiente que acelerou muito as coisas, diz Pithart.<\/p>\n<p>&#8211; A queda de Novotny &#8211;<\/p>\n<p>Novotny abandonou o posto-chave na lideran\u00e7a do PC, a pol\u00edcia come\u00e7ou a investigar um tr\u00e1fico de sementes de trevos procedentes dos armaz\u00e9ns do ex\u00e9rcito. Um dos principais suspeitos era um protegido do presidente, o general Jan Sejna, que o havia organizado para financiar sua vida de luxo e suas amantes. Para evitar a pris\u00e3o, Sejna foi para a It\u00e1lia e, da\u00ed, aos Estados Unidos, onde obteve asilo pol\u00edtico (e forneceu valiosas informa\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia militar).<\/p>\n<p>Foi um grande esc\u00e2ndalo e em dois ou tr\u00eas dias, todas as barreiras ca\u00edram, os meios come\u00e7aram a falar de tudo, recorda Pithart.<\/p>\n<p>Sejna tamb\u00e9m foi acusado de ter considerado, junto com outros oficiais conservadores, como o general coronel Vladimir Janko (que se suicidou em 14 de mar\u00e7o de 1968), organizar um golpe militar para manter Novotny no poder.<\/p>\n<p>Sua fuga precipitou a queda do presidente, que renunciou em 22 de mar\u00e7o de 1968.<\/p>\n<p>De repente, as pessoas descobriram a solidariedade, poder\u00edamos inclusive dizer que estavam dispostos a sacrificar algo. Reinou uma euforia fant\u00e1stica, diz Pithart.<\/p>\n<p>Foram publicados livros proibidos, como Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, de Alexander Solzhenitsyn, foram representadas obras de teatro de Havel e Ionesco e as fronteiras foram abertas. Filmes at\u00e9 ent\u00e3o proibidos foram projetados, as pessoas escutavam m\u00fasica moderna e se produziram debates em um tom muito livre.<\/p>\n<p>&#8211; Strip-tease &#8211;<\/p>\n<p>At\u00e9 fotos de mulheres nuas apareceram em revistas, e tamb\u00e9m surgiram os espet\u00e1culos de strip-tease.<\/p>\n<p>Mas a invas\u00e3o do Pacto de Vars\u00f3via rapidamente p\u00f4s fim a tudo isso.<\/p>\n<p>Em 21 de agosto, as for\u00e7as sovi\u00e9ticas, b\u00falgaras, do leste alem\u00e3o, h\u00fangaras e polonesas invadiram a Checoslov\u00e1quia para restabelecer a ortodoxia comunista e for\u00e7ar os novos dirigentes a recuarem.<\/p>\n<p>Siklova deixou o PC em 1969, e depois a universidade, para se tornar um varredor.<\/p>\n<p>Passou um ano na pris\u00e3o, em 1981, quatro anos depois de que a oposi\u00e7\u00e3o publicou um manifesto chamado Carta 77. Siklova e Pithart o haviam assinado.<\/p>\n<p>Pithart devolveu sua carteirinha do PC em 1969 para protestar contra Dubcek, contra a forma como negociou ap\u00f3s a ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O estudante de Direito que cursou parte da sua forma\u00e7\u00e3o em Oxford acabou, de repente, sondando \u00e1guas subterr\u00e2neas e vivendo em uma caravana.<\/p>\n<p>Mas hoje, quando relembram 1968, Siklova e Pithart asseguram que a Primavera de Praga foi um sucesso, pois deu um forte golpe \u00e0 URSS e ao seu prest\u00edgio no mundo.<\/p>\n<p>O socialismo com rosto humano ficou nos esp\u00edritos como uma alternativa, como uma possibilidade. N\u00e3o somos obrigados a ter um socialismo do tipo sovi\u00e9tico, com seu peso, afirma Siklova.<\/p>\n<p>Para Pithart, o comunismo era apenas um disfarce para a ideia imperial russa, que assumiu uma forma distinta.<\/p>\n<p>O comunismo \u00e9 passado. Mas devemos temer a R\u00fassia de novo, n\u00e3o porque seja comunista, mas porque milh\u00f5es de russos est\u00e3o dispostos a morrer por esta ideia imperial e n\u00e3o h\u00e1 nenhuma outra na\u00e7\u00e3o no mundo que seja capaz disso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escritores, como Milan Kundera, e um estranho esc\u00e2ndalo contribu\u00edram para que fosse desencadeado um breve per\u00edodo de liberdade em 1968 na Tchecolosv\u00e1quia comunista, antes que os tanques do Pacto de Vars\u00f3via entrassem em a\u00e7\u00e3o. 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