{"id":8514,"date":"2018-01-04T15:31:04","date_gmt":"2018-01-04T15:31:04","guid":{"rendered":"http:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=8514"},"modified":"2018-01-04T15:31:04","modified_gmt":"2018-01-04T15:31:04","slug":"argelia-afetadas-por-cancer-sao-abandonadas-pelo-marido-apos-mastectomia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/argelia-afetadas-por-cancer-sao-abandonadas-pelo-marido-apos-mastectomia\/","title":{"rendered":"Arg\u00e9lia: afetadas por c\u00e2ncer s\u00e3o abandonadas pelo marido ap\u00f3s mastectomia"},"content":{"rendered":"<p>O c\u00e2ncer? N\u00e3o \u00e9 nada em compara\u00e7\u00e3o com o fato de ser rejeitada ap\u00f3s 18 anos de casamento, conta Linda que, como muitas argelinas, foi abandonada por seu marido ap\u00f3s sofrer uma mastectomia, extirpa\u00e7\u00e3o de uma mama, devido \u00e0 doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Depois da opera\u00e7\u00e3o, seu marido a chamava de nass mraa (meia mulher) e lamgataa (a mutilada), lembra anos depois esta assistente m\u00e9dica, m\u00e3e de tr\u00eas filhos que a apoiaram frente a seu pai.<\/p>\n<p>Zohra tamb\u00e9m se submeteu a uma mastectomia em 2015. Ap\u00f3s 25 anos de casamento, seu marido pediu o div\u00f3rcio e a deixou sem recursos. Foi odioso, diz esta dona de casa de 53 anos.<\/p>\n<p>Linda e Zohra n\u00e3o s\u00e3o casos isolados. Centenas de argelinas s\u00e3o abandonadas por seus maridos por causa de um c\u00e2ncer de mama, se indigna Samia Gasmi, presidente da associa\u00e7\u00e3o Nur doha (Luz do dia), que ajuda os doentes de c\u00e2ncer de ambos os sexos.<\/p>\n<p>Algumas mergulham na depress\u00e3o, (&#8230;) outras acabam em centros de acolhimento porque n\u00e3o t\u00eam aonde ir, explica Gasmi.<\/p>\n<p>\u00c9 complicado falar de c\u00e2ncer de mama ou de mastectomia na Arg\u00e9lia, onde tudo relacionado com a vida \u00edntima costuma ser tabu. As mulheres entrevistadas pela AFP pediram anonimato.<\/p>\n<p>Consideram sua doen\u00e7a algo vergonhoso, diz Gasmi.<\/p>\n<p>&#8211; Casados por amor &#8211;<\/p>\n<p>Para Yamina Rahou, soci\u00f3loga no centro de pesquisa em antropologia social e cultural de Or\u00e3, esse sentimento de vergonha vem do sofrimento de ter amputada uma parte [do corpo] que simboliza a feminilidade.<\/p>\n<p>O te\u00f3logo Kamel Chekkat, da associa\u00e7\u00e3o de ulem\u00e1s da Arg\u00e9lia, nega qualquer v\u00ednculo entre esses comportamentos e o isl\u00e3. N\u00e3o \u00e9 um problema de religi\u00e3o, mas de educa\u00e7\u00e3o. A religi\u00e3o exorta os esposos a se apoiarem mutuamente e, para o isl\u00e3, o homem respeit\u00e1vel honra a sua mulher e o homem vil a humilha.<\/p>\n<p>Hayat conheceu a humilha\u00e7\u00e3o quando seu namorado terminou com ela, logo depois que ela lhe revelou sua doen\u00e7a e a mastectomia de urg\u00eancia a que foi submetida. Me disse: Quero uma mulher inteira, n\u00e3o tr\u00eas quartos de mulher, lembra, chorando, esta estudante de 30 anos.<\/p>\n<p>O marido de Sa\u00efda sequer esperou que ela sa\u00edsse do hospital para pedir o div\u00f3rcio, a guarda do filho e para esvaziar sua conta corrente. De uma hora para a outra, esta m\u00e9dica de 55 anos se encontrou na rua e teve que se instalar em um hotel.<\/p>\n<p>Embora com o tempo tenha conseguido recuperar seu filho, continua sem entender a atitude de seu marido, 15 anos depois do ocorrido. Nos conhecemos na universidade, nos casamos por amor. Ele participava inclusive nas manifesta\u00e7\u00f5es a favor dos direitos das mulheres, mas n\u00e3o hesitou um segundo em me abandonar, como se fosse uma merda!.<\/p>\n<p>No caso de Safia, uma professora de 32 anos, foi ela quem deixou o namorado depois que retiraram suas duas mamas. Preferi terminar com ele antes de que ele o fizesse, sua fam\u00edlia n\u00e3o me amava mais.<\/p>\n<p>&#8211; Quem vai amar uma mulher como eu? &#8211;<\/p>\n<p>O c\u00e2ncer de mama \u00e9 o mais frequente na Arg\u00e9lia. Como em n\u00edvel mundial, o n\u00famero de casos registrados aumentou &#8211; cinco vezes mais a cada ano do que h\u00e1 duas d\u00e9cadas &#8211; devido a melhores m\u00e9todos de diagn\u00f3stico, ao aumento da expectativa de vida e tamb\u00e9m a mudan\u00e7as nos h\u00e1bitos (menos atividade f\u00edsica, sobrepeso, tabagismo, etc), segundo os especialistas.<\/p>\n<p>A cada ano se registram entre 9.000 e 10.000 casos de c\u00e2ncer de mama na Arg\u00e9lia, e cerca de 3.500 argelinas morrem em consequ\u00eancia dessa doen\u00e7a, indica Farid Cherbal, professor de gen\u00e9tica do c\u00e2ncer na universidade de Argel.<\/p>\n<p>Para as que sofrem uma mastectomia, o acesso \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o do seio \u00e9 restrito. Os centros p\u00fablicos que a oferecem gratuitamente est\u00e3o saturados, e a opera\u00e7\u00e3o \u00e9 muito cara no setor privado.<\/p>\n<p>Linda, a mutilada, est\u00e1 hoje divorciada e em remiss\u00e3o, e assegura que a doen\u00e7a a libertou de um marido que a espancava e gastava o seu sal\u00e1rio.<\/p>\n<p>Com a quimioterapia e a radioterapia, Safia perdeu 10 quilos desde a sua opera\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um ano. Tem poucas esperan\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o ao futuro. Meus pais me apoiam, mas quem vai amar uma mulher como eu?.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O c\u00e2ncer? N\u00e3o \u00e9 nada em compara\u00e7\u00e3o com o fato de ser rejeitada ap\u00f3s 18 anos de casamento, conta Linda que, como muitas argelinas, foi abandonada por seu marido ap\u00f3s sofrer uma mastectomia, extirpa\u00e7\u00e3o de uma mama, devido \u00e0 doen\u00e7a. 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