{"id":8236,"date":"2018-01-03T12:23:46","date_gmt":"2018-01-03T12:23:46","guid":{"rendered":"http:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=8236"},"modified":"2018-01-03T12:26:41","modified_gmt":"2018-01-03T12:26:41","slug":"a-foto-do-menino-negro-que-fala-de-como-vemos-um-menino-negro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/a-foto-do-menino-negro-que-fala-de-como-vemos-um-menino-negro\/","title":{"rendered":"A foto do menino negro que fala de como vemos um menino negro"},"content":{"rendered":"<p>Um menino negro, na beira do mar, admira de olho grande e boca aberta os fogos da virada do ano na praia de Copacabana. Est\u00e1 aparentemente sozinho, veste uma bermuda molhada, com os pulsos entrela\u00e7ados na altura do umbigo, enquanto em outro plano, na areia, a massa vestida de branco comemora a entrada de 2018. Alguns d\u00e3o as costas ao menino, ao mar e aos fogos para tirar suas selfies, e outros comemoram absortos o espet\u00e1culo. A imagem em preto e branco, tirada pelo fot\u00f3grafo Lucas Landau para ag\u00eancia Reuters, est\u00e1 tomando as redes sociais de milhares de brasileiros com infinidade de legendas diferentes. A fotografia fala de um menino negro de nove anos numa praia durante uma festa, mas, vista a repercuss\u00e3o, fala tamb\u00e9m de como a interpretamos.<\/p>\n<p>Os primeiros compartilhamentos da foto, que originalmente foi enviada em cores \u00e0 ag\u00eancia, viram nela da \u201cinvisibilidade do nosso cotidiano\u201d \u00e0 \u201cimagem da exclus\u00e3o social\u201d. Muitos enxergaram um menino perdido, pobre, assustado, sendo ignorado pela massa branca. Viu-se at\u00e9 a imagem das \u201cconsequ\u00eancias do golpe\u201d e foi um \u201csoco no est\u00f4mago\u201d de outros tantos. \u201cEssa \u00e9 a nossa humanidade hip\u00f3crita\u201d, \u201cque essa imagem sirva de reflex\u00e3o para o que podemos ser em 2018: mais sens\u00edveis, mais tolerantes, mais inclusivos\u201d, \u201cde um lado o encanto. Do outro a indiferen\u00e7a\u201d, legendavam os internautas. Houve tamb\u00e9m quem, fugindo da interpreta\u00e7\u00e3o racial, viu a autenticidade de uma crian\u00e7a curtindo o espet\u00e1culo enquanto os adultos davam as costas \u00e0 pirotecnia para tirar seu melhor autoretrato. E tamb\u00e9m quem aproveitou a imagem e criou memes exaltando pautas da esquerda.<\/p>\n<p>Enquanto a foto viralizava, ativistas do movimento negro lan\u00e7avam uma outra quest\u00e3o: enxergar\u00edamos essa foto da mesma maneira se o protagonista fosse um menino branco e loiro?<\/p>\n<p>\u201cO problema n\u00e3o \u00e9 a foto, \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o dela, do seu contexto. As pessoas que olham aquela foto est\u00e3o pr\u00e9-condicionadas a entender que a imagem de uma pessoa negra \u00e9 associada a pobreza e abandono, quando na verdade \u00e9 s\u00f3 uma crian\u00e7a negra na praia. Essa precondi\u00e7\u00e3o \u00e9 racismo natural, que vem da m\u00e1 educa\u00e7\u00e3o do povo brasileiro sobre ele mesmo\u201d, lamenta o escritor Anderson Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Fran\u00e7a v\u00ea nesta foto o &#8220;fetichismo do preto, assim como h\u00e1 fetichismo pelo nazismo, fetichismo pelo oprimido assim como h\u00e1 fetiche pelo opressor&#8221;. \u201cUsamos o discurso incoerente de que estamos preocupados com a dor dele, mas na verdade n\u00f3s sentimos prazer. Por isso n\u00f3s escrevemos embaixo da foto textos enormes elucubrando sobre o abandono daquele menor, quem possivelmente seria o pai ou a m\u00e3e, por que ele fugiu, por que ele passa fome&#8230; N\u00f3s fetichizamos o sujeito. E ainda h\u00e1 quem queira um <em>souvenir<\/em>: comprar a foto. Mas n\u00e3o est\u00e3o comprando a foto, est\u00e3o comprando o que pensam sobre a foto\u201d.<\/p>\n<p>Sob o apelo \u201cParem com os estere\u00f3tipos de crian\u00e7as negras\u201d, Mayara Assun\u00e7\u00e3o, do Coletivo Kianda, um grupo de mulheres negras que discutematernidade,arte,educa\u00e7\u00e3o e cultura, escrevia: \u201cEu vejo uma crian\u00e7a que parou para olhar a queima de fogos no meio de uma festa. Sinceramente, n\u00f3s temos que parar de achar que todo menino negro e sem camisa est\u00e1 abandonado, triste, sozinho, infeliz e contrastando com a felicidade dos outros. Temos que parar de achar que todo menino sozinho \u00e9 crian\u00e7a que vive em situa\u00e7\u00e3o de rua. Temos que parar de achar um monte de coisas. Inclusive, que \u00e9 legal expor nossas crian\u00e7as para a branquitude come\u00e7ar o ano com pena e compaix\u00e3o de n\u00f3s. Ah, por favor n\u00e9, a gente tem essa mania horr\u00edvel de refor\u00e7ar os estere\u00f3tipos de nossas crian\u00e7as: \u2018Que pena!\u2019, \u2018\u00c9 o retrato do Brasil!\u2019, \u2018Imagem muito impactante, refor\u00e7a as desigualdades do pa\u00eds\u2019. Parem! Voc\u00eas nem sabem quem \u00e9 aquele menino. E voc\u00eas n\u00e3o querem saber tamb\u00e9m. Para 2018, menos estere\u00f3tipos para crian\u00e7as negras por favor.\u201d<\/p>\n<p>Suzane Jardim, educadora e historiadora e cuja reflex\u00e3o sobre a repercuss\u00e3o da imagem foi compartilhada mais de mil vezes, sustenta que \u201ca quest\u00e3o \u00e9 perceber como o corpo negro deixa de ser dotado de individualidade para se tornar um s\u00edmbolo que dialoga com a culpa de pessoas que o percebem como inferior na primeira olhada\u201d. E alerta: \u201cN\u00e3o h\u00e1 na imagem qualquer indica\u00e7\u00e3o de status social, precariedade ou abandono. H\u00e1 uma crian\u00e7a sem camisa no mar observando fogos de artif\u00edcios maravilhada em uma imagem que de fato \u00e9 bela, mas nada diz sobre quest\u00f5es s\u00f3ciopol\u00edticas\u201d. Para Jardim \u201cdar a essa imagem esse car\u00e1ter de &#8216;retrato da desigualdade&#8217; \u00e9 presumir pela corporeidade do sujeito (no caso crian\u00e7a, negra, sem camisa) que ali h\u00e1 precariedade e sofrimento, o que s\u00f3 pode acontecer em uma sociedade que liga a negritude a esses elementos\u201d.<\/p>\n<p>O fotografo, que preferiu n\u00e3o ampliar o debate com a reportagem at\u00e9 encontrar a fam\u00edlia da crian\u00e7a, n\u00e3o sabe o nome do menino. Nem se estava sozinho. Nem se era do Rio. Nem se mora num condom\u00ednio de luxo ou numa favela. &#8220;Eu estava a trabalho fotografando as pessoas assistindo aos fogos em Copacabana. Ele estava l\u00e1, como outras pessoas, encantado. Perguntei a idade (9) e o nome, mas n\u00e3o ouvi por causa do barulho. Como ele estava dentro do mar (que estava gelado), acabou ficando distante das pessoas. N\u00e3o sei se estava sozinho ou com a fam\u00edlia\u201d, disse Landau em seu perfil de Facebook. A fotografia, como completou Landau, abre margem para v\u00e1rias interpreta\u00e7\u00f5es. \u201cTodas leg\u00edtimas, ao meu ver. Existe uma verdade, mas nem eu sei qual \u00e9\u201d. O fot\u00f3grafo foi criticado por expor a crian\u00e7a sem o consentimento dos pais e oferecer seu e-mail a quem se interessou em comprar a fotografia. Landau nega: \u201cNada foi comercializado por mim, e nem ser\u00e1, sem a autoriza\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a e dos respons\u00e1veis\u201d.<\/p>\n<h3>Pessoas virando as costas para a pobreza ou apenas uma crian\u00e7a?<\/h3>\n<p>A complexidade do debate que uma \u00fanica foto alimentou se explica pela situa\u00e7\u00e3o atual do pa\u00eds, segundo o psicanalista Tales Ab\u2019Saber, autor do livro <em>Lulismo, Carisma Pop e Cultura Anticr\u00edtica.<\/em> \u201cA foto tem uma vida pr\u00f3pria.O movimento negro\u00a0se inquieta com o clich\u00ea e a redu\u00e7\u00e3o do papel do negro e a esquerda branca \u2013e negra\u2013 v\u00ea nessa imagem o risco da cis\u00e3o social brasileira, num tempo em que isso est\u00e1 de volta na pauta pol\u00edtica. V\u00ea pessoas festejando a vida e virando as costas para a pobreza, para nossa realidade\u201d, explica Ab\u2019Saber. \u201cS\u00e3o duas correntes progressistas diferentes olhando em n\u00edveis diferentes, e a imagem fala das duas. As duas quest\u00f5es importam, n\u00e3o s\u00e3o excludentes\u201d.<\/p>\n<p>O fot\u00f3grafo e jornalista Fernando Costa Netto, propriet\u00e1rio da Doc Galeria de fotojornalismo e fotografia documental, enxerga o poder da imagem,&#8221; a fotografia com capacidade para mudar a vida de uma pessoa &#8220;. \u201c\u00c9 a fotografia derrubando presidentes, denunciando superlota\u00e7\u00e3o em hospitais, documentando as barbaridades das guerras ou mostrando o que a gente j\u00e1 sabe, o abismo entre os de branco e o pequeno sem camisa nessa foto do Lucas. Mesmo que a foto aponte outra coisa quando encontrarem<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um menino negro, na beira do mar, admira de olho grande e boca aberta os fogos da virada do ano na praia de Copacabana. 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