{"id":7933,"date":"2017-12-31T20:04:54","date_gmt":"2017-12-31T20:04:54","guid":{"rendered":"http:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=7933"},"modified":"2017-12-31T20:04:54","modified_gmt":"2017-12-31T20:04:54","slug":"quilombos-urbanos-focos-de-resistencia-no-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/quilombos-urbanos-focos-de-resistencia-no-rio-de-janeiro\/","title":{"rendered":"Quilombos urbanos, focos de resist\u00eancia no Rio de Janeiro"},"content":{"rendered":"<p>Encravados no Rio de Janeiro, tr\u00eas quilombos mant\u00eam viva a mem\u00f3ria das lutas que os originaram. Surgidos antes do fim da escravid\u00e3o, eram locais onde escravos fugidos ou libertos se reuniam para sobreviver. Hoje, permanecem como focos de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Em pleno s\u00e9culo XXI, os quilombos de Sacop\u00e3, Pedra do Sal e Camorim resistem &#8211; ao apagamento da mem\u00f3ria, ao desaparecimento cultural ou \u00e0 especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria &#8211; e sobrevivem.<\/p>\n<p>Entre mans\u00f5es e pr\u00e9dios luxuosos na Lagoa Rodrigo de Freitas (na zona sul), o terceiro metro quadrado mais caro da cidade, repousa um enorme terreno de mata atl\u00e2ntica.<\/p>\n<p>O quilombo Sacop\u00e3 foi criado no fim do s\u00e9culo XIX por escravos fugidos de Maca\u00e9, que receberam o terreno da propriet\u00e1ria para quem trabalhavam.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia cresceu no mesmo ritmo da cidade, que se urbanizou nessa dire\u00e7\u00e3o. A aten\u00e7\u00e3o de construtoras e imobili\u00e1rias tornou a Lagoa uma regi\u00e3o nobre.<\/p>\n<p>Se ainda estamos aqui \u00e9 porque fui muito teimoso. J\u00e1 tentaram de tudo para tomar essa terra, mas ela \u00e9 nossa por direito, afirma Luiz Sacop\u00e3, de 74 anos, o mais velho descendente dos fundadores.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o consegue contar por quantas tentativas de tomada da \u00e1rea de 18 mil metros quadrados passou.<\/p>\n<p>Do vizinho que tentou plantar maconha no terreno para incrimin\u00e1-los aos tr\u00eas dias que passaram vigiados no local por um policial militar, o que mais abalou a fam\u00edlia foi a proibi\u00e7\u00e3o, pela Justi\u00e7a estadual, de realizarem eventos culturais, sob alega\u00e7\u00e3o de que faziam barulho de madrugada.<\/p>\n<p>Foi um golpe muito duro, pois viv\u00edamos desses eventos, feijoadas, aulas de capoeira. A gente era muito cuidadoso, tudo terminava \u00e0s 20h, 21h, afirma Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Torres Freitas, sobrinho de Luiz, durante um evento do Dia da Consci\u00eancia Negra.<\/p>\n<p>\u00c9 o \u00fanico dia que a gente pode fazer alguma coisa. N\u00e3o teriam coragem de interromper, n\u00e9?, ironiza.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia do Sacop\u00e3 e de outros quilombos nacionais ganhou for\u00e7a em 2003, com o Decreto n\u00ba 4887, do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, regulamentando a demarca\u00e7\u00e3o e a titula\u00e7\u00e3o das terras dos descendentes de quilombolas.<\/p>\n<p>O processo, contudo, \u00e9 burocr\u00e1tico e ocorre em duas etapas &#8211; primeiro, pela Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares, e, depois, pelo Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria (Incra).<\/p>\n<p>Atualmente, esses tr\u00eas quilombos do Rio j\u00e1 foram reconhecidos, mas aguardam a titula\u00e7\u00e3o pelo Incra.<\/p>\n<p>&#8211; Engolidos pela cidade &#8211;<\/p>\n<p>O quilombo da Pedra do Sal, na Sa\u00fade (centro), perto do porto, reunia muitos dos escravos que n\u00e3o eram vendidos quando chegavam da \u00c1frica. L\u00e1 tamb\u00e9m nasceu um dos primeiros terreiros de candombl\u00e9 do Rio.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o n\u00e3o era o que \u00e9 hoje, era muito isolada. Mas foi invadida, engolida pela cidade, conta Dami\u00e3o Braga, l\u00edder quilombola local. Ocorreram muitas disputas, como com a Igreja Cat\u00f3lica, que ganhou na Justi\u00e7a a propriedade de v\u00e1rias casas da \u00e1rea.<\/p>\n<p>Hoje, h\u00e1 25 fam\u00edlias descendentes da comunidade quilombola da Pedra do Sal, mas poucas vivem l\u00e1. Mesmo com a certifica\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Palmares e o reconhecimento do vizinho Cais do Valongo como patrim\u00f4nio da humanidade pela Unesco, os remanescentes t\u00eam dificuldade de retornar ao territ\u00f3rio que \u00e9 seu por direito.<\/p>\n<p>Hoje temos um apoio internacional, mas restam conflitos. Im\u00f3veis vazios foram ocupados, e n\u00e3o \u00e9 simples tomar de volta, explica.<\/p>\n<p>&#8211; Hist\u00f3ria e racismo &#8211;<\/p>\n<p>Adilson Almeida conta, orgulhoso, a hist\u00f3ria dos seus antepassados &#8211; escravos fugidos que, no s\u00e9culo XVI, fundaram, em um dos primeiros engenhos do Rio, o quilombo Camorim, em Jacarepagu\u00e1 (zona oeste). Com a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, em 1888, o grupo voltou a ocupar a \u00e1rea da Casa Grande, agora abandonada.<\/p>\n<p>Embora o Camorim fique afastado dos bairros mais concorridos, ele tamb\u00e9m tem sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, mais recente, de disputa e resist\u00eancia imobili\u00e1ria.<\/p>\n<p>Em 2014, quando ainda n\u00e3o possu\u00edam a certifica\u00e7\u00e3o das terras pela Funda\u00e7\u00e3o Palmares, as 20 fam\u00edlias que se declaram quilombolas acordaram um dia com grande parte de sua floresta destru\u00edda: ali seria constru\u00eddo o condom\u00ednio para hospedar os \u00e1rbitros dos Jogos Ol\u00edmpicos Rio 2016. Apesar de denunciarem, Almeida e a Associa\u00e7\u00e3o Cultural do Camorim (Acuca) nunca conseguiram recuperar o terreno.<\/p>\n<p>Enquanto aguarda a tramita\u00e7\u00e3o do processo no Incra, Almeida se mant\u00e9m esperan\u00e7oso.<\/p>\n<p>Em 2016, uma pesquisa arqueol\u00f3gica na regi\u00e3o encontrou mais de 7 mil fragmentos de artefatos dos s\u00e9culos XVI e XVII, e a \u00e1rea passou a ser definida pelo Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (Iphan) como s\u00edtio arqueol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Com isso, temos uma s\u00f3lida base jur\u00eddica, \u00e9 dif\u00edcil que aconte\u00e7a de novo algo como a invas\u00e3o de 2014, explica.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da luta por reconhecimento, quase 130 anos ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, os quilombolas ainda precisam combater especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, viol\u00eancia e o fator mais cruel: o racismo.<\/p>\n<p>Percebemos como as pessoas olham o negro na Zona Sul. Tem uns que acham que s\u00e3o melhores que os outros, fazer o qu\u00ea?, indaga Luiz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Encravados no Rio de Janeiro, tr\u00eas quilombos mant\u00eam viva a mem\u00f3ria das lutas que os originaram. Surgidos antes do fim da escravid\u00e3o, eram locais onde escravos fugidos ou libertos se reuniam para sobreviver. Hoje, permanecem como focos de resist\u00eancia. 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