{"id":7931,"date":"2017-12-31T20:04:09","date_gmt":"2017-12-31T20:04:09","guid":{"rendered":"http:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=7931"},"modified":"2017-12-31T20:04:09","modified_gmt":"2017-12-31T20:04:09","slug":"quilombos-comunidades-etnicas-de-resistencia-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/quilombos-comunidades-etnicas-de-resistencia-no-brasil\/","title":{"rendered":"Quilombos: comunidades \u00e9tnicas de resist\u00eancia no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria da escravid\u00e3o no Brasil n\u00e3o pode ser contada sem outra, paralela: a dos quilombos. Centros de resist\u00eancia e conviv\u00eancia de pessoas escravizadas que fugiram ou se libertaram at\u00e9 o s\u00e9culo XIX, algumas dessas comunidades atravessaram os anos e existem at\u00e9 hoje pelo pa\u00eds.<\/p>\n<p>Enquanto a escravid\u00e3o foi legal no Brasil, at\u00e9 1888, a palavra quilombo definia um grupo de escravos fugidos.<\/p>\n<p>Segundo o antrop\u00f3logo Filipe Juliano, doutorando do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), estudioso do tema, esse termo vem da l\u00edngua kongo, falada nos territ\u00f3rios hoje de Angola e Congo, para definir acampamento. No Brasil, o primeiro registro do termo \u00e9 feito no Conselho Ultramarino portugu\u00eas de 1740. Nessa \u00e9poca, tinha um significado que poderia ser traduzido quase literalmente como quadrilha, conta.<\/p>\n<p>Segundo a legisla\u00e7\u00e3o mais recente, s\u00e3o considerados remanescentes quilombolas os grupos \u00e9tnico-raciais, segundo crit\u00e9rios de auto-atribui\u00e7\u00e3o, com trajet\u00f3ria hist\u00f3rica pr\u00f3pria, dotados de rela\u00e7\u00f5es territoriais espec\u00edficas, com presun\u00e7\u00e3o de ancestralidade negra relacionada com a resist\u00eancia \u00e0 opress\u00e3o hist\u00f3rica sofrida.<\/p>\n<p>Ele sai, ent\u00e3o, de uma classifica\u00e7\u00e3o praticamente criminal para a de hoje, que \u00e9 positiva, uma comunidade que tem hist\u00f3ria, cultura, comida, m\u00fasica, define Juliano.<\/p>\n<p>Essa defini\u00e7\u00e3o legal \u00e9 interessante porque concretiza uma luta dos grupos que se identificam como quilombolas, explica Marta de Oliveira Antunes doutora em Antropologia tamb\u00e9m pelo Museu Nacional.<\/p>\n<p>&#8211; Nas Am\u00e9ricas &#8211;<\/p>\n<p>Essas comunidades n\u00e3o s\u00e3o um fen\u00f4meno exclusivamente brasileiro.<\/p>\n<p>O quilombo aconteceu em todo lugar onde houve escravid\u00e3o, afirma Juliano. Onde houve escravid\u00e3o, houve resist\u00eancia. Ent\u00e3o, a forma era a fuga e o isolamento.<\/p>\n<p>Os maroons do sul dos Estados Unidos, o palenque de Esmeraldas, no Equador, os bushinengues da Guiana Francesa e do Surianame s\u00e3o alguns dos exemplos desse tipo de concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas o Brasil \u00e9 muito grande, o processo de escravid\u00e3o foi muito longo, ent\u00e3o a quantidade de quilombos aqui \u00e9 incompar\u00e1vel, explica Antunes.<\/p>\n<p>A mais importante hist\u00f3ria de resist\u00eancia do pa\u00eds \u00e9 a do quilombo de Palmares. Surgida no s\u00e9culo XVI, a comunidade teria chegado a reunir 30 mil pessoas, com um grau elevado de organiza\u00e7\u00e3o social e de resist\u00eancia ao poder colonial.<\/p>\n<p>Palmares \u00e9 uma imagem simb\u00f3lica muito importante, com nomes de her\u00f3is como Zumbi, Dandara. Tem uma dimens\u00e3o guerreira muito forte, de resist\u00eancia, de luta, diz a antrop\u00f3loga.<\/p>\n<p>&#8211; Resist\u00eancia &#8211;<\/p>\n<p>O quilombo de Palmares se desfez, ap\u00f3s guerras e acordos, no s\u00e9culo XVII, mas se mant\u00e9m forte no imagin\u00e1rio nacional, sobretudo destes grupos que at\u00e9 hoje lutam para existir.<\/p>\n<p>Juliano conta que, mesmo ap\u00f3s o reconhecimento dos remanescentes quilombolas na Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988, muitos grupos tinham medo de se identificar assim.<\/p>\n<p>O trauma da escravid\u00e3o era t\u00e3o forte que o primeiro movimento \u00e9 repelir e se afastar de qualquer possibilidade disso, relata.<\/p>\n<p>Antunes indica, contudo, que as pol\u00edticas afirmativas, sobretudo a partir do Decreto 4887 do ent\u00e3o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, ajudaram as mais de 2 mil comunidades quilombolas existentes no Brasil a reencontrar sua autoestima.<\/p>\n<p>A partir de 2003, voc\u00ea come\u00e7a a ter v\u00e1rios quilombos com grau de alfabetiza\u00e7\u00e3o maior, novas fun\u00e7\u00f5es, e valoriza\u00e7\u00e3o da comunidade quilombola. H\u00e1 um processo de mudan\u00e7a da forma como s\u00e3o enxergados pelo entorno, e essa identidade os ajuda a lidar com o racismo e se valorizarem, defende.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria da escravid\u00e3o no Brasil n\u00e3o pode ser contada sem outra, paralela: a dos quilombos. Centros de resist\u00eancia e conviv\u00eancia de pessoas escravizadas que fugiram ou se libertaram at\u00e9 o s\u00e9culo XIX, algumas dessas comunidades atravessaram os anos e existem at\u00e9 hoje pelo pa\u00eds. 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