{"id":78998,"date":"2025-08-30T18:56:21","date_gmt":"2025-08-30T18:56:21","guid":{"rendered":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=78998"},"modified":"2025-08-30T18:56:21","modified_gmt":"2025-08-30T18:56:21","slug":"morre-luis-fernando-verissimo-lenda-da-cronica-aos-88-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/morre-luis-fernando-verissimo-lenda-da-cronica-aos-88-anos\/","title":{"rendered":"Morre Luis Fernando Verissimo, lenda da cr\u00f4nica, aos 88 anos"},"content":{"rendered":"<p>Morreu neste s\u00e1bado, 30 de agosto, em Porto Alegre, o escritor ga\u00facho\u00a0<a class=\"\" href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/\/tudo-sobre\/personalidade\/luis-fernando-verissimo\/\">Luis Fernando Verissimo<\/a>, aos 88 anos. Ele estava internado desde o dia 11 de agosto no Hospital Moinhos de Vento, com pneumonia, e faleceu \u00e0s 0h40.<\/p>\n<div id=\"inread1\" class=\"square-ad\" data-google-query-id=\"CIqOmLuas48DFWWAYQYd0fI8RQ\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/176290677\/maisgoias\/inread1_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Um dos maiores prazeres de Luis Fernando Verissimo, nascido em 26 de setembro de 1936, era \u201csoprar saxofone\u201d. Quando tomava posse do instrumento, Verissimo, um calado incorrig\u00edvel, podia apenas ouvir \u2014 al\u00e9m de nutrir sua paix\u00e3o pelo jazz, iniciada na adolesc\u00eancia passada nos Estados Unidos junto com a fam\u00edlia, entre as d\u00e9cadas de 1940-1950. Naquela \u00e9poca, seu pai, o tamb\u00e9m escritor Erico Verissimo (1905-1975), foi convidado a dar aulas na Universidade da Calif\u00f3rnia em Berkeley.<\/p>\n<p>Foi com as palavras, por\u00e9m, que o ga\u00facho conquistou milh\u00f5es de leitores, em cr\u00f4nicas, romances, contos, poesias e cartuns, cujos personagens se firmaram no imagin\u00e1rio nacional: o Analista de Bag\u00e9, a Velhinha de Taubat\u00e9, As Cobras, o detetive Ed Mort, a Fam\u00edlia Brasil, a ravissante Dora Avante, fundadora do movimento Socialaites Socialistas e ass\u00eddua correspondente fict\u00edcia do cronista.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2-oglobo.glbimg.com\/Xg7wyTpxW05KvQWT4iSWpcJHLr0=\/0x0:746x569\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8\/internal_photos\/bs\/2025\/N\/Z\/LuxPWlQriAKW0fYBZN0g\/82230891-exclusiva-gg-leg-luis-fernando-verissimo-com-o-pai-erico-e-o-manuscrito-de-o-tempo-e-o-vent.jpg\" alt=\"Luis Fernando Verissimo com o pai, Erico, e o manuscrito de &quot;O tempo e o vento&quot; \u2014 Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Luis Fernando Verissimo com o pai, Erico, e o manuscrito de \u201cO tempo e o vento\u201d (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Dono de uma ironia refinada, Verissimo conseguia fazer uma s\u00edntese de quest\u00f5es filos\u00f3ficas e do cotidiano mais banal, e unir temas t\u00e3o d\u00edspares como mazelas da pol\u00edtica nacional e as belezas de uma mulher \u2014 misturas que, para ser bem-sucedidas, dependem da maestria de um grande cronista. Verissimo foi um dos nossos grandes.<\/p>\n<div id=\"inread2\" class=\"square-ad\" data-google-query-id=\"CJ-LqMOas48DFYU4uQYd580ZRw\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/176290677\/maisgoias\/inread2_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A versatilidade da cr\u00f4nica era cara ao escritor, e dela sa\u00edam frases impens\u00e1veis de serem pronunciadas em voz alta pelo saxofonista t\u00edmido, que manteve uma coluna no GLOBO, desde 1999, no \u201cEstado de S. Paulo\u201d e na \u201cZero Hora\u201d.<\/p>\n<p>Verissimo come\u00e7ou no jornal ga\u00facho, depois de largar a publicidade, como copidesque (\u201cfun\u00e7\u00e3o que j\u00e1 deve ter sido substitu\u00edda por uma tecla de computador\u201d, provocou em uma cr\u00f4nica d\u00e9cadas mais tarde).<\/p>\n<p>Na Reda\u00e7\u00e3o da \u201cZero Hora\u201d, desempenhou as fun\u00e7\u00f5es mais diversas, inclusive a de redator do hor\u00f3scopo \u2014 em 2011, no anivers\u00e1rio do jornal, reassumiu o posto por um dia, dando aos leitores uma demonstra\u00e7\u00e3o de sua ironia concisa em previs\u00f5es como: \u201c\u00c1ries: Atr\u00e1s de voc\u00ea, cuidado!\u201d.<\/p>\n<div id=\"inread3\" class=\"square-ad\" data-google-query-id=\"COjvwseas48DFWo3uQYdjccUMg\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/176290677\/maisgoias\/inread3_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Em 1969, aos 33 anos, assumiu o papel de cronista e nele encontrou sua voca\u00e7\u00e3o. F\u00e3 das cr\u00f4nicas de Paulo Mendes Campos, Rubem Braga e Antonio Maria, Verissimo enxergava no g\u00eanero \u201ca liberdade absoluta\u201d e fez quest\u00e3o de exerc\u00ea-la pelas quatro d\u00e9cadas seguintes.<\/p>\n<p>Ao longo da carreira, ele lan\u00e7ou mais de 70 livros, sendo seis deles romances, e vendeu mais de cinco milh\u00f5es de exemplares, em 15 pa\u00edses.<\/p>\n<h2 id=\"h-liberdade-de-cronista\" class=\"wp-block-heading\">Liberdade de cronista<\/h2>\n<p>Nos anos 1970, a concis\u00e3o e a liberdade de cronista eram tamb\u00e9m exercitadas nas tirinhas de humor \u201cAs Cobras\u201d, que come\u00e7aram a ser publicadas na \u201cFolha da Manh\u00e3\u201d, de Porto Alegre, e driblavam a censura da ditadura militar com mais facilidade do que os textos. Ele j\u00e1 fazia ali uma esp\u00e9cie de minicr\u00f4nica ao que seria o estilo Verissimo: com humor fino, a dupla de cobrinhas podia conversar sobre a exist\u00eancia de Deus, o fim do mundo ou simplesmente sobre futebol.<\/p>\n<div id=\"inread4\" class=\"square-ad\" data-google-query-id=\"CMCFwMmas48DFV9IuAQdnzYVvw\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/176290677\/maisgoias\/inread4_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Seu livro de cr\u00f4nicas de que mais gostava era \u201cO analista de Bag\u00e9\u201d (1980), o primeiro que reuniu textos sobre o personagem que o tornaria conhecido nacionalmente: um psicanalista de forma\u00e7\u00e3o freudiana r\u00edgida, com trajes, costumes e linguajar t\u00edpicos do interior ga\u00facho, que tratava os pacientes \u00e0 base de \u201cjoelha\u00e7os\u201d e se definia como \u201cmais ortodoxo do que pomada Min\u00e2ncora\u201d.<\/p>\n<p>O analista virou pe\u00e7a, filme e s\u00e9rie de televis\u00e3o \u2014 o que se repetiu com outras de suas cria\u00e7\u00f5es, como \u201cA com\u00e9dia da vida privada\u201d, que se tornou uma s\u00e9rie (na TV Globo) sobre o cotidiano da classe m\u00e9dia, primeiro baseada em cr\u00f4nicas e depois com textos do pr\u00f3prio Verissimo feitos especialmente para a TV.<\/p>\n<p>Dos romances, o que o escritor considerava o \u201cmais bem acabado\u201d era \u201cO clube dos anjos\u201d (1998), que narra a vida de um grupo de amigos que se re\u00fanem num mesmo bar da adolesc\u00eancia \u00e0 maturidade.<\/p>\n<p>Enquanto seu gosto por comida se sofistica, as ilus\u00f5es da juventude s\u00e3o substitu\u00eddas pelos fracassos acumulados nas rela\u00e7\u00f5es pessoais e profissionais. Foi s\u00f3 em 2009 que o escritor lan\u00e7ou seu primeiro romance sem encomenda de editora, \u201cOs espi\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO que fa\u00e7o n\u00e3o tem valor liter\u00e1rio. N\u00e3o tenho essa ambi\u00e7\u00e3o, nem a capacidade do livro definitivo. Todos os outros livros foram provocados, n\u00e3o eram livros que tinha dentro de mim. Quando tem isso, vem cedo. Eu comecei tarde\u201d, afirmou certa vez Verissimo, que dizia n\u00e3o ter prazer durante a escrita.<\/p>\n<p>\u201cBom n\u00e3o \u00e9 escrever, mas ter escrito\u201d, costumava dizer, repetindo uma frase do escritor Zuenir Ventura, seu grande amigo. \u201cEncaro escrever como um of\u00edcio, um que deu certo para mim, mas n\u00e3o seria minha escolha natural se outras coisas n\u00e3o tivessem dado errado. N\u00e3o escrevo com prazer. J\u00e1 a m\u00fasica \u00e9 sempre um prazer para mim\u201d.<\/p>\n<h2 id=\"h-movimento-dos-sem-netos\" class=\"wp-block-heading\">\u2018Movimento dos sem netos\u2019<\/h2>\n<p>O escritor e L\u00facia, praticamente sua primeira namorada, casaram-se em 1963 e tiveram tr\u00eas filhos: Mariana, Fernanda e Pedro. O filho herdou o gosto pela m\u00fasica e, como o escritor, largou a publicidade, mas para cantar profissionalmente. O pai continuou um m\u00fasico bissexto e teve v\u00e1rias bandas, a \u00faltima delas a Jazz 6.<\/p>\n<p>Os filhos cresceram, mudaram-se, e por muito tempo Verissimo fez campanha para voltar a povoar a casa de crian\u00e7as. Fundou o Movimento dos Sem Netos junto com Zuenir e o escritor Moacyr Scliar, seu colega dos tempos de \u201cZero Hora\u201d. Deixou o grupo em 2008, quando sua neta, Lucinda, nasceu no dia do 99\u00ba anivers\u00e1rio do Internacional, o time de futebol que era outra de suas paix\u00f5es, ao lado do jazz, das viagens e da gastronomia.<\/p>\n<p>Colorado doente em Porto Alegre e torcedor do Botafogo no Rio \u2014 onde tinha apartamento, em Ipanema \u2014, Verissimo cobriu tr\u00eas Copas do Mundo para O GLOBO, em 2002, 2006 e 2010. Em todas elas exibiu duas de suas principais caracter\u00edsticas: a simplicidade e o senso de humor apurado.<\/p>\n<p>Na cobertura, o escritor realizou por vias tortas um antigo desejo de ser comentarista esportivo. Antes, ele queria mesmo era ser aviador, fascinado com as hist\u00f3rias da Segunda Guerra Mundial que ouvia nos Estados Unidos, onde viveu com os pais na d\u00e9cada de 1940. Em terras americanas se apaixonou por filmes de bombardeios, mas tamb\u00e9m por Alfred Hitchcok e Woody Allen, por quadrinhos, e ainda por Cole Porter, Louis Armstrong e Miles Davis. Aos 17 anos, assistiu a um show de Charlie Parker, decidiu aprender trompete, mas a escola de m\u00fasica s\u00f3 tinha saxofone. Desde ent\u00e3o, poupou o f\u00f4lego para \u201csoprar\u201d seu sax e deixou as palavras para o desfrute de seus leitores.<\/p>\n<h2 id=\"h-problemas-de-saude\" class=\"wp-block-heading\">Problemas de sa\u00fade<\/h2>\n<p>Verissimo lidava h\u00e1 alguns anos com problemas de sa\u00fade. Em 2020, retirou um c\u00e2ncer na mand\u00edbula. Em janeiro de 2021, quando ainda se recuperava do c\u00e2ncer, teve um AVC isqu\u00eamico que lhe trouxe sequelas e o afastou do of\u00edcio de escritor.<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m conviveu com o o mal de Parkinson e tinha problemas card\u00edacos. Em entrevistas, a mulher do escritor, Lucia Verissimo, afirmou que ele quase j\u00e1 n\u00e3o falava e se comunicava somente com poucas palavras em ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Na segunda-feira, 11 de agosto, ela foi internado no no Centro de Terapia Intensiva Ho ospital Moinhos de Ventos, em Porto Alegre, com um princ\u00edpio de pneumonia, quadro que se agravou nos dias seguintes.<\/p>\n<p>Luis Fernando Verissimo deixa a mulher, Lucia e os tr\u00eas filhos Mariana, Fernanda e Pedro.<\/p>\n<p><strong><em>Texto: Ag\u00eancia O GLOBO<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Morreu neste s\u00e1bado, 30 de agosto, em Porto Alegre, o escritor ga\u00facho\u00a0Luis Fernando Verissimo, aos 88 anos. Ele estava internado desde o dia 11 de agosto no Hospital Moinhos de Vento, com pneumonia, e faleceu \u00e0s 0h40. 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