{"id":57915,"date":"2020-12-27T11:02:09","date_gmt":"2020-12-27T11:02:09","guid":{"rendered":"http:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=57915"},"modified":"2020-12-27T11:02:46","modified_gmt":"2020-12-27T11:02:46","slug":"medicina-muda-e-tem-mais-mulheres-negros-e-alunos-de-escolas-publicas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/medicina-muda-e-tem-mais-mulheres-negros-e-alunos-de-escolas-publicas\/","title":{"rendered":"Medicina muda no Brasil e tem mais mulheres, negros e alunos de escolas p\u00fablicas"},"content":{"rendered":"<p>RIO &#8211; Dia sim e outro tamb\u00e9m, Simone Lima precisa esclarecer a seus interlocutores a posi\u00e7\u00e3o que ocupa em um dos melhores e mais exclusivos hospitais privados do Rio de Janeiro. \u201cN\u00e3o, eu n\u00e3o sou a enfermeira\u201d, explica a uma pessoa. \u201cO senhor precisa falar com um t\u00e9cnico de enfermagem, n\u00e3o comigo\u201d, recomenda, em outro caso. Tamb\u00e9m s\u00e3o comuns em sua rotina frases como: \u201cSim, eu sou a m\u00e9dica\u201d e \u201cO colega est\u00e1 passando o caso para um estudante, a m\u00e9dica sou eu.\u201d<\/p>\n<p>Simone tem 50 anos e h\u00e1 mais de 20 trabalha como m\u00e9dica. Mesmo assim, ainda precisa se explicar todos os dias, sendo uma das raras intensivistas negras da rede privada do Rio. Agora, na crise da\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/tudo-sobre.estadao.com.br\/coronavirus\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-id=\"113\" data-m=\"{&quot;i&quot;:113,&quot;p&quot;:110,&quot;n&quot;:&quot;partnerLink&quot;,&quot;y&quot;:24,&quot;o&quot;:3}\">covid-19<\/a><\/strong>, trabalhando de touca, face shield, m\u00e1scara e avental, a situa\u00e7\u00e3o ficou ainda mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>\u201cCansei disso. A\u00ed, peguei uma dessas m\u00e1scaras descart\u00e1veis, escrevi em letras bem grandes doutora Simone Lima e pendurei no pesco\u00e7o, que \u00e9 para ningu\u00e9m mais ficar na d\u00favida\u201d, conta a m\u00e9dica. \u201cO\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/tudo-sobre.estadao.com.br\/racismo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-id=\"114\" data-m=\"{&quot;i&quot;:114,&quot;p&quot;:110,&quot;n&quot;:&quot;partnerLink&quot;,&quot;y&quot;:24,&quot;o&quot;:4}\">racismo<\/a><\/strong>\u00a0existe sempre, \u00e9 algo que vivenciamos todos os dias. Mas agora algo est\u00e1 mudando. A gente est\u00e1 come\u00e7ando a se ver nos lugares onde n\u00e3o se via. Outro dia mesmo, entrou aqui no hospital um neurocirurgi\u00e3o preto. Preto mesmo, que nem eu.\u201d<\/p>\n<p><span class=\"storyimage fullwidth inlineimage\" data-aop=\"image\"><span class=\"image\" data-attrib=\"WILTON JUNIOR \/ ESTADAO\" data-caption=\"\u2018O racismo existe, \u00e9 algo que vivenciamos todos os dias. Mas agora algo est\u00e1 mudando\u2019, afirma Simone \" data-id=\"111\" data-m=\"{&quot;i&quot;:111,&quot;p&quot;:110,&quot;n&quot;:&quot;openModal&quot;,&quot;t&quot;:&quot;articleImages&quot;,&quot;o&quot;:1}\"><img decoding=\"async\" class=\"loaded\" src=\"https:\/\/img-s-msn-com.akamaized.net\/tenant\/amp\/entityid\/BB1cg8VG.img?h=533&amp;w=799&amp;m=6&amp;q=60&amp;o=f&amp;l=f&amp;x=481&amp;y=179\" alt=\"\u2018O racismo existe, \u00e9 algo que vivenciamos todos os dias. 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Mas agora algo est\u00e1 mudando\u2019, afirma Simone<\/span><\/span><\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o de Simone est\u00e1 correta. Profiss\u00e3o normalmente associada a homens brancos oriundos de fam\u00edlias abastadas, a Medicina est\u00e1 mudando de perfil, ainda que lentamente. De acordo com o estudo Demografia M\u00e9dica, da Universidade de S\u00e3o Paulo (<strong><a href=\"https:\/\/tudo-sobre.estadao.com.br\/usp-universidade-de-sao-paulo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-id=\"115\" data-m=\"{&quot;i&quot;:115,&quot;p&quot;:110,&quot;n&quot;:&quot;partnerLink&quot;,&quot;y&quot;:24,&quot;o&quot;:5}\">USP<\/a><\/strong>), mulheres, negros e pessoas vindas de fam\u00edlias de baixa renda est\u00e3o cada vez mais presentes nas faculdades, apontando para um futuro mais diverso da profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Paralelamente \u00e0 grande expans\u00e3o quantitativa do ensino m\u00e9dico de gradua\u00e7\u00e3o &#8211; foram 20 mil novas vagas nos \u00faltimos dez anos -, h\u00e1 transforma\u00e7\u00f5es recentes nos perfis demogr\u00e1ficos e socioecon\u00f4micos dos estudantes. Confirma-se, desde a gradua\u00e7\u00e3o, a tend\u00eancia de haver mais mulheres na profiss\u00e3o. Em 2019, elas j\u00e1 representavam 60% dos formandos, porcentual que vem aumentando nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Entre os per\u00edodos estudados, houve tamb\u00e9m uma alta gradual do porcentual de alunos autodeclarados pretos e pardos (negros): em 2013, eram 23,6%; em 2016, representavam 26,1% e, em 2019, somavam 27,7% do total. Segundo o IBGE, no ensino superior em geral, os negros j\u00e1 s\u00e3o 50% dos alunos, ainda um pouco abaixo do que sua presen\u00e7a no total da popula\u00e7\u00e3o brasileira, 56%. O porcentual registrado em Medicina ainda \u00e9 bem menor do que a m\u00e9dia dos cursos, mas a alta \u00e9 significativa.<\/p>\n<p>Alunos oriundos de fam\u00edlias de menor renda ou que cursaram todo o ensino m\u00e9dio em escolas p\u00fablicas tamb\u00e9m v\u00eam sendo mais recorrentes nas salas de aula. A mudan\u00e7a foi maior nas gradua\u00e7\u00f5es p\u00fablicas &#8211; que hoje s\u00e3o a menor parcela do ensino m\u00e9dico no Pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cAs desigualdades ainda s\u00e3o grandes e a Medicina \u00e9 um dos \u00faltimos cursos a promover essa maior inclus\u00e3o social\u201d, explica o coordenador do estudo, Mario Scheffer, especialista em sa\u00fade p\u00fablica da USP. \u201cAinda assim, \u00e9 um ganho.\u201d<\/p>\n<p>Quando se formou, em 1998, na Faculdade Souza Marques, Simone era a \u00fanica negra entre 200 alunos. Embora seu pai fosse oficial general da Aeron\u00e1utica e pudesse pagar o curso privado, n\u00e3o foi f\u00e1cil chegar l\u00e1. Ela fez o ensino m\u00e9dio em uma escola de bairro e n\u00e3o tinha a bagagem necess\u00e1ria para entrar em uma universidade p\u00fablica. Foram quatro vestibulares at\u00e9 passar.<\/p>\n<p>O sistema de cotas para alunos negros &#8211; implementado na\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/tudo-sobre.estadao.com.br\/uerj\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-id=\"116\" data-m=\"{&quot;i&quot;:116,&quot;p&quot;:110,&quot;n&quot;:&quot;partnerLink&quot;,&quot;y&quot;:24,&quot;o&quot;:6}\">UERJ<\/a><\/strong>\u00a0desde 2003, mas na USP apenas no ano passado &#8211; \u00e9 um dos maiores respons\u00e1veis pela inclus\u00e3o. Mas isso n\u00e3o quer dizer que a vida dos alunos negros hoje seja mais f\u00e1cil do que foi a de Simone. Os obst\u00e1culos ainda existem e \u00e9 preciso muita obstina\u00e7\u00e3o para super\u00e1-los.<\/p>\n<h3 class=\"intertitulo\">Ingresso dif\u00edcil<\/h3>\n<p>Larissa Sousa Cardoso Alexandre, de 24, est\u00e1 no segundo ano de\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/tudo-sobre.estadao.com.br\/medicina\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-id=\"117\" data-m=\"{&quot;i&quot;:117,&quot;p&quot;:110,&quot;n&quot;:&quot;partnerLink&quot;,&quot;y&quot;:24,&quot;o&quot;:7}\">Medicina<\/a><\/strong>\u00a0na USP. Foram cinco anos fazendo cursinho, trabalhando e tentando entrar na faculdade at\u00e9 conseguir a vaga. Larissa conta que fez o ensino m\u00e9dio em uma escola p\u00fablica de bairro e tampouco estava preparada para lidar com concorr\u00eancia de um vestibular da USP. \u201cNo \u00faltimo ano, n\u00e3o trabalhei, s\u00f3 estudei. A\u00ed, consegui passar na USP e tamb\u00e9m na Unicamp.\u201d<\/p>\n<p>Diferentemente de outros cursos, o de Medicina, al\u00e9m de ser mais longo, exige dedica\u00e7\u00e3o integral. S\u00e3o oito horas de aula por dia, durante seis anos, al\u00e9m da resid\u00eancia m\u00e9dica. N\u00e3o d\u00e1 para conciliar com trabalho, por exemplo. Larissa tem uma bolsa de R$ 425,00 mensais. E s\u00f3.<\/p>\n<p>\u201cConto com o aux\u00edlio da faculdade e minha fam\u00edlia me ajuda como pode\u201d, conta a estudante. \u201cMas n\u00e3o \u00e9 aquela ajuda do tipo morar num apartamento na Oscar Freire ou em Pinheiros, do lado da faculdade. Eu moro no Itaim Paulista, levo duas horas de \u00f4nibus para chegar l\u00e1.\u201d<\/p>\n<p>Este tamb\u00e9m \u00e9 o dia a dia de Matheus Cordeiro, de 23, do terceiro ano na UERJ, um dos tr\u00eas presidentes do centro acad\u00eamico da universidade. De Bangu, na zona oeste, onde mora, at\u00e9 o c\u00e2mpus do Maracan\u00e3, na zona norte, s\u00e3o pelo menos duas condu\u00e7\u00f5es e uma caminhada.<\/p>\n<p>\u201cO sistema de cotas mudou muita coisa na UERJ. Ganhamos bolsa de R$ 500, que \u00e9 vital. Mas estamos longe do ideal\u201d, diz Cordeiro. Para ele, o racismo persiste no curso, por parte de alunos brancos e at\u00e9 de professores. \u201cA diferen\u00e7a \u00e9 que agora, sendo 20, 30 alunos numa turma de 100, sabemos reconhecer comportamentos racistas\u201d, diz Cordeiro. \u201cQuando era s\u00f3 um aluno, por exemplo, era mais f\u00e1cil passar por algo pontual, e n\u00e3o estrutural.\u201d<\/p>\n<h3 class=\"intertitulo\">Reconhecimento<\/h3>\n<p>Uma das queixas mais recorrentes das alunas negras da UERJ diz respeito \u00e0s toucas para o centro cir\u00fargico, muito pequenas, que n\u00e3o servem para acomodar os cabelos das jovens. A pr\u00f3-reitora de pol\u00edtica e assist\u00eancia estudantil da UERJ, C\u00e1tia Antonia da Silva, reconhece que ainda h\u00e1 muito a ser feito. Para isso, diz, a pr\u00f3-reitoria que lidera foi criada, em mar\u00e7o de 2020.<\/p>\n<p>\u201cPrecisamos adequar melhor a infraestrutura do curso\u201d, diz C\u00e1tia. \u201cN\u00e3o podemos ter uma aluna linda, com suas tran\u00e7as afro, e a touca n\u00e3o caber na sua cabe\u00e7a. A quest\u00e3o passa tamb\u00e9m pelo reconhecimento da beleza negra, da cultura negra, da ancestralidade.\u201d<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o dos alunos, para o curso se tornar ainda mais inclusivo e diverso, os estudantes deveriam poder tamb\u00e9m contar com cotas para entrar nas monitorias e na resid\u00eancia m\u00e9dica, setores em que o porcentual de negros costuma cair. \u201cN\u00e3o consegui fazer resid\u00eancia e isso foi muito ruim para a minha forma\u00e7\u00e3o\u201d, conta Simone Lima. \u201cEu tinha de come\u00e7ar a trabalhar e ganhar dinheiro, n\u00e3o dava mais para ficar sem remunera\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>A maior diversidade nos cursos e na profiss\u00e3o de forma geral traz contribui\u00e7\u00f5es importantes tanto na forma\u00e7\u00e3o quanto na pr\u00e1tica di\u00e1ria da Medicina. \u201cA profiss\u00e3o vai ganhar com essa maior diversidade, com os negros e tamb\u00e9m os ind\u00edgenas, sobretudo se eles vierem das bases populares. V\u00e3o ser mais sens\u00edveis \u00e0 periferia, \u00e0 favela\u201d, acredita C\u00e1tia. \u201cEles v\u00e3o contribuir para pensar solu\u00e7\u00f5es diferentes para o Pa\u00eds, que \u00e9 de uma riqueza cultural t\u00e3o grande.\u201d<\/p>\n<p>Simone conta que tem muito orgulho de sua trajet\u00f3ria na Medicina. \u201cSou refer\u00eancia para minha filha e para muitas pessoas da minha fam\u00edlia\u201d, diz a m\u00e9dica. \u201cMas tem muita gente boa vindo por a\u00ed, e \u00e9 muito bom a gente come\u00e7ar a se enxergar, a gente mulher e a gente preta.\u201d<\/p>\n<p>Com Ag\u00eancia de Not\u00edcias\/MSN\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RIO &#8211; Dia sim e outro tamb\u00e9m, Simone Lima precisa esclarecer a seus interlocutores a posi\u00e7\u00e3o que ocupa em um dos melhores e mais exclusivos hospitais privados do Rio de Janeiro. \u201cN\u00e3o, eu n\u00e3o sou a enfermeira\u201d, explica a uma pessoa. \u201cO senhor precisa falar com um t\u00e9cnico de enfermagem, n\u00e3o comigo\u201d, recomenda, em outro &hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":57916,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[6,16],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57915"}],"collection":[{"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57915"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57915\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57918,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57915\/revisions\/57918"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57916"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57915"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57915"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57915"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}