{"id":52992,"date":"2020-03-25T16:36:31","date_gmt":"2020-03-25T16:36:31","guid":{"rendered":"http:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=52992"},"modified":"2020-03-25T16:36:31","modified_gmt":"2020-03-25T16:36:31","slug":"coronavirus-caso-fortuito-ou-forca-maior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/coronavirus-caso-fortuito-ou-forca-maior\/","title":{"rendered":"Coronav\u00edrus: caso fortuito ou for\u00e7a maior?"},"content":{"rendered":"<p>O planeta assiste, assustado, ao avan\u00e7o do novo \u201ccoronav\u00edrus\u201d (COVID-19), com o aumento estrondoso do n\u00famero de casos e \u00f3bitos em mais de 150 pa\u00edses no mundo. Depois da OMS classificar o novo v\u00edrus como pandemia, por \u00f3bvio que os mais diversos setores da economia mundial sofrer\u00e3o os impactos da crise, o que vai refletir nas rela\u00e7\u00f5es de emprego e, diretamente, nos mercados em seus mais diversos n\u00edveis, afetando, inclusive, o cumprimento de obriga\u00e7\u00f5es contratuais outrora assumidas.<\/p>\n<p>Claramente, os governos t\u00eam se esfor\u00e7ado para editar medidas que contemplem a prote\u00e7\u00e3o das vidas humanas, al\u00e9m de outras iniciativas de natureza econ\u00f4mica, na tentativa de aplacar os poss\u00edveis impactos da crise nos mais diversos setores. Dada a situa\u00e7\u00e3o emergencial, em v\u00e1rios pa\u00edses, houve a suspens\u00e3o das cobran\u00e7as pela presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os b\u00e1sicos, flexibiliza\u00e7\u00e3o das obriga\u00e7\u00f5es de natureza c\u00edvel e trabalhista, bem como altera\u00e7\u00f5es nos contratos de natureza estatut\u00e1ria, com os servidores p\u00fablicos. No Brasil, no \u00faltimo dia 22\/03, o governo federal editou a Medida Provis\u00f3ria de n.\u00ba 927, que flexibiliza as leis trabalhistas em raz\u00e3o do estado de calamidade p\u00fablica e da emerg\u00eancia de sa\u00fade verificada no mundo todo, visando a manuten\u00e7\u00e3o dos contratos de trabalho, pelo menos durante os pr\u00f3ximos meses.<\/p>\n<p>A lei brasileira classifica como caso fortuito ou de for\u00e7a maior aqueles \u201ccujos efeitos n\u00e3o era poss\u00edvel evitar ou impedir\u201d. Os institutos s\u00e3o semelhantes, e por vezes confundem-se quando de sua aplica\u00e7\u00e3o. Parece-nos claro que o novo coronav\u00edrus enquadra-se perfeitamente nas situa\u00e7\u00f5es previstas pela legisla\u00e7\u00e3o como caso fortuito. \u00c9 a reda\u00e7\u00e3o do art. 393 do C\u00f3digo Civil:<\/p>\n<div class=\"entry-content with-share\">\n<div class=\"content-inner \">\n<p><strong><em>Art. 393.<\/em><\/strong><em>\u00a0O devedor n\u00e3o responde pelos preju\u00edzos resultantes de caso fortuito ou for\u00e7a maior, se expressamente n\u00e3o se houver por eles responsabilizado.<\/em><\/p>\n<p><em>Par\u00e1grafo \u00fanico. O caso fortuito ou de for\u00e7a maior verifica-se no fato necess\u00e1rio, cujos efeitos n\u00e3o era poss\u00edvel evitar ou impedir.<\/em><\/p>\n<p>Portanto, tendo em vista que a pandemia \u00e9 fato imprevis\u00edvel, vez que pegou o mundo de surpresa, afetando as rela\u00e7\u00f5es humanas de maneira extraordin\u00e1ria, e tamb\u00e9m inevit\u00e1vel, j\u00e1 que os esfor\u00e7os individuais ou coletivos s\u00e3o, por ora, incapazes de arrefecer os avan\u00e7os do v\u00edrus e suas consequ\u00eancias para as rela\u00e7\u00f5es negociais, estamos diante de um claro cen\u00e1rio de caso fortuito que, por sua vez, tende a refletir diretamente no (des)cumprimento de obriga\u00e7\u00f5es assumidas. Isso n\u00e3o quer dizer que todas as obriga\u00e7\u00f5es poder\u00e3o ser descumpridas ou revistas em raz\u00e3o crise. H\u00e1 de se aferir as reais e diretas consequ\u00eancias provocadas pela pandemia, com a efetiva comprova\u00e7\u00e3o de sua interfer\u00eancia no cumprimento da obriga\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00e3o se pode perder de vista que a boa-f\u00e9 continua sendo a base de todas as rela\u00e7\u00f5es negociais, e ser\u00e1 levada em conta para determinar a ocorr\u00eancia de caso fortuito ou for\u00e7a maior.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, apesar de conhecida de muitos e por vezes utilizada por devedores para justificar o descumprimento de compromissos assumidos, n\u00e3o \u00e9 vista com tamanha clareza desde a Segunda Guerra Mundial, sendo que as controv\u00e9rsias negociais e demais quest\u00f5es obrigacionais ser\u00e3o submetidas aos tribunais p\u00e1trios, que certamente v\u00e3o analisar caso a caso, dadas as vicissitudes de cada evento.<\/p>\n<p>Um dos setores que mais podem sofrer os reflexos da crise provocada pelo avan\u00e7o da doen\u00e7a \u00e9 o da constru\u00e7\u00e3o civil, vez que muitas obras com prazo para serem entregues acabaram interrompidas por determina\u00e7\u00e3o governamental, impossibilitando o cumprimento do cronograma estabelecido. Nesse particular, h\u00e1 previs\u00e3o espec\u00edfica no codex civil, sendo que o art. 625 menciona a possibilidade do empreiteiro suspender a obra por culpa do dono ou por motivo de for\u00e7a maior. Ind\u00fastria, com\u00e9rcio e presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os tamb\u00e9m absorver\u00e3o o impacto das restri\u00e7\u00f5es e adequa\u00e7\u00f5es impostos pelo avan\u00e7o da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Tendo em vista a previs\u00e3o de uma enxurrada de conflitos e questionamentos advindos da poss\u00edvel aplica\u00e7\u00e3o dos institutos de caso fortuito e for\u00e7a maior, imp\u00f5e-se, neste momento, a aplica\u00e7\u00e3o do bom senso entre os envolvidos, que dever\u00e3o analisar o cen\u00e1rio, negociar as condi\u00e7\u00f5es contratuais, rever dispositivos considerados inexequ\u00edveis e, de comum acordo, repactuar, mesmo que temporariamente, o cumprimento das obriga\u00e7\u00f5es comprovadamente alcan\u00e7adas pela crise.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-78370\" src=\"https:\/\/storage.googleapis.com\/uploads.portalcontexto.com\/media\/2020\/03\/24173304\/Arinilson-Mariano.jpeg\" alt=\"\" width=\"288\" height=\"433\" data-pin-no-hover=\"true\" \/><figcaption><strong>Arinilson Gon\u00e7alves Mariano<\/strong><br \/>\n<em>Advogado, s\u00f3cio do escrit\u00f3rio Mariano, Montalv\u00e3o &amp; Freitas\u00a0<\/em>\u2013 Vi<em>ce-presidente da Comiss\u00e3o de Direito Imobili\u00e1rio e Urban\u00edstico da OAB\/GO<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"jeg_post_tags\">Com : portalcontexto.com\/coronavirus-caso-fortuito-ou-forca-maior\/<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O planeta assiste, assustado, ao avan\u00e7o do novo \u201ccoronav\u00edrus\u201d (COVID-19), com o aumento estrondoso do n\u00famero de casos e \u00f3bitos em mais de 150 pa\u00edses no mundo. 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