{"id":5142,"date":"2017-12-24T23:53:58","date_gmt":"2017-12-24T23:53:58","guid":{"rendered":"http:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=5142"},"modified":"2017-12-24T23:53:58","modified_gmt":"2017-12-24T23:53:58","slug":"ha-50-anos-primeiro-transplante-de-coracao-causava-sensacao-no-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/ha-50-anos-primeiro-transplante-de-coracao-causava-sensacao-no-mundo\/","title":{"rendered":"H\u00e1 50 anos, primeiro transplante de cora\u00e7\u00e3o causava sensa\u00e7\u00e3o no mundo"},"content":{"rendered":"<p>Na madrugada de 3 de dezembro de 1967, o cirurgi\u00e3o Christiaan Barnard realizou com \u00eaxito o primeiro transplante de cora\u00e7\u00e3o na \u00c1frica do Sul. A fa\u00e7anha lhe valeu o reconhecimento de seus pares, e tamb\u00e9m o \u00f3dio de quem o criticou por agir como se fosse Deus.<\/p>\n<p>N\u00e3o hav\u00edamos imaginado nem um s\u00f3 segundo que esse sucesso fosse gerar tanta indigna\u00e7\u00e3o p\u00fablica, contou \u00e0 AFP Dene Friedmann, que na sala de cirurgias com azulejos cor verde \u00e1gua acompanhou h\u00e1 50 anos a opera\u00e7\u00e3o pioneira.<\/p>\n<p>O professor Barnard recebeu cartas muito cr\u00edticas, cartas horr\u00edveis, que o chamavam de carniceiro, recordou a enfermeira, hoje septuagen\u00e1ria.<\/p>\n<p>Abutre, s\u00e1dico, anormal eram alguns dos insultos que chegavam de todos os cantos do mundo.<\/p>\n<p>Por favor, pare com essas opera\u00e7\u00f5es. Um homem jamais deveria substituir um cora\u00e7\u00e3o humano, j\u00e1 que o homem n\u00e3o pode substituir Deus, afirmava uma carta em italiano.<\/p>\n<p>Outra carta foi enviada da Austr\u00e1lia, com seu autor anunciando ao dr. Barnard que havia pedido \u00e0 pol\u00edcia da Cidade do Cabo que o prendesse o mais r\u00e1pido poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Na ocasi\u00e3o, a revista francesa Paris Match tamb\u00e9m abra\u00e7ou a pol\u00eamica com a manchete A batalha do cora\u00e7\u00e3o. Os cirurgi\u00f5es t\u00eam esse direito?.<\/p>\n<p>No imagin\u00e1rio coletivo, o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o como os demais e sua carga simb\u00f3lica \u00e9 muito maior. Naquela \u00e9poca, havia muitas quest\u00f5es \u00e9ticas a resolver, explicou a enfermeira.<\/p>\n<p>Mas comunidade cient\u00edfica celebrou a proeza t\u00e9cnica e tamb\u00e9m muitos cidad\u00e3os aplaudiram o feito. Um \u00eaxito mais importante que a explora\u00e7\u00e3o espacial e Ouvimos este batimento de cora\u00e7\u00e3o no mundo inteiro foram alguns dos coment\u00e1rios positivos.<\/p>\n<p>&#8211; Peito vazio &#8211;<\/p>\n<p>No primeiro andar do hospital de Groote Schuur, na Cidade do Cabo, durante uma noite que j\u00e1 anunciava a chegada do ver\u00e3o, Louis Washkansky ia receber o cora\u00e7\u00e3o de uma jovem de 25 anos.<\/p>\n<p>Na sala de cirurgia, Dene Friedmann se inclinou sobre o paciente anestesiado.<\/p>\n<p>Vi seu peito vazio, sem cora\u00e7\u00e3o. Foi aterrador, revela.<\/p>\n<p>Em uma sala anexa, o dr. Barnard ordenou que desligasse o aparelho da doadora, Denise Darvall, que j\u00e1 estava com morte cerebral depois de um acidente de carro.<\/p>\n<p>Em 12 minutos, o cora\u00e7\u00e3o deixou de bater e foi levado at\u00e9 onde se encontrava Washkansky, de 53 anos.<\/p>\n<p>Para Barnard era muito importante que o cora\u00e7\u00e3o de Denise Darvall deixasse de bater.<\/p>\n<p>Era o primeiro transplante de cora\u00e7\u00e3o e ele n\u00e3o queria usar um cora\u00e7\u00e3o que ainda estivesse batendo, contou a enfermeira.<\/p>\n<p>Havia muito nervosismo. Todos nos pergunt\u00e1vamos se o cora\u00e7\u00e3o ia bater de novo, acrescentou.<\/p>\n<p>O \u00f3rgano foi colocado no peito aberto de Louis Washkansky.<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o permanecia inerte, sem sinais de vida, contou Christiaan Barnard depois da opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esperamos um tempo &#8211; que me pareceram horas &#8211; at\u00e9 que come\u00e7ou a se distender lentamente. E, logo, houve uma contra\u00e7\u00e3o do orif\u00edcio da aur\u00edcula, seguida rapidamente dos ventr\u00edculos. E pouco a pouco come\u00e7ou a bater.<\/p>\n<p>O cirurgi\u00e3o sul-africano de 45 anos venceu nessa corrida os americanos, que tamb\u00e9m estavam a caminho de conseguir essa fa\u00e7anha.<\/p>\n<p>E, em parte, o feito do sul-africano se tornou poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0 defini\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-jur\u00eddica da morte distinta em ambas as margens do Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>&#8211; Cora\u00e7\u00e3o branco &#8211;<\/p>\n<p>Na \u00c1frica do Sul, um paciente \u00e9 considerado morto quando os m\u00e9dicos o declaram como tal. Nos Estados Unidos, em compensa\u00e7\u00e3o, o cora\u00e7\u00e3o deve deixar de bater de maneira efetiva, o que reduz as possibilidades de \u00eaxito de um transplante.<\/p>\n<p>Christiaan Barnard poderia, inclusive, ter realizado a opera\u00e7\u00e3o semanas antes, j\u00e1 que havia um doador mesti\u00e7o compat\u00edvel, mas essa opera\u00e7\u00e3o era imposs\u00edvel no contexto do apartheid.<\/p>\n<p>Teria, com certeza, sido interpretado como um novo ato demon\u00edaco do regime sul-africano racista. Teria sido inconceb\u00edvel dar a um branco o cora\u00e7\u00e3o de uma pessoa de cor. O primeiro doador tinha que ser branco, explicou Friedmann.<\/p>\n<p>Rumores na \u00e9poca falavam que um sul-africano negro, Hamilton Naki, teria participado no primeiro transplante, mas foi privado pelo governo do apartheid de qualquer tipo de reconhecimento.<\/p>\n<p>Dene Friedmann esclareceu os fatos. Ela trabalhou com Hamilton Naki em muitas experi\u00eancias realizadas com c\u00e3es, antes do primeiro transplante humano.<\/p>\n<p>Ele era muito talentoso, mas nunca operou nenhum paciente. N\u00e3o teve oportunidade, durante o apartheid, de praticar a medicina, explicou.<\/p>\n<p>Mas, 18 dias depois desse feito mundial, Louis Washkansky morreu. A necropsia revelou que a causa foi uma falha pulmonar e n\u00e3o de seu novo cora\u00e7\u00e3o. O paciente, com um sistema imunit\u00e1rio debilitado, morreu por causa de uma pneumonia.<\/p>\n<p>Diante da not\u00edcia, o dr. Christiaan Barnard, apelidado de o homem com dedos de ouro, chorou, recorda Friedmann.<\/p>\n<p>Sua conquista, no entanto, o fez entrar para a Hist\u00f3ria. A enfermeira contou ainda que o governo do apartheid, encantado por ter, enfim, boas not\u00edcias para dar, acabou nomeando Barnard seu embaixador.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na madrugada de 3 de dezembro de 1967, o cirurgi\u00e3o Christiaan Barnard realizou com \u00eaxito o primeiro transplante de cora\u00e7\u00e3o na \u00c1frica do Sul. A fa\u00e7anha lhe valeu o reconhecimento de seus pares, e tamb\u00e9m o \u00f3dio de quem o criticou por agir como se fosse Deus. 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