{"id":3982,"date":"2017-12-24T14:59:59","date_gmt":"2017-12-24T14:59:59","guid":{"rendered":"http:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=3982"},"modified":"2017-12-24T14:59:59","modified_gmt":"2017-12-24T14:59:59","slug":"blade-runner-por-que-a-obra-de-philip-k-dick-continua-atual-50-anos-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/blade-runner-por-que-a-obra-de-philip-k-dick-continua-atual-50-anos-depois\/","title":{"rendered":"\u2018Blade Runner\u2019: Por que a obra de Philip K. Dick continua atual 50 anos depois"},"content":{"rendered":"<p>Faz pouco tempo que a s\u00e9rie O Conto da Aia, da plataforma de streaming Hulu, deixou incont\u00e1veis espectadores perplexos com o futuro dist\u00f3pico no qual a hist\u00f3ria se ambienta. Baseada no ic\u00f4nico romance de Margaret Atwood, a s\u00e9rie mostra as mais variadas formas de opress\u00e3o que as mulheres sofrem cotidianamente sob o poder de um governo autorit\u00e1rio, militarizado e teocr\u00e1tico.<\/p>\n<p>O seriado veio na esteira do aumento da demanda por narrativas dist\u00f3picas \u2014 O Conto da Aia, lan\u00e7ado h\u00e1 mais de 30 anos, voltou a ser bestseller com 1984, hist\u00f3ria futurista de George Orwell lan\u00e7ada em 1949. No \u00faltimo dia 5, a s\u00e9rie Blade Runner juntou-se a esse cen\u00e1rio ao voltar aos cinemas com um futuro neo-noir e chuvoso que tamb\u00e9m passa longe de ser um lugar bacana para se viver.<\/p>\n<p>Blade Runner 2049, dirigido por Denis Villeneuve (A Chegada), \u00e9 a sequ\u00eancia do filme de Ridley Scott lan\u00e7ado em 1982, um cl\u00e1ssico cult de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica baseado em Androides Sonham com Ovelhas El\u00e9tricas?, filos\u00f3fico livro do norte-americano Philip K. Dick (1928\u20131982).<\/p>\n<p>Lan\u00e7ado em 1968 \u2014 mesmo ano que chegou aos cinemas 2001: Uma Odisseia no Espa\u00e7o e O Planeta dos Macacos, e o mundo vivia um agudo momento pol\u00edtico \u2014, o romance de Dick mostra uma sociedade ultra-tecnol\u00f3gica em meio \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o causada por uma guerra nuclear de escala global.<\/p>\n<p>\u00c9 uma preocupa\u00e7\u00e3o comum da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do s\u00e9culo 20. Hoje a gente est\u00e1 mais focado em distopias pol\u00edticas, mas na \u00e9poca da Guerra Fria, as pessoas estavam muito preocupadas com a bomba at\u00f4mica, analisa B\u00e1rbara Prince, editora do livro da Aleph, em entrevista ao HuffPost Brasil. A editora lan\u00e7a neste m\u00eas uma edi\u00e7\u00e3o comemorativa de 50 anos do livro.<\/p>\n<p>Prince diz que obras como O Conto da Aia refletem a atual discuss\u00e3o sobre lugar de fala na sociedade, ditaduras e fundamentalismos; o romance de Dick, por sua vez, reflete um risco que voltou a ser atual com os frequentes testes nucleares da Coreia do Norte e a troca de amea\u00e7as b\u00e9licas entre o pa\u00eds e os Estados Unidos. A qualquer momento algu\u00e9m pode explodir tudo.<\/p>\n<p>Ao lado de Black Mirror (Netflix), Blade Runner \u00e9 a \u00fanica distopia tecnol\u00f3gica que ainda nos congela a espinha.<\/p>\n<p>Entretanto, a discuss\u00e3o sobre lugar de fala tamb\u00e9m est\u00e1 presente no universo de Blade Runner \u2014 e, segundo a editora, este \u00e9 outro motivo que faz a obra ainda ser atual.<\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria concebida por Dick, a Terra tornou-se uma grande periferia. Ap\u00f3s o desastre nuclear, quem podia pagar foi viver em col\u00f4nias em outros planetas; quem ficou para tr\u00e1s n\u00e3o tinha dinheiro ou foi barrado por n\u00e3o ter posi\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Os androides, chamados de replicantes, servem como escravos aos humanos que vivem nas col\u00f4nias. No entanto, esses rob\u00f4s tamb\u00e9m t\u00eam capacidade de refletir e sentir \u2014 al\u00e9m de serem assustadoramente semelhantes aos humanos \u2014, e se rebelam. Muitos matam seus patr\u00f5es, fogem para a Terra e unem-se em grupos que clamam por espa\u00e7o na sociedade. Para muitos humanos, eles s\u00e3o seres repugnantes. A abordagem que Androides Sonham com Ovelhas El\u00e9tricas? faz de religi\u00e3o e animais tamb\u00e9m ajudam a compor o tecido de coment\u00e1rio social feito pelo autor.<\/p>\n<p>Outro tema que tamb\u00e9m d\u00e1 a Blade Runner um lugar especial na fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 o questionamento do que \u00e9 real ou n\u00e3o. A partir do filme de 1982, por exemplo, iniciou-se a discuss\u00e3o a respeito da origem do personagem de Harrison Ford, o ca\u00e7ador de androides Rick Deckard. Ele \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9 um replicante? Trata-se de um intenso debate entre os f\u00e3s \u2014 e tamb\u00e9m de um reflexo das paranoias de Philip K. Dick.<br \/>\nDivulga\u00e7\u00e3o\/Sony<br \/>\nEm Blade Runner, as mulheres tamb\u00e9m n\u00e3o recebem o melhor dos tratamentos.<\/p>\n<p>Em uma conven\u00e7\u00e3o de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica na Fran\u00e7a em 1977, Dick sentou-se \u00e0 mesa diante do p\u00fablico, deu alguns tapinhas no microfone para testa-lo e anunciou: Estamos vivendo em uma realidade programada por computadores. A \u00fanica pista que temos disso \u00e9 quando alguma vari\u00e1vel \u00e9 mudada e acontece alguma altera\u00e7\u00e3o em nossa realidade.<\/p>\n<p>O autor referia-se \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de d\u00e9j\u00e0 vu. Ou apenas nos deu mais um exemplo da grave paranoia que lhe acometia.<\/p>\n<p>Dick tinha problemas psiqui\u00e1tricos, usava dezenas anfetaminas por semana e escrevia nelas, Ele dizia que tinha experi\u00eancias espirituais e, em uma delas, viu Deus, conta Prince. Em todos os livros dele h\u00e1 a quest\u00e3o do que \u00e9 real, do que \u00e9 estar vivo, se a gente est\u00e1 mesmo vivo.<\/p>\n<p>A vida toda ele teve esse tipo de transtorno. N\u00e3o se sabe se era apenas psiqui\u00e1trico, ou as drogas, ou tudo isso misturado, mas era um questionamento que o autor colocou na obra dele.<\/p>\n<p>Enquanto h\u00e1 d\u00favida a respeito da origem de Deckard, uma certeza em Blade Runner \u00e9 a marca da misoginia t\u00edpica de Dick.<\/p>\n<p>No novo longa-metragem, o androide K. (Ryan Gosling) vagueia por uma Los Angeles que transborda publicidade \u2014 l\u00e1, o capitalismo venceu de goleada \u2014 e uma delas \u00e9 o gigantesco holograma de Joi (Ana de Armas) completamente nua; ela \u00e9 uma intelig\u00eancia artificial que faz companhia a homens. N\u00e3o h\u00e1 sinal de homens que tamb\u00e9m sejam hologramas para sexo ou comercializem sexo de maneira fria e objetiva, como a prostituta Mariette (Mackenzie Davis).<\/p>\n<p>Dick tinha muito problema com mulher. Foi casado seis ou sete vezes e h\u00e1 v\u00e1rias hist\u00f3rias de relacionamento abusivo com as esposas dele. Em toda obra dele, a representatividade feminina \u00e9 p\u00e9ssima, defende a editora. A mulher est\u00e1 l\u00e1 para ser uma coitada, ou muito burra e fazer alguma merda, ou ser um objeto sexual.<\/p>\n<p>O homem est\u00e1 nos livros dele para ser um her\u00f3i e participar da hist\u00f3ria, mas com a mulher \u00e9 outra hist\u00f3ria. Se ele puder escrever sobre o decote dela, ele escreve.<br \/>\nDivulga\u00e7\u00e3o<br \/>\nPhilip K. Dick est\u00e1 em alta: Blade Runner volta aos cinemas e uma nova s\u00e9rie estreia em 2018.<\/p>\n<p>Trinta anos ap\u00f3s os acontecimentos de Blade Runner, o Ca\u00e7ador de Androides, o replicante K., membro do departamento de pol\u00edcia de LA, recebe a tarefa de investigar um movimento que liberta outros androides. Ele encontra uma caixa com os restos mortais de uma replicante que estava gr\u00e1vida \u2014 algo at\u00e9 ent\u00e3o considerado imposs\u00edvel. O segredo pode mudar absolutamente tudo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de Gosling, de Armas, Davis e Ford, tamb\u00e9m est\u00e3o no elenco Robin Wright, Jared Leto, Sylvia Hoeks, Carla Juri e Dave Bautista. O roteiro \u00e9 de Michael Green (da s\u00e9rie American Gods) e Hampton Fancher (do filme de Ridley Scott); o enredo foi concebido por Fancher, que usou personagens do romance de Dick.<\/p>\n<p>Os curta-metragens 2036: Nexus Dawn, 2048: Nowhere to Run e Blade Runner Black Out 2022 \u2014 um anime de Shinichir\u014d Watanabe \u2014 complementam a experi\u00eancia.<\/p>\n<p>A obra de Dick est\u00e1 viva e em boa fase de adapta\u00e7\u00f5es. A plataforma de streaming da Amazon lan\u00e7ar\u00e1 em 2018 a terceira temporada da bem-sucedida The Man in the High Castle, distopia que imagina o que seriam os Estados Unidos dos anos 1960 caso o Terceiro Reich tivesse vencido a II Guerra Mundial. Frank Spotnitz (Arquivo X) \u00e9 o criador.<\/p>\n<p>Na antologia Philip K. Dicks Electric Dreams, criada por Ronald D. Moore (Outlander) e Michael Dinner (Anos Incr\u00edveis), cada epis\u00f3dio baseia-se em um conto do autor. A s\u00e9rie estreou em 17 de outubro no canal brit\u00e2nico Channel 4 e ser\u00e1 exibida nos EUA pela Amazon. A plataforma ainda n\u00e3o informou se colocar\u00e1 Electric Dreams no cat\u00e1logo brasileiro.<\/p>\n<p>Outros livros de K. Dick lan\u00e7ados no Brasil:<\/p>\n<p>O Homem do Castelo Alto (Aleph)<\/p>\n<p>Realidades Adaptadas (cole\u00e7\u00e3o de contos; Aleph)<\/p>\n<p>Um Reflexo na Escurid\u00e3o (Aleph)<\/p>\n<p>Ubik (Aleph)<\/p>\n<p>Valis (Aleph)<\/p>\n<p>Tr\u00eas Estigmas de Palmer Eldritch (Aleph)<\/p>\n<p>O Pagamento (Record)<\/p>\n<p>Vozes da Rua (Rocco)<\/p>\n<p>Biografias do escritor:<\/p>\n<p>Eu Estou Vivo e Voc\u00eas Est\u00e3o Mortos: A Vida de Philip K. Dick, de Emmanuel Carr\u00e8re (Aleph)<\/p>\n<p>A Vida de Philip K. Dick, de Anthony Peake (Seoman)<\/p>\n<p>Outros filmes e s\u00e9ries baseados em obras de K. Dick:<\/p>\n<p>Philip K. Dicks Electric Dreams (Channel 4), de Ronald D. Moore e Michael Dinner<\/p>\n<p>The Man in the High Castle (Amazon), de Frank Spotnitz<\/p>\n<p>Os Agentes do Destino (2011), de George Nolfi<\/p>\n<p>O Vidente (2007), de Lee Tamahori<\/p>\n<p>O Homem Duplo (2006), de Richard Linklater<\/p>\n<p>O Pagamento (2003), de John Woo<\/p>\n<p>Minority Report: A Nova Lei (2002), de Steven Spielberg<\/p>\n<p>Assassinos Cibern\u00e9ticos (1995), de Christian Duguay<\/p>\n<p>O Vingador do Futuro (1990), de Paul Verhoeven<br \/>\nDivulga\u00e7\u00e3o<br \/>\nAp\u00f3s 30 anos, Harrison Ford volta a Blade Runner como o (agora ex) ca\u00e7ador de androides Deckard.<br \/>\nSugira uma corre\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Faz pouco tempo que a s\u00e9rie O Conto da Aia, da plataforma de streaming Hulu, deixou incont\u00e1veis espectadores perplexos com o futuro dist\u00f3pico no qual a hist\u00f3ria se ambienta. 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