{"id":3324,"date":"2017-12-24T11:10:37","date_gmt":"2017-12-24T11:10:37","guid":{"rendered":"http:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=3324"},"modified":"2017-12-24T11:10:37","modified_gmt":"2017-12-24T11:10:37","slug":"mesmo-poluida-baia-de-guanabara-e-fonte-de-renda-para-milhares-de-pescadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/mesmo-poluida-baia-de-guanabara-e-fonte-de-renda-para-milhares-de-pescadores\/","title":{"rendered":"Mesmo polu\u00edda, Ba\u00eda de Guanabara \u00e9 fonte de renda para milhares de pescadores"},"content":{"rendered":"<p>Aos 67 anos, S\u00e9rgio Souza dos Santos, pescador h\u00e1 58 anos, lembra com saudades dos bons tempos de pesca na Ba\u00eda de Guanabara. \u201cNa \u00e9poca que eu era jovem, com uns 20 anos, era muito peixe. At\u00e9 os botos vinham e batiam no barco, vinham por cima das tainhas e dos paratis, a gente levava um susto, dava muito boto. Agora parece que s\u00f3 resta uns 30\u201d, lamenta.<\/p>\n<p>A informa\u00e7\u00e3o sobre o n\u00famero de botos na ba\u00eda faz parte de um censo divulgado pelo Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio), que tamb\u00e9m aponta a redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de esp\u00e9cies de peixes, constatada nas redes de pesca e pu\u00e7\u00e1s, como explica Santos, que vive na comunidade de Tubiacanga, na Ilha do Governador, zona norte do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>\u201cPescadinha \u00e9 raro agora, robalo dava aqui nesse ponto e n\u00e3o tem mais. O \u00fanico que ainda insiste em permanecer aqui \u00e9 o bagre, que eu acho que vive at\u00e9 dentro de uma po\u00e7a de esgoto. A tainha, que tamb\u00e9m n\u00e3o d\u00e1 o ano todo, \u00e9 mais no ver\u00e3o; e a corvinota, que \u00e9 tipo uma corvina que n\u00e3o cresce tanto que nem as que d\u00e1 l\u00e1 fora [da ba\u00eda]. Tem a sardinha, mas \u00e9 da boca torta [que tem menos valor comercial], a savelha tamb\u00e9m n\u00e3o d\u00e1 mais tanto. Com certeza \u00e9 por causa da degrada\u00e7\u00e3o ambiental\u201d, avalia o pescador.<\/p>\n<p>Tubiacanga foi a comunidade mais afetada pelo vazamento de \u00f3leo na Ba\u00eda de Guanabara em 2000, considerado o segundo pior acidente ambiental na regi\u00e3o, com 1,3 milh\u00e3o de litros despejados nas \u00e1guas, mangues e praias da ba\u00eda. Santos afirma que a vida do pescador piorou desde l\u00e1, mas o acidente n\u00e3o foi o \u00fanico motivo. Tamb\u00e9m h\u00e1 muito esgoto sem tratamento, assoreamento e lixo flutuante.<\/p>\n<p>\u201cA vida est\u00e1 dif\u00edcil, muito dif\u00edcil. N\u00e3o s\u00f3 pelo vazamento, mas tem polui\u00e7\u00e3o de tudo quanto \u00e9 jeito, \u00e9 qu\u00edmica que vem pelos rios, das ind\u00fastrias. O lix\u00e3o acabou, mas tem o chorume, que prejudica muito a \u00e1rea de pesca em Sarapui, onde a gente tinha o ber\u00e7\u00e1rio do camar\u00e3o. Dava muito camar\u00e3o aqui dentro, esse ano n\u00e3o t\u00e1 tendo.\u201d<\/p>\n<p>O presidente da Col\u00f4nia de Pescadores Z-10 Almirante Pereira Gomes Pereira, Wilson Rodrigues, explica que, al\u00e9m da redu\u00e7\u00e3o da quantidade de pescado dispon\u00edvel, outro fator dificultou a vida dos pescadores da ba\u00eda: a crise financeira, que atraiu muitos trabalhadores para essa atividade e aumentou a concorr\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cPiorou muito sim, na \u00faltima d\u00e9cada diminuiu a quantidade de pescado e aumentou a quantidade de pescadores, de pessoas que t\u00eam \u00e0s vezes um emprego mas faz um extra pescando. E quem realmente precisa da pescaria tem que dividir mais esse espa\u00e7o com os companheiros que est\u00e3o precisando. O material de pesca tamb\u00e9m est\u00e1 muito caro. Rede pl\u00e1stica, linha, pu\u00e7\u00e1 pro siri, tarrafa.\u201d Segundo ele, muitos pescadores est\u00e3o criando pato e galinha para ter o que comer.<\/p>\n<p>A Z-10 corresponde \u00e0s \u00e1reas da Ilha do Governador, Paquet\u00e1 e Chacrinha, em Duque de Caxias, reunindo cerca de 3 mil pescadores, que vivem de pesca artesanal e apenas dentro da ba\u00eda. N\u00e3o h\u00e1 estat\u00edstica sobre o n\u00famero de pescadores e a produ\u00e7\u00e3o dentro da Ba\u00eda de Guanabara, mas a Funda\u00e7\u00e3o Instituto de Pesca do Rio de Janeiro (Fiperj) iniciou um levantamento com esse recorte h\u00e1 dois meses. Segundo o relat\u00f3rio anual mais recente da entidade, de 2015, o estado tem 8 mil pescadores artesanais. Somando-se a produ\u00e7\u00e3o de pescado dos polos de S\u00e3o Gon\u00e7alo \u2013 cuja costa fica toda dentro da ba\u00eda \u2013 ao Rio de Janeiro e Niter\u00f3i, que t\u00eam com \u00e1reas abrigadas e tamb\u00e9m oce\u00e2nicas, a produ\u00e7\u00e3o chega a 15 mil toneladas de pescado por ano. Mais de 75% da produ\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o \u00e9 de sardinha verdadeira.<\/p>\n<p>Despolui\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>A primeira tentativa de limpar a \u00e1rea foi o Programa de Despolui\u00e7\u00e3o da Ba\u00eda de Guanabara (PDBG), assinado em julho de 1991, uma coopera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica entre os governos brasileiro e japon\u00eas, depois da experi\u00eancia bem-sucedida na despolui\u00e7\u00e3o da Ba\u00eda de T\u00f3quio. Houve um investimento de US$ 800 milh\u00f5es do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e do Japan Bank for Internacional Cooperation (JBIC).<\/p>\n<p>Uma auditoria Operacional no PDBG feita pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) em agosto de 2006 apontou falhas graves no planejamento e controle do programa. Em 15 anos de vig\u00eancia, o PDBG construiu quatro grandes esta\u00e7\u00f5es de Tratamento de Esgoto (ETEs): Alegria, no Caju, zona portu\u00e1ria do Rio de Janeiro; S\u00e3o Gon\u00e7alo, na regi\u00e3o metropolitana da capital; e Pavuna e Sarapu\u00ed, na Baixada Fluminense. Entretanto, as redes coletoras que deveriam levar o esgoto das resid\u00eancias at\u00e9 elas n\u00e3o foram constru\u00eddas, deixando as esta\u00e7\u00f5es de tratamento sem utilidade.<\/p>\n<p>Uma nova iniciativa de despolui\u00e7\u00e3o, o Programa de Saneamento Ambiental dos Munic\u00edpios do Entorno da Ba\u00eda de Guanabara (Psam), anunciado em mar\u00e7o de 2012, previa investimento de US$ 639,55 milh\u00f5es at\u00e9 2017, em obras de esgotamento sanit\u00e1rio e em projetos de saneamento nos 15 munic\u00edpios que comp\u00f5em a bacia hidrogr\u00e1fica da regi\u00e3o. Com isso, foram conclu\u00eddas outras esta\u00e7\u00f5es, chegando a sete; e iniciada a constru\u00e7\u00e3o de troncos coletores. Atualmente, duas obras est\u00e3o em andamento: a implanta\u00e7\u00e3o do Coletor Tronco Cidade Nova e Constru\u00e7\u00e3o do Sistema Alc\u00e2ntara.<\/p>\n<p>\u201cA primeira encontra-se com 41% de avan\u00e7o f\u00edsico e a segunda com 48% de redes implantadas e 29% da esta\u00e7\u00e3o de tratamento constru\u00edda. Para possibilitar as negocia\u00e7\u00f5es do Regime de Recupera\u00e7\u00e3o Fiscal com a Uni\u00e3o, o governo do estado do Rio de Janeiro realizou cortes nos investimentos. Assim, a nova previs\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria para o programa \u00e9 de US$ 292,5 milh\u00f5es, dos quais foram gastos at\u00e9 31\/07\/2017, US$ 105,12 milh\u00f5es\u201d, informou a Secretaria de Estado do Ambiente (SEA). O andamento das obras pode ser acompanhado pela internet.<\/p>\n<p>Em dezembro de 2013, foi assinado o Acordo de Coopera\u00e7\u00e3o T\u00e9cnica Fortalecimento da Governan\u00e7a e Gest\u00e3o da Ba\u00eda de Guanabara, com o governo de Maryland, nos Estados Unidos, que teve uma experi\u00eancia bem-sucedida na recupera\u00e7\u00e3o da Baia de Chesapeake. De acordo com a SEA, o objetivo \u00e9 identificar o atual cen\u00e1rio ambiental da Ba\u00eda de Guanabara e definir metas de curto e longo prazo para a mitiga\u00e7\u00e3o das fontes de polui\u00e7\u00e3o, com a coopera\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os de governo, empresas, da sociedade civil e da Academia.<\/p>\n<p>Nova tentativa<\/p>\n<p>No ano passado, foram feitas duas audi\u00eancias p\u00fablicas dentro do acordo e em julho deste ano ocorreu um semin\u00e1rio, em que foram apresentados o Plano de Recupera\u00e7\u00e3o da Ba\u00eda, feito pela consultoria KCI Technologies; o Boletim de Sa\u00fade Ambiental da Ba\u00eda, elaborado pela Universidade de Maryland; e a Proposta de Modelo de Governan\u00e7a para a Ba\u00eda, desenvolvida pela Funda\u00e7\u00e3o Brasileira para o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (FBDS). Os documentos est\u00e3o dispon\u00edveis na internet.<br \/>\nTomaz Silva\/Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n<p>Ecobarreira instalada no Rio Meriti, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, para evitar que o lixo flutuante chegue \u00e0 Ba\u00eda de GuanabaraTomaz Silva\/Arquivo\/Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n<p>Segundo o Boletim de Sa\u00fade Ambiental da Ba\u00eda, 8,5 milh\u00f5es de pessoas vivem no entorno da \u00e1rea e as principais fontes de polui\u00e7\u00e3o s\u00e3o o lixo e o esgoto. A m\u00e9dia de tratamento de esgoto nos 15 munic\u00edpios da regi\u00e3o \u00e9 de 35%, indo de zero em cidades como Cachoeira de Macacu, Mag\u00e9, Nil\u00f3p\u00f3lis, S\u00e3o Jo\u00e3o de Meriti e Tangu\u00e1 a 95% em Niter\u00f3i.<\/p>\n<p>Na capital, s\u00e3o tratados 47% do esgoto. Em S\u00e3o Gon\u00e7alo, o segundo mais populoso da regi\u00e3o, apenas 10% do esgoto \u00e9 tratado. Quanto ao lixo, 17 ecobarreiras instaladas em rios evitam que parte dos dejetos flutuantes chegue \u00e0 Ba\u00eda de Guanabara. No ano passado, o volume desse res\u00edduos passou de 4 mil toneladas.<\/p>\n<p>Qualidade da \u00e1gua<\/p>\n<p>A qualidade da \u00e1gua s\u00f3 \u00e9 considerada boa na regi\u00e3o da entrada da ba\u00eda. A pior situa\u00e7\u00e3o \u00e9 na parte noroeste, no entorno da Ilha do Governador e da Ilha do Fund\u00e3o, que recebeu a classifica\u00e7\u00e3o de muito ruim. A parte norte, no fundo, tem qualidade ruim, e a regi\u00e3o central foi considerada moderada. Nenhuma \u00e1rea recebeu a classifica\u00e7\u00e3o de muito boa para a qualidade da \u00e1gua.<\/p>\n<p>O Plano de Recupera\u00e7\u00e3o Ambiental (PRA-Ba\u00eda) prev\u00ea, al\u00e9m do estabelecimento de metas em diversas \u00e1reas como amplia\u00e7\u00e3o do saneamento b\u00e1sico e redu\u00e7\u00e3o dos efluentes industriais, a cria\u00e7\u00e3o de um site para o acompanhamento p\u00fablico das a\u00e7\u00f5es e o engajamento de todos os setores da sociedade e dos governos na causa. Alguns dados j\u00e1 est\u00e3o dispon\u00edveis no site do Instituto Estadual do Ambiente (Inea).<\/p>\n<p>Com a sabedoria de pescador, Santos n\u00e3o perde a esperan\u00e7a de ver a Ba\u00eda de Guanabara limpa outra vez e sabe o caminho para isso: \u201cConscientizar as crian\u00e7as na escola, dar um estudo de conscientiza\u00e7\u00e3o ambiental para que as crian\u00e7as aprendam a n\u00e3o jogar o lixo no rio, isso melhoraria muito, porque \u00e9 muito saco pl\u00e1stico, muito lixo, o povo tem que se conscientizar disso tamb\u00e9m\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos 67 anos, S\u00e9rgio Souza dos Santos, pescador h\u00e1 58 anos, lembra com saudades dos bons tempos de pesca na Ba\u00eda de Guanabara. \u201cNa \u00e9poca que eu era jovem, com uns 20 anos, era muito peixe. 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