{"id":31038,"date":"2018-03-23T21:59:41","date_gmt":"2018-03-23T21:59:41","guid":{"rendered":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=31038"},"modified":"2018-03-23T21:59:41","modified_gmt":"2018-03-23T21:59:41","slug":"65-anos-sem-graciliano-ramos-ele-continua-atual-diz-neto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/65-anos-sem-graciliano-ramos-ele-continua-atual-diz-neto\/","title":{"rendered":"65 anos sem Graciliano Ramos: Ele continua atual, diz neto"},"content":{"rendered":"<p>O escritor e roteirista Ricardo Ramos Filho evita sair de casa no dia 20 de mar\u00e7o. \u00c9 a data da morte do av\u00f4 dele, o escritor Graciliano Ramos (que morreu h\u00e1 65 anos), e tamb\u00e9m da perda do pai, Ricardo Ramos (tamb\u00e9m escritor, h\u00e1 26 anos).<\/p>\n<p>Graciliano Ramos \u00e9 autor de Vidas Secas, obra de 1938, que conta a hist\u00f3ria de retirantes nordestinos castigados pela seca. Al\u00e9m de romances, Graciliano tamb\u00e9m era conhecido por ser cronista, contista e pol\u00edtico. Foi preso durante o governo Get\u00falio Vargas, em 1953, acusado de subvers\u00e3o, experi\u00eancia retratada no livro Mem\u00f3rias do C\u00e1rcere, publicado pela vi\u00fava Helo\u00edsa Ramos.<\/p>\n<p>O neto Ricardo Filho, que se tornou pesquisador da obra graciliana e da literatura infanto-juvenil, n\u00e3o chegou a conhecer o av\u00f4, mas as influ\u00eancias marcaram a vida dele desde a inf\u00e2ncia. Nessa fam\u00edlia, o livro interligou as gera\u00e7\u00f5es. \u201cPela literatura, me aproximava do meu pai [&#8230;] me explicava a melhor forma de escrever e enxugar o texto\u201d.<\/p>\n<p>Ricardo Ramos Filho revela que Vidas Secas representa at\u00e9 hoje 80% dos direitos autorais que a fam\u00edlia recebe. \u201cAcho uma obra extraordin\u00e1ria\u201d, mas diz preferir outros romances. <\/p>\n<p>Confira a entrevista:<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: Como pesquisador da obra de Graciliano Ramos, qual o segredo da atualidade dos livros dele?<\/p>\n<p>Ricardo Ramos Filho:  O segredo \u00e9 a verdade com que Graciliano escreveu, a maneira como ele enxerga o pa\u00eds, como retrata as pessoas. Nesse sentido, fica tudo muito atual. Infelizmente, 80 anos depois, a gente ainda encontra muitos Fabianos, Sinh\u00e1s Vit\u00f3ria, Baleias [a cachorra], meninos mais novos, meninos mais velhos [sem nome] no nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: Vidas Secas, al\u00e9m de aclamado, \u00e9 um c\u00e2none da nossa literatura. Podemos dizer que para conhecer a alma de Graciliano \u00e9 preciso ler esse livro?<\/p>\n<p>Ricardo Ramos Filho: Sem d\u00favida. Vou dar um dado que eu tenho e nem todo mundo tem: se a gente for verificar o direito autoral da obra de Graciliano, \u00e9 o livro mais relevante. Graciliano tem quatro romances [pela ordem de publica\u00e7\u00e3o]: Caet\u00e9s, S\u00e3o Bernardo, Ang\u00fastia e Vidas Secas, al\u00e9m de dois livros de mem\u00f3rias, como Inf\u00e2ncia e Mem\u00f3rias do C\u00e1rcere. H\u00e1 livros infantis tamb\u00e9m, \u00e9 uma obra muito vasta. Vidas Secas arrecada para fam\u00edlia pelo menos 80% do total dos direitos autorais da obra dele. E todo o restante vale no m\u00e1ximo 20%. Vidas Secas \u00e9 adotado por muitos vestibulares, o que ajuda a incentivar as vendas. Eu, particularmente, n\u00e3o acho que seja o mais definitivo. Nasceu da uni\u00e3o de alguns contos. Mas n\u00e3o tem, para mim, como leitor, a mesma for\u00e7a de S\u00e3o Bernardo e Ang\u00fastia, embora eu goste muito. Vidas Secas n\u00e3o foi escrito para ser romance.  Mas \u00e9 um romance extraordin\u00e1rio. Tenho certeza de que quem entrar em contato com esse livro ter\u00e1 acesso ao melhor da obra de Graciliano.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: Pode falar sobre as caracter\u00edsticas mais relevantes, em sua opini\u00e3o, nessas obras? Tanto como pesquisador quanto como neto?<\/p>\n<p>Ricardo Ramos Filho: Graciliano publicou, em 1933, Caet\u00e9s [o primeiro romance]; em 1934, S\u00e3o Bernardo, e em 1936, Ang\u00fastia. S\u00e3o obras narradas em primeira pessoa com uma estrutura de romance. A experi\u00eancia prisional fez com que ele mudasse o perfil. Quando foi solto, precisava transformar o que ele escrevia em dinheiro. Ele precisava vender. Participar de concursos para sustentar a fam\u00edlia. Ele estava desempregado.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: Apesar de n\u00e3o ser uma pergunta simples, poderia dizer de que forma Graciliano influenciou seu pai, e de que forma seu av\u00f4 e seu pai fizeram a diferen\u00e7a para o senhor?<\/p>\n<p>Ricardo Ramos Filho: \u00c9 uma pergunta necess\u00e1ria. Eu n\u00e3o conheci meu av\u00f4. Ele morreu um ano antes de eu nascer. Graciliano influenciou mais diretamente meu pai. Quando Graciliano foi preso, meu pai, que estava em idade escolar, ficou em Macei\u00f3, e n\u00e3o foi para o Rio de Janeiro. Foi um contato tardio entre eles. Depois dos 14 anos, eles conversavam bastante sobre literatura. E essas conversas chegaram a mim por meu pai. Ele falava sobre o texto ter frases curtas, sem ger\u00fandios ou adjetivos, do que seria um \u201cum bom texto\u201d a ser lido. Conselhos fundamentais como a ideia de que um texto precisa ser lido e relido para enxugar e retirar os excessos.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: Para o senhor essa influ\u00eancia foi desde muito novo?<\/p>\n<p>Ricardo Ramos Filho: Eu tive uma intermedia\u00e7\u00e3o muito competente do meu pai. Muita gente me diz: \u201cMeu filho n\u00e3o l\u00ea. O que eu fa\u00e7o?\u201d Eu sempre repito: \u201cVoc\u00ea l\u00ea?\u201d ou \u201cTeu filho te v\u00ea lendo?\u201d Se o pai n\u00e3o l\u00ea, teu filho n\u00e3o vai ler. Uma coisa muito gostosa eram nossas conversas sobre as leituras que meu pai nos recomendava. A literatura foi sempre um canal de aproxima\u00e7\u00e3o com meu pai. Ele, que n\u00e3o era uma pessoa t\u00e3o acess\u00edvel, sempre gostava de conversar sobre livros. Era um cara que trabalhava muito e chegava tarde em casa.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: O senhor teve filhos?<\/p>\n<p>Ricardo Ramos Filho: N\u00e3o, mas meu enteado me via lendo e era interessante como ele imitava quando era bem pequeno. At\u00e9 com o livro de ponta-cabe\u00e7a, mas era o gesto.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: E essa influ\u00eancia para o senhor na escrita?<\/p>\n<p>Ricardo Ramos Filho: Eu cresci na minha casa no meio da ditadura. Tudo isso fez com que me colocasse criticamente em rela\u00e7\u00e3o a tudo o que vi. Sou de 1954 e toda a minha juventude foi durante o regime militar. A gente se emocionava com tudo o que criticava a ditadura. Por isso, a obra de Graciliano fica muito atual.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: E atualmente, como o senhor v\u00ea a literatura?<\/p>\n<p>Ricardo Ramos Filho: O romance brasileiro tem trazido gente muito boa. Tem muita gente escrevendo romances de extrema qualidade. S\u00e3o tantos: Milton Hatoum, Marcelino Freire, Sheila Smanioto, Victor Heringer [morreu aos 29 anos]&#8230; Tem muita gente boa.<\/p>\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: Lygia Carvalho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O escritor e roteirista Ricardo Ramos Filho evita sair de casa no dia 20 de mar\u00e7o. \u00c9 a data da morte do av\u00f4 dele, o escritor Graciliano Ramos (que morreu h\u00e1 65 anos), e tamb\u00e9m da perda do pai, Ricardo Ramos (tamb\u00e9m escritor, h\u00e1 26 anos). 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