{"id":2776,"date":"2017-12-23T04:36:09","date_gmt":"2017-12-23T04:36:09","guid":{"rendered":"http:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=2776"},"modified":"2017-12-23T04:36:09","modified_gmt":"2017-12-23T04:36:09","slug":"os-bastidores-do-projeto-balas-perdidas-da-afp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/os-bastidores-do-projeto-balas-perdidas-da-afp\/","title":{"rendered":"Os bastidores do projeto Balas Perdidas da AFP"},"content":{"rendered":"<p>Morrer atingido por uma bala perdida antes mesmo de nascer. Como algo assim poderia ser imagin\u00e1vel?, questiona Pascale Trouillaud, diretora do escrit\u00f3rio da Agence France-Presse no Rio de Janeiro (AFP-Rio).<\/p>\n<p>Foi para dar corpo a esta realidade que nasceu o projeto multim\u00eddia interativo Balas Perdidas.<\/p>\n<p>&#8211; O projeto &#8211;<\/p>\n<p>O t\u00edtulo, a princ\u00edpio, imp\u00f4s-se por conta pr\u00f3pria. Foi a \u00fanica coisa que n\u00e3o produziu qualquer discuss\u00e3o em nosso escrit\u00f3rio da AFP-Rio em torno do nosso projeto multim\u00eddia interativo: \u00abbalas perdidas\u00bb para portugu\u00eas e o espanhol, \u00abballes perdues\u00bb para o franc\u00eas, \u00abstray bullets\u00bb para o ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Um t\u00edtulo que diz tudo sobre a inoc\u00eancia das v\u00edtimas. Um t\u00edtulo marcante. Como essas balas que ceifam a vida de uma crian\u00e7a da favela brincando no p\u00e1tio da escola e que arru\u00ednam seus pais para sempre.<\/p>\n<p>Havia chegado na Cidade Maravilhosa h\u00e1 um m\u00eas e a trag\u00e9dia de um feto atingido por um tiro no ventre da m\u00e3e me fez pensar que t\u00ednhamos chegado ao \u00e1pice do horror.<\/p>\n<p>Morrer de uma bala perdida antes mesmo de nascer. Como algo assim poderia ser imagin\u00e1vel?<\/p>\n<p>&#8211; \u2018Guerra no Rio\u2019 &#8211;<\/p>\n<p>Inicialmente, havia Mauro. Nosso ent\u00e3o freelancer de fotografia brasileiro, um carioca bem familiarizado com as favelas do Rio de Janeiro, que nos trouxe a ideia: realizar uma reportagem sobre a explos\u00e3o de viol\u00eancia nas comunidades um ano ap\u00f3s os Jogos Ol\u00edmpicos em torno do tema das balas perdidas.<\/p>\n<p>Em julho passado, os tiroteios ocupavam as primeiras p\u00e1ginas dos jornais. O Extra e O Globo lan\u00e7avam uma p\u00e1gina perturbadora, intitulada Guerra no Rio. Em agosto, o ex\u00e9rcito foi chamado para ocupar as favelas. Meses antes, houve registros de policiais envolvidos em tr\u00e1fico de armas.<\/p>\n<p>Rio, metr\u00f3pole tropical de cart\u00e3o postal, cidade do samba, de praias e do futebol, capturada em uma espiral incontrol\u00e1vel de corrup\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00f3s nos lan\u00e7amos cheios de entusiasmo neste projeto misturando v\u00eddeo, foto e texto.<\/p>\n<p>A ideia era falar, a partir de um outro ponto de vista, do aumento da viol\u00eancia nesses amontoados de casas coloridas que brotam nos morros do Rio; dar voz \u00e0s v\u00edtimas pegas em meio ao fogo cruzado entre quadrilhas de criminosos e as for\u00e7as de seguran\u00e7a. Pessoas comuns que n\u00e3o t\u00eam nada a ver com as redes mafiosas que controlam essas zonas sem lei.<\/p>\n<p>Mas quantos testemunhos? Em qual formato? Policiais tamb\u00e9m? Soci\u00f3logos para compreender melhor a situa\u00e7\u00e3o? Historiadores? Pol\u00edticos, talvez? E como diferenciar as balas perdidas dos poss\u00edveis excessos nas interven\u00e7\u00f5es policiais?<\/p>\n<p>Depois de muito debate, optamos por um projeto homog\u00eaneo: ir\u00edamos entrevistar apenas moradores de favelas (ou de bairros adjacentes), afetados na pele ou que tiveram um parente morto por uma bala perdida. Pessoas que contassem a hist\u00f3ria de uma vida que mudou quando eles mesmos, seu filho, seu irm\u00e3o ou sua m\u00e3e estiveram no lugar errado na hora errada.<\/p>\n<p>Desde a nossa primeira entrevista, o testemunho foi t\u00e3o forte, o discurso t\u00e3o poderoso, que decidimos filmar os personagens em um fundo preto, em close, sem o ambiente deles. N\u00f3s n\u00e3o mostramos as favelas, os becos ou as casas modestas onde entrevistamos nossas testemunhas para n\u00e3o tirar nada da for\u00e7a de suas palavras.<\/p>\n<p>Por outro lado, filmamos e fotografamos os cadernos preenchidos com uma caligrafia aplicada, o pequeno par de t\u00eanis e as medalhas: esses objetos evidenciam que a vida de uma crian\u00e7a foi interrompida, que nunca mais poder\u00e1 ir \u00e0 escola, nem jogar futebol, nem participar de um torneio de basquete.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m escolhemos entrevistar apenas oito pessoas, quando hav\u00edamos partido da ideia de colher vinte depoimentos. Ouvir as palavras arrepiantes dessas v\u00edtimas foi esgotante. Estas oito hist\u00f3rias s\u00e3o todas parecidas, mas todas igualmente diferentes.<\/p>\n<p>O testemunho de Luciana Novaes nos comoveu particularmente. Totalmente paralisada do pesco\u00e7o para baixo ap\u00f3s ter sido atingida por uma bala perdida, Luciana diz, com uma voz doce, pontuada pelo barulho terr\u00edvel de seu respirador artificial, agrade\u00e7o a Deus todos os dias por n\u00e3o guardar raiva dentro de mim.<\/p>\n<p>Tornando-se vereadora para ajudar os outros ap\u00f3s sua prova\u00e7\u00e3o, Luciana, a quem essa bala em seu corpo a deixou com apenas 1% de chance de sobreviver, vive hoje, tetrapl\u00e9gica, uma esp\u00e9cie de renascimento. Demorou um ano para voltar a falar e oito meses antes de poder se alimentar pela boca novamente.<\/p>\n<p>Emendamos esses encontros muito fortes e o projeto se tornou mais ambicioso. O servi\u00e7o de Infografia e Inova\u00e7\u00f5es em Paris nos levou a refletir sobre um m\u00f3dulo interativo, com gr\u00e1ficos e mapas para explicar o contexto. Recuperamos o valioso banco de dados Fogo Cruzado da Anistia Internacional, que lista as v\u00edtimas dos tiroteios nas favelas.<\/p>\n<p>S\u00edmbolo de tempos t\u00e3o perturbadores, Fogo Cruzado \u00e9 um servi\u00e7o participativo que fornece h\u00e1 seis meses em tempo real aos moradores dos bairros sens\u00edveis do Rio a localiza\u00e7\u00e3o de tiroteios perto de suas casas, os mortos, os feridos, as opera\u00e7\u00f5es da Pol\u00edcia, para que n\u00e3o se aproximem. A maioria das cidades tem aplicativos para o tr\u00e2nsito, no Rio de Janeiro \u00e9 para os tiroteios.<\/p>\n<p>&#8211; Pulm\u00f5es perfurados \u2013<\/p>\n<p>Todos os jornalistas da AFP Rio &#8211; de l\u00edngua espanhola, inglesa, francesa &#8211; participaram do projeto e a reda\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas cuidou das tradu\u00e7\u00f5es e encontrou algumas testemunhas.<\/p>\n<p>Mais de quatro meses de trabalho realizado por uma d\u00fazia de pessoas, dezenas de reuni\u00f5es editoriais e centenas de e-mails e telefonemas depois, conclu\u00edmos o projeto envolvendo a maioria dos servi\u00e7os com um escrit\u00f3rio da AFP no exterior, o de Infografia.<\/p>\n<p>Um projeto cujos desafios n\u00e3o imagin\u00e1vamos. Primeiro em n\u00edvel t\u00e9cnico, assumidos no setor de Infografia em Paris por Fr\u00e9d\u00e9ric, designer, e Cl\u00e9ment, desenvolvedor, que tamb\u00e9m passou dias trabalhando neste m\u00f3dulo.<\/p>\n<p>No Rio, a dificuldade era encontrar nossas testemunhas nas favelas, onde quase dois milh\u00f5es de cariocas sobrevivem.<\/p>\n<p>Mas a gente n\u00e3o entra em Manguinhos, Acari ou no conjunto Amarelinho como em uma f\u00e1brica, especialmente agora, e faz perguntas sobre a seguran\u00e7a. Era necess\u00e1rio encontrar, atrav\u00e9s dos nossos contatos, v\u00edtimas ou parentes de v\u00edtimas que concordassem em testemunhar. \u00c0s vezes, foram necess\u00e1rias semanas de esfor\u00e7os.<\/p>\n<p>Alguns n\u00e3o quiseram falar, como Claudinea, arrasada pela dor. Seu beb\u00ea Artur, nascido de 39 semanas ap\u00f3s uma cesariana de emerg\u00eancia, paralisado e com os dois pulm\u00f5es perfurados por uma bala perdida, n\u00e3o sobreviveu.<\/p>\n<p>N\u00f3s recolhemos testemunhos de cariocas \u00e0 beira das l\u00e1grimas, e, \u00e0s vezes, tivemos que parar de fotografar ou filmar. Nossos jornalistas foram todos abalados pelo encontro com esses sobre os quais quase nunca se fala: homens e mulheres totalmente esquecidos pelas autoridades nessa guerra suja. Alguns falaram pela primeira vez de seu drama.<\/p>\n<p>Eles sabem que nunca obter\u00e3o Justi\u00e7a, perderam um filho \u00fanico, uma irm\u00e3 amada, ou levaram um ano para voltar a falar e comer, mas se recusam a serem vencidos pelo \u00f3dio.<\/p>\n<p>N\u00f3s, jornalistas no Rio, moramos em bairros menos violentos, geralmente vizinhos das favelas, porque a Cidade Maravilhosa tem mil comunidades. Mas quando no conforto de nossos apartamentos na Zona Sul escutamos os titoteios, n\u00e3o arriscamos nossas vidas. N\u00e3o corremos o risco de sermos atingidos na cabe\u00e7a por uma bala perdida que atravessou a parede. Podemos ir ao mercado de manh\u00e3 sem temer se vamos voltar para casa com vida.<\/p>\n<p>Mas agora, como me disseram os jornalistas que participaram desta aventura coletiva, as v\u00edtimas das balas perdidas n\u00e3o s\u00e3o mais apenas n\u00fameros, a cada nova v\u00edtima, pensamos naqueles que encontramos.<\/p>\n<p>&#8211; O tempo necess\u00e1rio &#8211;<\/p>\n<p>Ap\u00f3s todas as nossas visitas \u00e0s favelas, foi preciso sintetizar em 90 segundos os v\u00eddeos de nossos oito longos testemunhos, resumir nossos textos em poucas frases e guardar para n\u00f3s apenas algumas fotos desses rostos graves e dignos, torturados pela dor de um luto inimagin\u00e1vel.<\/p>\n<p>Uma das dificuldades foi trocar ideias remotamente (inclusive pelo fuso hor\u00e1rio) entre duas equipes: uma, editorial, no Rio, e outra para os infogr\u00e1ficos, em Paris.<\/p>\n<p>Era como montar um quebra-cabe\u00e7a em 10 pessoas, em que cada um fabricava suas pe\u00e7as. Respeitando o quadro inicial, as pe\u00e7as deveriam se encaixar perfeitamente, mas apenas a imagem final provaria o sucesso.<\/p>\n<p>Em Paris, o desafio t\u00e9cnico era contar hist\u00f3rias sob a forma de um relato on-line que funcionasse em uma grande variedade de dispositivos &#8211; celular, telas pequenas ou grandes &#8211; com conex\u00f5es wifi vari\u00e1veis, diferentes navegadores e f\u00e1cil de usar e entender. Cl\u00e9ment, o desenvolvedor, conseguiu, gra\u00e7as a uma espessa camada t\u00e9cnica, tornar invis\u00edvel o tecnicismo do produto.<\/p>\n<p>Tivemos um grande desafio de tradu\u00e7\u00e3o, uma vez que o m\u00f3dulo foi produzido em franc\u00eas, ingl\u00eas, espanhol e portugu\u00eas, incluindo oito v\u00eddeos com legendas nessas l\u00ednguas &#8211; essencial para visualiza\u00e7\u00e3o em celulares.<\/p>\n<p>No final, criamos um produto em um formato pr\u00f3ximo ao de um mini-document\u00e1rio interativo. Um projeto de longo prazo porque, sorte excepcional para profissionais que trabalham quase sempre com pressa, pudemos tomar o tempo necess\u00e1rio para contar essas hist\u00f3rias, assumindo a tarefa de focar no testemunho e n\u00e3o em uma explica\u00e7\u00e3o sobre as ra\u00edzes da viol\u00eancia nas favelas do Rio.<\/p>\n<p>Esperamos ter conseguido mostrar a dor, a impot\u00eancia, o sentimento de injusti\u00e7a, mas tamb\u00e9m a coragem e a imensa dignidade desses seres humanos confrontados com uma perda irrepar\u00e1vel. Enfim, sentimo-nos honrados pela confian\u00e7a que essas pessoas depositaram em n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Morrer atingido por uma bala perdida antes mesmo de nascer. Como algo assim poderia ser imagin\u00e1vel?, questiona Pascale Trouillaud, diretora do escrit\u00f3rio da Agence France-Presse no Rio de Janeiro (AFP-Rio). 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