{"id":27702,"date":"2018-03-17T22:39:16","date_gmt":"2018-03-17T22:39:16","guid":{"rendered":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=27702"},"modified":"2018-03-17T22:39:16","modified_gmt":"2018-03-17T22:39:16","slug":"venezuelanos-que-chegam-a-roraima-encaram-rota-da-fome-ate-boa-vista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/venezuelanos-que-chegam-a-roraima-encaram-rota-da-fome-ate-boa-vista\/","title":{"rendered":"Venezuelanos que chegam a Roraima encaram rota da fome at\u00e9 Boa Vista"},"content":{"rendered":"<p>o fim de dez horas de espera por uma carona que n\u00e3o chega e sem comer direito h\u00e1 quatro dias, as irm\u00e3s Cora Freites, de 58 anos, Carmen Freites, 51, e Elia Tarazona, 43, decidem, \u00e0s 8h do dia 21 de fevereiro, descer a p\u00e9 a serra de Pacaraima, que d\u00e1 nome ao primeiro munic\u00edpio brasileiro na fronteira com a Venezuela. De l\u00e1 at\u00e9 Boa Vista \u2013destino final da viagem\u2013 s\u00e3o 215 quil\u00f4metros na BR-174, uma rodovia isolada no meio da selva amaz\u00f4nica, estreita, cheia de curvas sinuosas e buracos mal tapados. &#8220;De manh\u00e3, nos deram p\u00e3es, mas refei\u00e7\u00f5es n\u00e3o fazemos desde sexta [16]&#8221;, diz Carmen.<\/p>\n<p>Essa esp\u00e9cie de &#8220;rota da fome&#8221; recebe todos os dias uma m\u00e9dia de 50 novos viajantes, segundo a prefeitura de Pacaraima. Nos dias 20 e 21 de fevereiro, o G1 fez o mesmo caminho seguido pelos imigrantes, percorrendo a p\u00e9 e de carona o trajeto entre a fronteira e a capital de Roraima e acompanhando os viajantes.<\/p>\n<p>\u201cMinha amiga que j\u00e1 est\u00e1 no Brasil disse que aqui h\u00e1 comida e trabalho\u201d, diz Carmen, enquanto caminha pela rodovia. Onde morava, em El Tigre, no leste da Venezuela, deixou a filha, uma estudante de engenharia de 19 anos, e o marido, agricultor. \u201cSe puder, vou traz\u00ea-los para c\u00e1.&#8221;<\/p>\n<p>A venezuelana e as irm\u00e3s percorreram 800 quil\u00f4metros de onde viviam at\u00e9 Santa Elena de Uair\u00e9n, na fronteira com o Brasil. N\u00e3o tinham dinheiro para comer e tampouco para comprar passagens. Viajaram de barrigas vazias e pedindo carona por tr\u00eas dias.<\/p>\n<p>No pa\u00eds natal, as tr\u00eas viram de perto a grave crise pol\u00edtica e econ\u00f4mica que assola o pa\u00eds e deteriora a qualidade de vida dos venezuelanos. A superinfla\u00e7\u00e3o na Venezuela, que j\u00e1 \u00e9 a maior do mundo, deve atingir os 13.000% neste ano, segundo o Fundo Monet\u00e1rio Internacional, aumentando ainda mais a pobreza e sua incid\u00eancia em emprego, educa\u00e7\u00e3o, criminalidade, nutri\u00e7\u00e3o e sa\u00fade em geral.<\/p>\n<p>Fugindo de tudo isso, as irm\u00e3s seguem rumo a um futuro ainda incerto em Boa Vista, como tantos outros t\u00eam feito desde o final de 2015, quando come\u00e7ou a imigra\u00e7\u00e3o para Roraima, o estado menos populoso do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A capital hoje tem 40 mil venezuelanos, segundo os c\u00e1lculos da prefeitura, o equivalente a 12% dos 330 mil habitantes locais. A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 que a cidade est\u00e1 cheia de imigrantes. Afinal, eles e sua l\u00edngua s\u00e3o vis\u00edveis e aud\u00edveis para onde se vai. As escolas recebem um n\u00famero cada vez maior de venezuelanos, os hospitais tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Estado e munic\u00edpio decretaram emerg\u00eancia, e o governo federal planeja lev\u00e1-los a outras partes do pa\u00eds, numa tentativa de lidar com a imigra\u00e7\u00e3o que cresce a olhos vistos e que em n\u00fameros j\u00e1 supera a haitiana. Em tr\u00eas anos foram quase 20 mil pedidos de ref\u00fagio de venezuelanos em Roraima contra 18 mil de haitianos entre 2011 e 2013.<\/p>\n<p>Carmen, Elia e Cora, assim como tanto outros imigrantes, n\u00e3o t\u00eam dinheiro algum para chegar a Boa Vista &#8211; as passagens custam de R$ 30 a R$ 50 &#8211; e viajam da forma que podem. Em alguns trechos v\u00e3o a p\u00e9 e em outros conseguem carona para algum outro ponto mais \u00e0 frente.<\/p>\n<p>Caminho desconhecido<br \/>\nA maioria nem imagina o qu\u00e3o longe est\u00e1 da capital. Se t\u00eam sorte e obt\u00eam ajuda pelo caminho, levam at\u00e9 dois dias e uma noite para chegar a capital. Se n\u00e3o, caminham por at\u00e9 quatro ou cinco dias num itiner\u00e1rio marcado pela falta de comida, sede e cansa\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8220;Se s\u00e3o cinco dias caminhando de dia e de noite, s\u00e3o 10 dias caminhando somente de dia&#8221;, estima Anaec\u00ed Rodriguez, de 36 anos. Antes de chegar ao Brasil, ela n\u00e3o fazia ideia do que teria de andar. &#8220;Nos disseram que \u00e9 melhor aqui. Viemos provar para ver. O mal \u00e9 que temos que ir a p\u00e9&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que agrava a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da Venezuela, os imigrantes que est\u00e3o vindo para o Brasil pela fronteira de Roraima s\u00e3o mais pobres. \u00c9 o que afirma Jos\u00e9 Carlos Franco, antrop\u00f3logo e professor da Universidade Federal de Roraima (UFRR).<\/p>\n<p>\u201cOs venezuelanos tamb\u00e9m v\u00e3o \u00e0 Col\u00f4mbia, Peru, Equador, Chile Argentina e Uruguai. O contingente que a gente mais recebeu no Brasil foram primeiro os da classe m\u00e9dia e depois os das classes mais populares. Com a tend\u00eancia a aumentar a imigra\u00e7\u00e3o e com a perda do poder aquisitivo na Venezuela, eles come\u00e7am a chegar como podem at\u00e9 Boa Vista onde j\u00e1 t\u00eam amigos, parentes, ou alguma perspectiva de trabalho. Ir a p\u00e9 \u00e9 um caminho vi\u00e1vel do ponto de vista f\u00edsico, mas muito duro. \u00c9 uma prova\u00e7\u00e3o\u201d, define o professor Jos\u00e9 Franco.<\/p>\n<p>O percurso come\u00e7a no munic\u00edpio de Pacaraima, na fronteira com a Venezuela, no extremo Norte do Brasil. L\u00e1, a Pol\u00edcia Federal fez entre 1\u00ba de janeiro e 15 de fevereiro mais de 400 atendimentos di\u00e1rios a imigrantes. Nas filas, eles relatam hist\u00f3rias sobre o desabastecimento, o aumento constante nos pre\u00e7os dos alimentos e a desvaloriza\u00e7\u00e3o crescente do bol\u00edvar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>o fim de dez horas de espera por uma carona que n\u00e3o chega e sem comer direito h\u00e1 quatro dias, as irm\u00e3s Cora Freites, de 58 anos, Carmen Freites, 51, e Elia Tarazona, 43, decidem, \u00e0s 8h do dia 21 de fevereiro, descer a p\u00e9 a serra de Pacaraima, que d\u00e1 nome ao primeiro munic\u00edpio &hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":26577,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-27702","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27702","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27702"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27702\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27703,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27702\/revisions\/27703"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media\/26577"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27702"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27702"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27702"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}