{"id":24660,"date":"2018-02-25T12:18:03","date_gmt":"2018-02-25T12:18:03","guid":{"rendered":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=24660"},"modified":"2018-02-25T12:18:03","modified_gmt":"2018-02-25T12:18:03","slug":"intervencao-no-rio-e-justificada-por-violencia-espalhada-e-visivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/intervencao-no-rio-e-justificada-por-violencia-espalhada-e-visivel\/","title":{"rendered":"Interven\u00e7\u00e3o no Rio \u00e9 justificada por viol\u00eancia &#8216;espalhada e vis\u00edvel&#8217;"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"news_capital_letter\">V<\/span>itor Campos, 23, Alisson Ca\u00edque, 21, e Tiago Souza, 19, foram mortos a tiros na ter\u00e7a-feira (20) ap\u00f3s uma incurs\u00e3o da pol\u00edcia na comunidade em que moravam. Um dia depois, Uibir\u00e1 Barbosa, 33, foi atingido com um tiro no peito em um assalto. Policial, ele foi reconhecido pelos bandidos antes de qualquer rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div class=\"pub-container inside-news\"><\/div>\n<p>Ambos os casos n\u00e3o aconteceram no Rio de Janeiro, onde o governo federal decretou interven\u00e7\u00e3o na seguran\u00e7a p\u00fablica, mas em Salvador. Casos assim s\u00e3o rotina na maioria das capitais brasileiras e levantam questionamentos: o que justifica a interven\u00e7\u00e3o federal no Rio? A viol\u00eancia \u00e9 maior do que nas demais capitais? A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ruim quanto parece?<\/p>\n<p>Para a \u00faltima pergunta, o interventor federal, general do Ex\u00e9rcito Walter Braga Netto, tem a resposta. Questionado se o cen\u00e1rio no Rio est\u00e1 muito ruim, o general negou, balan\u00e7ando o dedo indicador da m\u00e3o direita, e emendou: &#8220;Muita m\u00eddia&#8221;. Dados do anu\u00e1rio do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica mostram que, em parte, o general tem raz\u00e3o.<\/p>\n<p>O Rio \u00e9 a capital com maior n\u00famero absoluto de crimes violentos do Brasil -foram 1.446 assassinatos em 2016. Proporcionalmente, contudo, a capital fluminense tem uma taxa de 22,6 mortes por 100 mil habitantes. \u00c9 a 21\u00aa capital em taxa de crimes violentos.<\/p>\n<p>A mesma taxa \u00e9 tr\u00eas vezes maior em Aracaju. Com 66,7 mortes violentas para 100 mil habitantes, a capital sergipana \u00e9 a que possui a maior propor\u00e7\u00e3o de crimes violentos intencionais letais, seguida de Bel\u00e9m, Rio Branco e Macap\u00e1.<\/p>\n<p>Mas os dados frios do n\u00famero de assassinatos e da sua propor\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00famero de habitantes escondem uma s\u00e9rie de meandros que fazem com que a sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a ganhe grandes propor\u00e7\u00f5es no Rio.<\/p>\n<p>A reportagem ouviu especialistas e levantou um mapa dos crimes violentos no Rio, Salvador, S\u00e3o Paulo e Fortaleza -as capitais brasileiras com mais assassinatos em n\u00fameros absolutos em 2016. Os mapas revelam um padr\u00e3o de assassinatos concentrados nas regi\u00f5es mais pobres dessas capitais. No Rio e em Salvador, por\u00e9m, \u00e9 maior o abismo entre regi\u00f5es mais ricas e mais pobres da cidade.<\/p>\n<p>Em Salvador, tr\u00eas das 16 \u00e1reas integradas de seguran\u00e7a -Periperi, Tancredo Neves e Cajazeiras- concentram mais de 40% dos 688 assassinatos do 1\u00ba semestre de 2017. No Rio n\u00e3o \u00e9 muito diferente: seis de 42 regi\u00f5es t\u00eam 40% dos homic\u00eddios, o que inclui \u00e1reas como Campo Grande, Santa Cruz, Bangu e Realengo, na zona oeste, e Pavuna, na zona norte da cidade.<\/p>\n<p>As mortes nessas regi\u00f5es, contudo, n\u00e3o ganham a mesma dimens\u00e3o midi\u00e1tica e de movimenta\u00e7\u00e3o do aparelho do Estado de um caso semelhante na \u00e1rea central, resultado de uma &#8220;invisibilidade&#8221; da popula\u00e7\u00e3o da periferia. &#8220;Vivemos em comunidades racialmente apartadas&#8221;, diz Hamilton Borges, do movimento &#8220;Reaja ou ser\u00e1 Morto&#8221;, da Bahia.<\/p>\n<p>TIROTEIOS<\/p>\n<p>Se as mortes nas periferias n\u00e3o ganham a devida visibilidade, uma simples troca de tiros sem v\u00edtimas numa regi\u00e3o central tem potencial explosivo na sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a. E \u00e9 justamente neste quesito que o Rio se diferencia das demais capitais.<\/p>\n<p>A geografia acidentada na qual bairros tur\u00edsticos convivem lado a lado de bairros violentos, al\u00e9m dos constantes fechamentos das vias expressas na qual trafega a grande maioria dos moradores, agravam a sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a, dizem especialistas.<\/p>\n<p>Dados da plataforma Fogo Cruzado, da Anistia Internacional, que mapeia de forma colaborativa a viol\u00eancia armada na regi\u00e3o metropolitana do Rio, mostram que houve 688 tiroteios ou disparos de arma de fogo em janeiro deste ano. Em m\u00e9dia, foram 22 por dia, mais do que a m\u00e9dia de 2017, que foi de 16 por dia.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas lugares com mais registros foram Cidade de Deus, Rocinha e Tijuca. A Cidade de Deus fica \u00e0 beira da Linha Amarela, uma das principais vias expressas da cidade. No in\u00edcio de fevereiro, a via foi fechada em dois dias seguidos devido a tiroteios.<\/p>\n<p>A favela da Rocinha, a maior do Rio, fica em um morro entre G\u00e1vea e S\u00e3o Conrado, bairros de classe alta da zona sul, e \u00e0 beira de outra via expressa importante, a autoestrada Lagoa-Barra, principal rota de liga\u00e7\u00e3o entre as zonas sul e oeste da cidade. A autoestrada tamb\u00e9m teve que ser fechada, em setembro de 2017, devido a confrontos.<\/p>\n<p>J\u00e1 a Linha Vermelha, por onde passa quem vai do aeroporto internacional para o centro e a zona sul, \u00e9 margeada pelo Complexo da Mar\u00e9, onde opera\u00e7\u00f5es policiais levam p\u00e2nico a moradores e n\u00e3o raro fecham a via.<\/p>\n<p>Em cidades como S\u00e3o Paulo e Salvador, por outro lado, n\u00e3o h\u00e1 registros recentes de bloqueio de avenidas troncais por causa de tiroteios ou opera\u00e7\u00f5es policiais. O &#8220;fator m\u00eddia&#8221; tamb\u00e9m influencia a sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a. Ex-capital e maior destino tur\u00edstico do pa\u00eds, o Rio \u00e9 uma esp\u00e9cie de vitrine do Brasil e tem os holofotes voltados pra si. A cidade \u00e9 sede da principal emissora de televis\u00e3o do pa\u00eds, a Rede Globo.<\/p>\n<p>FAC\u00c7\u00d5ES<\/p>\n<p>Na din\u00e2mica do crime no Rio, ganha for\u00e7a a luta por territ\u00f3rios. Tr\u00eas fac\u00e7\u00f5es -Comando Vermelho, a maior, Terceiro Comando Puro e Amigos dos Amigos-, disputam \u00e1reas da cidade. Soma-se a isso a atua\u00e7\u00e3o da mil\u00edcia, que muitas vezes tenta tomar o controle territorial do tr\u00e1fico de drogas, especialmente na zona oeste da cidade.<\/p>\n<p>Para Renato S\u00e9rgio de Lima, presidente do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, a disputa entre as fac\u00e7\u00f5es faz com que o confronto no Rio seja mais vis\u00edvel, com armamento pesado sendo mostrado de forma mais ostensiva. &#8220;N\u00e3o que nos outros Estados n\u00e3o exista. Mas, no Rio, \u00e9 mais comum ver cenas de traficantes exibindo fuzis e confrontos entre pol\u00edcia, traficantes e milicianos&#8221;, explica Lima.<\/p>\n<p>A imagem \u00e9 tamb\u00e9m lembrada pelo pesquisador Ignacio Cano, do Laborat\u00f3rio da An\u00e1lise de Viol\u00eancia da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). &#8220;O principal fator que distingue o Rio dos outros lugares \u00e9 o dom\u00ednio ostensivo por criminosos do territ\u00f3rio. Isso se d\u00e1 porque h\u00e1 conflito entre eles. Praticamente s\u00f3 no Rio voc\u00ea v\u00ea gente de fuzil na beira da favela.&#8221;<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, h\u00e1 predom\u00ednio do PCC entre os grupos criminosos. J\u00e1 em Fortaleza e Salvador, o crime \u00e9 marcado pela disputa entre grupos locais e outros de atua\u00e7\u00e3o nacional. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 o componente das rixas pessoais. &#8220;A resolu\u00e7\u00e3o de conflitos interpessoais muitas vezes descamba para a viol\u00eancia. \u00c9 um tipo de crime que se ampara na impunidade&#8221;, diz o soci\u00f3logo C\u00e9sar Barreira, da Universidade Federal do Cear\u00e1.<\/p>\n<p>No Rio, o cen\u00e1rio ainda \u00e9 agravado pela crise financeira e pol\u00edtica pela qual passa o Estado, que deixa um v\u00e1cuo de poder. Policiais trabalham com armamento obsoleto e sem combust\u00edvel para o carro das corpora\u00e7\u00f5es. Faltam equipamentos como coletes e muni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica de Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora -quase todas na capital- ruiu. Estudo da PM cita 13 confrontos em \u00e1reas com UPP em 2011, contra 1.555 em 2016. Nesse v\u00e1cuo, aumentam disputas entre grupos criminosos.\u00a0<em><strong>(Not\u00edcias ao Minuto)<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vitor Campos, 23, Alisson Ca\u00edque, 21, e Tiago Souza, 19, foram mortos a tiros na ter\u00e7a-feira (20) ap\u00f3s uma incurs\u00e3o da pol\u00edcia na comunidade em que moravam. Um dia depois, Uibir\u00e1 Barbosa, 33, foi atingido com um tiro no peito em um assalto. Policial, ele foi reconhecido pelos bandidos antes de qualquer rea\u00e7\u00e3o. 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