{"id":21309,"date":"2018-02-17T22:57:00","date_gmt":"2018-02-17T22:57:00","guid":{"rendered":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=21309"},"modified":"2018-02-17T22:57:00","modified_gmt":"2018-02-17T22:57:00","slug":"mesa-do-consumidor-pode-ter-producao-feita-por-escravos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/mesa-do-consumidor-pode-ter-producao-feita-por-escravos\/","title":{"rendered":"Mesa do consumidor pode ter produ\u00e7\u00e3o feita por escravos"},"content":{"rendered":"<p>Voc\u00ea j\u00e1 deve ter ouvido falar de pedidos de socorro enviado por trabalhadores de grife famosa por meio de bilhetes pregados em roupas; e de bolivianos ganhando R$ 5 para produzirem pe\u00e7as que ser\u00e3o vendidas por mais de R$ 500. Mas j\u00e1 parou para pensar que pode estar consumindo alimentos plantados e colhidos por pessoas que n\u00e3o recebem nenhum centavo para isso? Neste momento, os consumidores podem ter na mesa algo vindo de uma fazenda localizada em S\u00e3o Vicente de Minas, no Sul do Estado, onde cerca de 150 pessoas moram e plantam frutas como lim\u00e3o, laranja e maracuj\u00e1, aparentemente sem receber sal\u00e1rio. H\u00e1 ind\u00edcios de que a produ\u00e7\u00e3o seja comercializada para unidades da CeasaMinas.<\/p>\n<p>As investiga\u00e7\u00f5es ainda est\u00e3o em curso e h\u00e1 ind\u00edcios de mais fazendas no Sul de Minas e outras regi\u00f5es, al\u00e9m do Estado da Bahia, com trabalhadores em condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>De acordo com o coordenador do grupo de combate ao trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o da Superintend\u00eancia Regional do Trabalho (SRT-MG), Marcelo Campos, um membro da associa\u00e7\u00e3o de produtores da fazenda investigada j\u00e1 teria informado que a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 vendida a restaurantes, supermercados e centrais de abastecimento. \u201cDurante a fiscaliza\u00e7\u00e3o na \u00faltima ter\u00e7a-feira, esse representante nos disse que as frutas s\u00e3o vendidas para supermercados no Sul de Minas e para a Ceasa de Belo Horizonte e de Juiz de Fora\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Os documentos que podem comprovar se h\u00e1 remunera\u00e7\u00e3o e cumprimento dos direitos trabalhistas foram solicitados e devem ser apresentados ainda nesta quinta-feira (8) aos auditores da SRT. O volume de frutas produzido ainda n\u00e3o \u00e9 conhecido, mas, segundo Campos, com base nas informa\u00e7\u00f5es j\u00e1 colhidas, o faturamento mensal chega a R$ 100 mil.<\/p>\n<p>A reportagem entrou em contato com a CeasaMinas para verificar se existe algum programa de rastreabilidade dos hortifrutigranjeiros, mas o respons\u00e1vel pelo setor n\u00e3o estava dispon\u00edvel.<\/p>\n<p>A fazenda est\u00e1 sendo investigada na opera\u00e7\u00e3o Cana\u00e3: a colheita final, que prendeu 13 pessoas envolvidas na seita religiosa Traduzindo o Verbo: a Verdade que Marca (antiga Jesus: a Verdade que Marca.<\/p>\n<p>Dificuldade. Campos afirma que os trabalhadores n\u00e3o se reconhecem como \u201cescravos\u201d e n\u00e3o t\u00eam inten\u00e7\u00e3o de deixarem o local, por isso, n\u00e3o houve nenhum resgate. \u201cMas o fato de algu\u00e9m dizer que n\u00e3o se importa em trabalhar sem receber n\u00e3o deixa de configurar a situa\u00e7\u00e3o como an\u00e1loga \u00e0 escravid\u00e3o\u201d, ressalta.<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo passo da fiscaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 analisar os documentos para comprovar se h\u00e1 explora\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra. \u201cDepois enviaremos ao Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) e ao Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho (MPT), que podem entrar com a\u00e7\u00f5es exigindo indeniza\u00e7\u00e3o dos direitos trabalhistas descumpridos. Neste caso, quem pagar\u00e1 s\u00e3o os l\u00edderes da organiza\u00e7\u00e3o, que possuem um alto patrim\u00f4nio\u201d, diz Campos.<\/p>\n<p>Alguns casos<\/p>\n<p>Zara Brasil: em 2011 foram encontrados trabalhadores com contrata\u00e7\u00f5es ilegais, trabalho infantil, condi\u00e7\u00f5es degradantes, jornadas de at\u00e9 16h di\u00e1rias.<\/p>\n<p>Site da China: Em 2014, ao abrir a embalagem de roupas compradas em um site da China, uma moradora de Bras\u00edlia achou um bilhete, em ingl\u00eas: \u201cEu (sou) escravo. Ajude-me\u201d.<\/p>\n<p>Renner: em 2014, 37 trabalhadores bolivianos foram resgatados de uma oficina que produzia roupas para a rede. Eles viviam em condi\u00e7\u00f5es degradantes e tinham descontos indevidos nos sal\u00e1rios.<\/p>\n<p>Nove ainda est\u00e3o foragidos<\/p>\n<p>Deflagrada na \u00faltima ter\u00e7a-feira em Minas Gerais, Bahia e S\u00e3o Paulo, a opera\u00e7\u00e3o Cana\u00e3: a colheita final expediu 22 mandados de pris\u00e3o. De acordo com o delegado da Pol\u00edcia Federal de Varginha, Alexsander Castro de Oliveira, foram oito pris\u00f5es no Sul de Minas e uma em Una\u00ed, no Noroeste do Estado, al\u00e9m de duas na Bahia e duas em S\u00e3o Paulo. Todos l\u00edderes da seita Traduzindo o verbo, a Verdade que Marca.<\/p>\n<p>\u201cEles s\u00e3o acusados de estelionato, lavagem de dinheiro, organiza\u00e7\u00e3o criminosa e redu\u00e7\u00e3o de pessoas \u00e0 condi\u00e7\u00e3o an\u00e1loga a escravid\u00e3o. Muitos j\u00e1 haviam sido presos em 2015, mas foram soltos. A diferen\u00e7a \u00e9 que, naquela \u00e9poca, a pris\u00e3o decretada era tempor\u00e1ria. Agora, \u00e9 preventiva. Eles est\u00e3o na penitenci\u00e1ria Nelson Hungria\u201d, explica. Se forem condenados por todos os crimes, pegar\u00e3o 42 anos de cadeia.<\/p>\n<p>Ainda existem nove foragidos, entre eles, o pastor C\u00edcero, l\u00edder da organiza\u00e7\u00e3o religiosa, investigada pela PF desde 2011, por aliciar fi\u00e9is e coloca-los para trabalhar em propriedades de l\u00edderes da seita.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m resultou na interdi\u00e7\u00e3o de 17 estabelecimentos comerciais ligados \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o, onde seguidores trabalhavam supostamente sem remunera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Modus operandi. L\u00edderes atraem fi\u00e9is e prometem salva\u00e7\u00e3o. Eles s\u00e3o convencidos a vender bens, doar o dinheiro e morar em comunidades e trabalham de gra\u00e7a em estabelecimentos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea j\u00e1 deve ter ouvido falar de pedidos de socorro enviado por trabalhadores de grife famosa por meio de bilhetes pregados em roupas; e de bolivianos ganhando R$ 5 para produzirem pe\u00e7as que ser\u00e3o vendidas por mais de R$ 500. 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