{"id":21257,"date":"2018-02-17T22:44:46","date_gmt":"2018-02-17T22:44:46","guid":{"rendered":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=21257"},"modified":"2018-02-17T22:44:46","modified_gmt":"2018-02-17T22:44:46","slug":"cientistas-detectam-pela-1a-vez-virus-em-urina-e-semen-de-paciente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/cientistas-detectam-pela-1a-vez-virus-em-urina-e-semen-de-paciente\/","title":{"rendered":"Cientistas detectam pela 1\u00aa vez v\u00edrus em urina e s\u00eamen de paciente"},"content":{"rendered":"<p>Um grupo de cientistas brasileiros conseguiu detectar o RNA do v\u00edrus da febre amarela &#8211; isto \u00e9, seu material gen\u00e9tico &#8211; na urina e no s\u00eamen de um paciente com a doen\u00e7a. De acordo com os autores da nova pesquisa, a descoberta poder\u00e1 ser \u00fatil para aprimorar os testes diagn\u00f3sticos da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>O RNA do v\u00edrus \u00e9 normalmente detectado no sangue de pacientes infectados, mas at\u00e9 agora n\u00e3o havia sido observado no s\u00eamen e na urina. A nova pesquisa teve seus resultados publicados na Infectious Diseases, revista cient\u00edfica dos Centros de Controle e Preven\u00e7\u00e3o de Doen\u00e7as (CDC, na sigla em ingl\u00eas) do governo dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Nossos resultados sugerem que o s\u00eamen pode ser um material cl\u00ednico \u00fatil para o diagn\u00f3stico da febre amarela e indica a necessidade de realizar testes de urina e coletar amostras de s\u00eamen de pacientes com a doen\u00e7a em est\u00e1gio avan\u00e7ado, diz o artigo.<\/p>\n<p>Esses testes poder\u00e3o aprimorar os diagn\u00f3sticos, reduzir os resultados falsos negativos e refor\u00e7ar a confiabilidade dos dados epidemiol\u00f3gicos durante a atual e as futuras epidemias, escreveram os cientistas.<\/p>\n<p>De acordo com o coordenador do estudo, Paolo Zanotto, pesquisador do Instituto de Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), embora a descoberta tamb\u00e9m levante alguma preocupa\u00e7\u00e3o &#8211; por mostrar que o v\u00edrus permanece no organismo por mais tempo do que se pensava &#8211; o seu impacto \u00e9 predominantemente positivo.<\/p>\n<p>\u00c9 uma boa not\u00edcia, porque com a presen\u00e7a do RNA do v\u00edrus na urina podemos ter acesso a uma nova ferramenta diagn\u00f3stica. Outro aspecto positivo \u00e9 que aumentamos nosso conhecimento sobre a biologia do v\u00edrus. O v\u00edrus da febre amarela j\u00e1 \u00e9 estudado h\u00e1 quase 100 anos e ainda n\u00e3o se sabia que ele podia ser detectado na urina e no s\u00eamen, disse Zanotto.<\/p>\n<p>Os cientistas ainda n\u00e3o sabem quais as implica\u00e7\u00f5es da descoberta para a transmiss\u00e3o do v\u00edrus, mas Zanotto considera improv\u00e1vel que a presen\u00e7a do RNA no s\u00eamen permita a transmiss\u00e3o sexual da febre amarela.<\/p>\n<p>Se houvesse um mecanismo de transmiss\u00e3o sexual, j\u00e1 ter\u00edamos percebido, porque esse v\u00edrus \u00e9 muito ativo na \u00c1frica e nunca surgiu nenhuma evid\u00eancia. A transmiss\u00e3o sexual \u00e9 muito f\u00e1cil de constatar, porque quando ela acontecem aparecem muitos pares concordantes &#8211; isto \u00e9, casais que aparecem com a doen\u00e7a ao mesmo tempo. Nos ciclos urbanos do v\u00edrus na \u00c1frica n\u00e3o apareceram pares concordantes, explicou o cientista.<\/p>\n<p>Segundo Zanotto, para que febre amarela seja transmitida a humanos, \u00e9 preciso que o mosquito inocule o v\u00edrus na corrente sangu\u00ednea e que ele chegue ao sistema endotelial da pessoa. Constatamos que o v\u00edrus \u00e9 excretado pela urina, mas n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias de que ele possa chegar ao sistema endotelial por via sexual &#8211; o mosquito \u00e9 capaz de fazer isso com muito mais facilidade, afirmou Zanotto.<\/p>\n<p>Embora o RNA do v\u00edrus tenha sido encontrado tamb\u00e9m no s\u00eamen, o cientista diz que ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel saber se o v\u00edrus \u00e9 realmente excretado pelo s\u00eamen, ou se a detec\u00e7\u00e3o ocorreu porque a uretra do paciente estava contaminada com o v\u00edrus excretado na urina.<\/p>\n<p>V\u00edrus persistente<\/p>\n<p>Para realizar o estudo, os cientistas acompanharam um paciente de 65 anos de idade, que havia sido contaminado, mas n\u00e3o havia entrado na fase t\u00f3xica da doen\u00e7a. O paciente, morador de S\u00e3o Paulo, havia viajado para Janu\u00e1ria (MG), no dia 28 de dezembro de 2016 e depois para uma \u00e1rea rural no norte da capital paulista, no dia 3 de janeiro de 2017.<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias depois, no dia 6 de janeiro do ano passado, o paciente come\u00e7ou a apresentar sintomas: febre, calafrios, dor corporal e n\u00e1useas. Os sintomas se agravaram durante mais tr\u00eas dias, com febre de at\u00e9 40\u00b0C, dores de cabe\u00e7a, prostra\u00e7\u00e3o, v\u00f4mitos, tontura, anorexia, urina escura e gosto amargo na boca.<\/p>\n<p>As amostras de urina e s\u00eamen do paciente apresentavam o RNA do v\u00edrus em quantidade consider\u00e1vel, 15 dias e 25 dias ap\u00f3s os primeiros sintomas de febre amarela. Esper\u00e1vamos que o v\u00edrus s\u00f3 pudesse ser detectado no organismo no m\u00e1ximo uma semana ap\u00f3s o in\u00edcio da manifesta\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a, disse Zanotto.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, o caso estudado indica que o per\u00edodo de transmissibilidade do v\u00edrus \u00e9 maior do que se pensava. Atualmente aceita-se que esse per\u00edodo tem in\u00edcio entre 24 horas e 48 horas antes do aparecimento dos sintomas e se estenderia por mais um per\u00edodo de no m\u00e1ximo uma semana ap\u00f3s o in\u00edcio dos sintomas.<\/p>\n<p>A confirma\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da infec\u00e7\u00e3o por febre amarela se baseia atualmente na detec\u00e7\u00e3o de RNA do v\u00edrus no sangue por sorologia, pela t\u00e9cnica de PCR de transcri\u00e7\u00e3o reversa (RT-PCR) ou pelo ensaio de imunoabsor\u00e7\u00e3o enzim\u00e1tica (ELISA, na sigla em ingl\u00eas) &#8211; um teste que permite a detec\u00e7\u00e3o no plasma sangu\u00edneo de anticorpos espec\u00edficos, como a imunoglobulina M (IgM e IgG), que o organismo produz quando entra em contato com algum tipo de microrganismo invasor.<\/p>\n<p>Quando uma pessoa com suspeita de infec\u00e7\u00e3o chega a um hospital, se a viremia (presen\u00e7a do v\u00edrus no sangue) j\u00e1 acabou, fazemos a sorologia para saber se ele foi infectado. Mas seria muito melhor ter a confirma\u00e7\u00e3o por meio de um teste de urina, porque n\u00e3o haveria risco de falsos negativos. Isso produziria diagn\u00f3sticos mais precisos, mais r\u00e1pidos e mais seguros, al\u00e9m de nos fornecer estat\u00edsticas melhores para compreender e combater a doen\u00e7a, disse Zanotto.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de Zanotto, participaram do estudo Carla Barbosa, Edison Durigon, Nicholas Di Paola, Marielton Cunha, M\u00f4nica Rodrigues-Jesus, Danielle Ara\u00fajo, Vanessa Silveira, Fabyano Leal, Fl\u00e1vio Mesquita e Danielle Oliveira &#8211; todos da USP -, Viviane Botosso, do Instituto Butantan e Marcos Silva, do Instituto de Infectologia Em\u00edlio Ribas e da PUC-SP.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um grupo de cientistas brasileiros conseguiu detectar o RNA do v\u00edrus da febre amarela &#8211; isto \u00e9, seu material gen\u00e9tico &#8211; na urina e no s\u00eamen de um paciente com a doen\u00e7a. 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