{"id":20869,"date":"2018-02-17T21:14:06","date_gmt":"2018-02-17T21:14:06","guid":{"rendered":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=20869"},"modified":"2018-02-17T21:14:06","modified_gmt":"2018-02-17T21:14:06","slug":"brasileiro-vira-chef-da-maconha-no-uruguai-e-faz-ate-jantar-para-idosos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/brasileiro-vira-chef-da-maconha-no-uruguai-e-faz-ate-jantar-para-idosos\/","title":{"rendered":"Brasileiro vira chef da maconha no Uruguai e faz at\u00e9 jantar para idosos"},"content":{"rendered":"<p>Um prato bem servido de macarr\u00e3o chega esfuma\u00e7ando \u00e0 mesa e enche os olhos ao ser coberto por uma generosa por\u00e7\u00e3o de molho de tomates frescos com frutos do mar. Mas quem experimenta a iguaria busca o sabor e a sensa\u00e7\u00e3o de um ingrediente incomum: a maconha.<\/p>\n<p>Em abril de 2017, Gustavo Colombeck, de 27 anos, deixou Vit\u00f3ria, no Esp\u00edrito Santo, para se dedicar \u00e0 culin\u00e1ria can\u00e1bica no Uruguai, onde o consumo da erva \u00e9 permitido. Nos primeiros meses, trabalhou em um hostel em troca de um lugar para dormir e uma ajuda de custo. Mas logo o jovem, que cursou gastronomia na terra natal, percebeu que poderia usar seu conhecimento sobre a maconha para ganhar dinheiro.<\/p>\n<p>Vi que as pessoas vendiam muitos cookies e brownies com maconha. Eu j\u00e1 tinha testado algumas receitas can\u00e1bicas e resolvi fazer o mesmo com alfajores, que \u00e9 o doce mais consumido no Uruguai. Montei uma barraca numa feira e logo no primeiro dia vendi os 30 que fiz, conta ele \u00e0 BBC Brasil em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Menos de um ano depois, o jovem se tornou uma refer\u00eancia na culin\u00e1ria can\u00e1bica. Ele conta que sua agenda j\u00e1 est\u00e1 cheia at\u00e9 novembro e que j\u00e1 recebeu propostas para trabalhar em restaurantes na Europa. Mas Colombeck quer ficar no Uruguai mais um ano e depois se mudar para a Calif\u00f3rnia (EUA), hoje o maior mercado de maconha do mundo.<\/p>\n<p>Ele diz ter identificado cerca 20 grandes chefs especializados em cannabis em todo o mundo &#8211; a maior parte nos Estados Unidos. Uma delas \u00e9 Millie Fernandez, conhecida por cozinhar para os rappers Snoop Dogg e Tyga.<\/p>\n<p>Segundo o chef can\u00e1bico brasileiro, o m\u00fasico Marcelo D2 j\u00e1 comeu um de seus pratos no Uruguai.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ficar chapado<\/p>\n<p>Colombeck, o sobrenome que o jovem adotou profissionalmente, \u00e9 uma g\u00edria que surgiu enquanto seus amigos brincavam sobre sua habilidade em colar um beck (cigarro de maconha) em qualquer situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele afirma que fez muitos testes, inclusive em laborat\u00f3rio, al\u00e9m de estudos incans\u00e1veis \u00e0 beira do fog\u00e3o para saber o momento ideal para acrescentar maconha em cada um de seus pratos. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 causar efeito um psicoativo semelhante ao de fumar ou vaporizar a erva e, mas tamb\u00e9m ter o controle de sua dosagem.<\/p>\n<p>Para manter o sabor das flores da maconha em suas receitas e ainda dar um barato, o chef usa azeite ou manteiga \u00e0 base de cannabis durante o cozimento. Isso porque o THC (tetrahidrocanabinol &#8211; princ\u00edpio ativo da maconha) \u00e9 ativado ap\u00f3s as flores da erva serem infusionadas em algum \u00f3leo ou gordura numa rea\u00e7\u00e3o chamada de descarboxila\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas Colombeck explica que tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel ativar o THC ao infusionar a erva diretamente durante o preparo de carnes com gordura, alguns peixes e receitas com leite, como o escondidinho.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio muito estudo para saber a hora certa de aplicar a maconha em cada receita. Se voc\u00ea colocar na hora errada, pode ficar muito fraco, perder o sabor ou te derrubar com uma brisa muito forte. A inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ficar chapado, mas sentir o sabor da gen\u00e9tica (variedade de maconha) usada, da entrada \u00e0 sobremesa, com uma experi\u00eancia natural e leve, explica.<\/p>\n<p>O card\u00e1pio can\u00e1bico de Colombeck tem desde massas e carnes a sorvetes e drinks. Tudo feito de acordo com o paladar e consumo de maconha de cada cliente.<\/p>\n<p>As pessoas t\u00eam receio de comer comida com maconha e passar mal. E est\u00e3o certas. \u00c9 muito f\u00e1cil errar a propor\u00e7\u00e3o e colocar muita erva. Para evitar isso, eu fa\u00e7o uma entrevista antes do preparo de cada prato para saber qual a dosagem ideal para cada pessoa. Se ela nunca fumou maconha, fa\u00e7o algo bem leve. Passo o dia todo me preparando, porque cada jantar \u00e9 personalizado, conta.<br \/>\nDa raiz \u00e0 semente<\/p>\n<p>A folha da maconha \u00e9 o principal s\u00edmbolo usado para representar a cannabis, mas n\u00e3o \u00e9 a parte da planta com a maior concentra\u00e7\u00e3o de THC. Muitos n\u00e3o sabem, mas o que os usu\u00e1rios moem para fumar ou usar como rem\u00e9dio s\u00e3o as flores &#8211; ou buds -, onde est\u00e1 a maior por\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio ativo da erva.<\/p>\n<p>Mas o chef reaproveita as folhas, sementes, talos e at\u00e9 a raiz da planta em sua cozinha.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel fazer leite, azeite e farinha com as sementes depois de sec\u00e1-las. Uso os talos para fazer parrilla de defuma\u00e7\u00e3o para colocar na brasa da churrasqueira e com as ra\u00edzes eu fa\u00e7o um ch\u00e1 muito bom para o est\u00f4mago. As folhas s\u00e3o \u00f3timas para decorar e fazer temperos secos, afirma Colombeck.<\/p>\n<p>Cada parte da planta precisa de um cuidado espec\u00edfico antes de ser consumida. As ra\u00edzes, por exemplo, ficam pelo menos uma semana de molho na \u00e1gua para que o fertilizante usado no cultivo da planta seja retirado. H\u00e1 pessoas que ainda usam a erva para fazer \u00f3leo para massagem, sabonete, lubrificante e at\u00e9 suposit\u00f3rio contra c\u00f3lica menstrual.<\/p>\n<p>O chef alerta, por\u00e9m, que pessoas que n\u00e3o conhecem a proced\u00eancia da maconha que consomem precisam redobrar os cuidados. No Brasil, a maior parte da cannabis consumida \u00e9 comercializada na forma prensada, considerada de baixa qualidade. Ela \u00e9 vendida em peda\u00e7os ou em blocos inteiros, contrabandeada principalmente via Paraguai.<\/p>\n<p>Nesses casos, o chef diz que \u00e9 necess\u00e1rio que a maconha seja lavada em \u00e1gua morna, secada e depois colocada num pote de vidro para curar antes do uso culin\u00e1rio. Colombeck diz que essa t\u00e9cnica faz a planta ficar mais limpa &#8211; pois algumas chegam a mofar por causa da umidade &#8211; e ajuda a melhorar o sabor. Ele afirma que a lavagem n\u00e3o tira a pot\u00eancia psicoativa da erva, j\u00e1 que o THC n\u00e3o se dissolve na \u00e1gua.<\/p>\n<p>Ele explica que 75 gramas de flores de maconha chegam a render cerca de 5 litros de azeite can\u00e1bico.<\/p>\n<p>Em breve, vou lan\u00e7ar um canal no YouTube para ensinar todos esses passos. Quero mostrar que d\u00e1 certo lavar o prensado para tirar suas impurezas e fazer receitas. N\u00e3o \u00e9 porque a pessoa n\u00e3o tem acesso a uma maconha de qualidade que ela vai deixar de cozinhar, afirma.<\/p>\n<p>Para o chef, a legaliza\u00e7\u00e3o da maconha no Brasil \u00e9 uma quest\u00e3o de tempo e a culin\u00e1ria can\u00e1bica, mais uma frente de luta nesse sentido.<\/p>\n<p>Imagine um pai poder colocar leite com cannabis na mamadeira para aliviar as crises de eplepsia de seu filho? Ou fazer um suco detox com maconha para tomar e relaxar depois de um exerc\u00edcio f\u00edsico? Em 2018 eu quero mostrar que isso \u00e9 poss\u00edvel, de forma simples e segura, afirma.<br \/>\nJantar para idosos<\/p>\n<p>Alguns jantares feitos pelo chef s\u00e3o oferecidos na casa onde mora em Montevid\u00e9u com o youtuber brasileiro Henrique Reichert, do canal Eu, a Maconha e uma C\u00e2mera, que usa as redes sociais para ensinar a cultivar cannabis. O jantar geralmente \u00e9 servido no quintal para casais ou grupos de at\u00e9 dez pessoas.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es, como coquet\u00e9is para grupos maiores em clubes can\u00e1bicos e empresas, com degusta\u00e7\u00f5es e petiscos. Nesses eventos externos, o chef coloca seus ingredientes e utens\u00edlios dentro de uma mochila de escalada e faz o banquete na casa ou sal\u00e3o do cliente.<\/p>\n<p>Ele conta que ele atende at\u00e9 cinco pessoas por semana em sua casa e faz dois eventos externos por semana. O maior deles tinha 130 pessoas.<\/p>\n<p>O pre\u00e7o da exclusividade \u00e9 US$ 150 por pessoa (cerca de R$ 500), com direito a entrada, prato principal e sobremesa. Se o cliente optar apenas pelo prato principal, paga US$ 50.<\/p>\n<p>Mesmo ilegal, o \u00faltimo jantar que Colombeck ofereceu foi h\u00e1 uma semana, no Rio de Janeiro. Seus clientes eram quatro idosos com idades entre 60 e 75 anos.<\/p>\n<p>Quem contratou o banquete foi Felipe, de 75 anos. Ele contou \u00e0 BBC Brasil que conheceu o chef em dezembro, quando visitou a Expocannabis, feira destinada \u00e0 maconha, no Uruguai.<\/p>\n<p>Depois da exposi\u00e7\u00e3o, fomos convidados a um jantar, onde eu conheci o Gustavo. A comida era maravilhosa e eu disse que ele precisaria fazer o mesmo para meus amigos no Rio quando ele fosse ao Brasil, conta.<\/p>\n<p>Assim como escolhe um vinho ou molho de pimentas na prateleira do supermercado, ele e cada um de seus amigos disseram a Colombeck quanto THC queriam na comida.<\/p>\n<p>Eu e mais dois amigos pedimos a dosagem mais forte e outros dois, a mais fraca. Ele fez um namorado recheado com legumes e cogumelos. Todos n\u00f3s sentimos uma brisa incr\u00edvel e um sabor espetacular, na dosagem correta, conta Felipe.<\/p>\n<p>Ele disse que n\u00e3o se cansa de recomendar a culin\u00e1ria can\u00e1bica para seus amigos e convid\u00e1-los a comer uma refei\u00e7\u00e3o feita por Colombeck no Uruguai.<\/p>\n<p>\u00c9 uma experi\u00eancia inesquec\u00edvel. \u00c9 triste pensar que temos de viajar para a Holanda, Estados Unidos ou Uruguai para vivenciar algo assim. Isso mostra o quanto vivemos num pa\u00eds opressor, que tem preconceito e criminaliza os usu\u00e1rios de maconha, uma simples planta.<br \/>\nMercado brasileiro<\/p>\n<p>O chef conta que, embora planeje morar nos Estados Unidos, sonha em voltar e trabalhar com maconha no Brasil. Para ele, a proibi\u00e7\u00e3o do uso da erva impede que o pa\u00eds ganhe dinheiro e se desenvolva.<\/p>\n<p>O brasileiro \u00e9 muito criativo e, ao inv\u00e9s de (o pa\u00eds) estimular isso, est\u00e1 exportando seu conhecimento. O Uruguai, por outro lado, abre os bra\u00e7os para pessoas com ideias e projetos novos. Isso \u00e9 causado pelo preconceito que muitos brasileiros ainda t\u00eam com maconha, por falta conhecimento. Eu fa\u00e7o minha parte e levo informa\u00e7\u00e3o para o maior n\u00famero poss\u00edvel de pessoas, afirma.<\/p>\n<p>Uma de suas refer\u00eancias na cozinha \u00e9 o paulistano Alex Atala. Ele diz que o reconhecido chef brasileiro poderia usar seu conhecimento e popularidade para fazer receitas com maconha e mostrar que a planta n\u00e3o \u00e9 prejudicial.<\/p>\n<p>Eu vi ele (Alex Atala) fumando (o que parecia ser) um baseado em uma s\u00e9rie da Netflix. Eu queria perguntar para ele se ele usa maconha na comida que faz em casa. Fico imaginando como um cara admirado desses poderia revolucionar a culin\u00e1ria e cultura de um pa\u00eds.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o sobre a descriminaliza\u00e7\u00e3o do uso de maconha est\u00e1 no Supremo Tribunal Federal (STF) desde 2011, e at\u00e9 agora s\u00f3 tr\u00eas ministros votaram.<\/p>\n<p>O relator do caso, Gilmar Mendes, defendeu a descriminaliza\u00e7\u00e3o de todas as drogas em agosto de 2015. Edson Fachin e Lu\u00eds Roberto Barroso foram favor\u00e1veis \u00e0 descriminaliza\u00e7\u00e3o apenas da maconha.<\/p>\n<p>O \u00faltimo pedido de vista foi de Teori Zavascki, que interrompeu o julgamento em setembro de 2015. Agora, cabe ao ministro Alexandre de Moraes (que herdou a cadeira de Zavascki) devolver o processo \u00e0 pauta.<\/p>\n<p>O caso criar\u00e1 regra para todos os processos similares. Se a a\u00e7\u00e3o sair vitoriosa, a posse de maconha para uso pr\u00f3prio n\u00e3o ser\u00e1 mais considerada crime, como ocorre hoje.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um prato bem servido de macarr\u00e3o chega esfuma\u00e7ando \u00e0 mesa e enche os olhos ao ser coberto por uma generosa por\u00e7\u00e3o de molho de tomates frescos com frutos do mar. Mas quem experimenta a iguaria busca o sabor e a sensa\u00e7\u00e3o de um ingrediente incomum: a maconha. Em abril de 2017, Gustavo Colombeck, de 27 &hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20869"}],"collection":[{"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20869"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20869\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20870,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20869\/revisions\/20870"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20869"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20869"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20869"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}