{"id":19920,"date":"2018-02-17T17:31:04","date_gmt":"2018-02-17T17:31:04","guid":{"rendered":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=19920"},"modified":"2018-02-17T17:31:04","modified_gmt":"2018-02-17T17:31:04","slug":"o-inferno-que-e-atravessar-a-selva-mais-perigosa-da-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/o-inferno-que-e-atravessar-a-selva-mais-perigosa-da-america-latina\/","title":{"rendered":"O inferno que \u00e9 atravessar a selva mais perigosa da Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 um inferno, me advertiram. Nunca antes a descri\u00e7\u00e3o de um lugar foi t\u00e3o prof\u00e9tica.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas: a regi\u00e3o de Dari\u00e9n sempre toma algo para si. Com 575 mil hectares, essa \u00e1rea de selva entre o Panam\u00e1 e a Col\u00f4mbia interrompe a rodovia Panamericana, que liga a maioria dos pa\u00edses da Am\u00e9rica. \u00c9 um lugar in\u00f3spito e perigoso.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos caminhando havia 12 horas nesse emaranhado de muro vegetal que o Panam\u00e1 e a Col\u00f4mbia compartilham quando me dei conta &#8211; a ponto de desmaiar de cansa\u00e7o, pelo calor e pela umidade &#8211; de que, se n\u00e3o levantasse e seguisse adiante, o Dari\u00e9n iria me tragar.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria a primeira vez que isso aconteceria: no s\u00e9culo 16 ele engoliu, com suas ramas espinhosas, os conquistadores espanh\u00f3is e, mais tarde, os exploradores irlandeses.<br \/>\nCarro no meio da selva<br \/>\nImage caption O Chevrolet Corvair que foi abandonado depois que teve problemas t\u00e9cnicos na selva | Foto: Camilo Estrada Isaza\/BBC<\/p>\n<p>Agora os que ficaram pelo caminho s\u00e3o os migrantes que tentam cruzar o Dari\u00e9n em busca de uma vida melhor no norte.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o se sabe exatamente quantos morreram. Nem quantos cart\u00e9is os utilizam para traficar drogas da Am\u00e9rica do Sul at\u00e9 o M\u00e9xico. Nem quantas pessoas vivem ali.<br \/>\nRegi\u00e3o de Dari\u00e9n<br \/>\nImage caption N\u00e3o h\u00e1 caminhos abertos no Dari\u00e9n &#8211; \u00e9 preciso lutar contra a vegeta\u00e7\u00e3o o tempo inteiro | Foto: Camilo Estrada Isaza\/BBC<\/p>\n<p>\u00c9 uma selva indom\u00e1vel, compacta e quase intranspon\u00edvel. Um dos territ\u00f3rios menos acess\u00edveis da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>O jornalista americano Jason Motlagh, que a atravessou em 2016, descreveu a \u00e1rea como o peda\u00e7o de selva mais perigoso do planeta.<\/p>\n<p>A BBC Mundo passou quatro dias percorrendo o Dari\u00e9n e falando com aqueles que, por motivos diferentes, desafiam a natureza no \u00fanico ponto do continente onde a rodovia Panamericana desaparece.<br \/>\nMapa<\/p>\n<p>Dia 1<\/p>\n<p>A travessia come\u00e7a em Yaviza, a uns 300 km para o sul da capital panamenha. Ali, o asfalto da rodovia Panamericana desaparece repentinamente, depois de um trajeto de 12.500 quil\u00f4metros desde Prudhoe, no Alasca (EUA).<\/p>\n<p>E ali onde termina, s\u00f3 h\u00e1 \u00e1gua e canoas. A regi\u00e3o de Dari\u00e9n, que ocupa 13% do territ\u00f3rio do Panam\u00e1 e cont\u00e9m a maior cole\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies de p\u00e1ssaros no mundo, come\u00e7a no rio Tuira.<\/p>\n<p>Do outro lado da fronteira e durante os \u00faltimos 20 anos, essa selva foi campo de batalhas, massacres, torturas e sequestros de civis por parte de guerrilheiros e comandos paramilitares da Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>Mas esse lugar \u00e9 sobretudo um inferno de umidade e calor de onde n\u00e3o se pode ver o c\u00e9u. N\u00e3o se v\u00ea por onde sai o sol nem onde ele se esconde; \u00e9 imposs\u00edvel distinguir o norte do sul sem b\u00fassola ou GPS. Se n\u00e3o h\u00e1 um guia, pode-se passar dias caminhando em c\u00edrculos como um cachorro correndo atr\u00e1s do pr\u00f3prio rabo.<\/p>\n<p>Dia 2<\/p>\n<p>Para sentir o cora\u00e7\u00e3o do Dari\u00e9n, \u00e9 preciso acariciar a \u00e1gua.<\/p>\n<p>A \u00e1gua \u00e9 abundante por aqui. \u00c9 uma das regi\u00f5es mais chuvosas do planeta e, desde que sa\u00edmos de Yaviza, j\u00e1 vimos provas disso: n\u00e3o para de chover. Mas a generosidade das precipita\u00e7\u00f5es e os afluentes do rio n\u00e3o garantem a mobilidade.<\/p>\n<p>Um deslocamento de 30 km \u00e9 feito em seis horas.<\/p>\n<p>Esse conflito entre a natureza e o progresso tem mais de 50 anos, durante os quais diferentes grupos n\u00e3o chegaram a um acordo sobre se a selva deve ser atravessada ou n\u00e3o pelos 108 km de estrada que faltam entre Yaviza e o porto colombiano de Turbo, onde a rodovia retoma seu trajeto.<\/p>\n<p>A ideia da rodovia Panamericana foi gestada em 1929. Em 1937, 13 na\u00e7\u00f5es, impulsionadas pelos Estados Unidos, entraram em um acordo para construir a rodovia. Cada pa\u00eds se encarregaria de sua parte, o que na teoria facilitaria as coisas.<\/p>\n<p>Durante 25 anos, tudo correu mais ou menos bem.<\/p>\n<p>O principal inconveniente surgiu no come\u00e7o dos anos 1960, quando o Panam\u00e1 e a Col\u00f4mbia discutiram sobre como tra\u00e7ar a rodovia na selva: alguns propunham uma linha reta que a atravessasse; outros sinalizavam que o melhor era um pequeno desvio pelo norte, tra\u00e7ando uma rota mais pr\u00f3xima ao Caribe.<br \/>\nYaviza, Panam\u00e1<br \/>\nImage caption Em Yaviza, no Panam\u00e1, a rodovia Panamericana \u00e9 interrompida depois de um caminho de 12.500 km do Alasca | Foto: Camilo Estrada Isaza\/BBC<\/p>\n<p>As discuss\u00f5es se dilu\u00edram em tr\u00e2mites burocr\u00e1ticos e brigas or\u00e7ament\u00e1rias. O trajeto nunca foi constru\u00eddo.<\/p>\n<p>De acordo com a Interpol, o neg\u00f3cio do tr\u00e1fico de migrantes &#8211; que em 2016 alcan\u00e7ou 27 mil pessoas sem autoriza\u00e7\u00e3o, segundo o Senafront, que controla a fronteira- chegou a faturar cerca de US$ 3 milh\u00f5es mensais.<\/p>\n<p>E at\u00e9 o m\u00eas de julho, as autoridades panamenhas encontraram cinco toneladas de coca\u00edna, em sua maior parte transportadas de mochila atrav\u00e9s da selva.<\/p>\n<p>Depois de seis horas, chegamos a Boca de Cupe.<\/p>\n<p>Dia 3<\/p>\n<p>No dia seguinte, outra vez a canoa, outras seis horas, mais chuva espessa. Da Boca de Cupe at\u00e9 Paya, a comunidade ind\u00edgena onde &#8211; saberemos depois &#8211; come\u00e7a a parte mais dura do trajeto, as \u00e1rvores s\u00e3o mais altas, de um verde t\u00e3o verde que parece preto.<\/p>\n<p>N\u00e3o se entende: chove, mas n\u00e3o h\u00e1 \u00e1gua no rio.<\/p>\n<p>Atr\u00e1s da canoa, calado, est\u00e1 Isaac Pizarro, guia do parque. Ele \u00e9 pequeno e tem um sorriso permanente que sublinha seus pequenos olhos. \u00c9 uma das pessoas que mais conhecem o Dari\u00e9n, mas \u00e9, sobretudo, um homem que sabe de p\u00e1ssaros.<\/p>\n<p>Pizarro distingue os p\u00e1ssaros \u00e0 dist\u00e2ncia, s\u00f3 pela forma como voam.<\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e1 chovendo na cabeceira, por isso a \u00e1gua n\u00e3o chega, explica.<\/p>\n<p>Seu diagn\u00f3stico revela uma anomalia que, para os ambientalistas e as comunidade ind\u00edgenas da regi\u00e3o, antecipa o que poderia ocorrer se uma rodovia atravesasse uma \u00e1rea t\u00e3o rica em biodiversidade.<\/p>\n<p>Por isso o empenho de muitos em proteger o Dari\u00e9n. Em 1972, o primeiro passo: o Panam\u00e1 criou a zona especial florestal Alto Dari\u00e9n, garantindo o controle daquela que se tornaria a maior reserva natural da Am\u00e9rica Central.<\/p>\n<p>Depois, quando esse esfor\u00e7o se tornou in\u00fatil para evitar a invas\u00e3o de madeireiras ilegais, a Unesco declarou a regi\u00e3o em 1981 Patrim\u00f4nio Ambiental da Humanidade. E incluiu a \u00e1rea que fica dentro do territ\u00f3rio colombiano.<\/p>\n<p>Os habitantes da selva refutam duas conclus\u00f5es enganosas que tiramos com olhos inexperientes no in\u00edcio da viagem: uma, que o Dari\u00e9n \u00e9 intermin\u00e1vel. E dois, que depois de d\u00e9cadas resistindo \u00e0 rodovia, esse lugar do mundo est\u00e1 inalterado.<\/p>\n<p>A selva \u00e9 essencialmente fr\u00e1gil, dizem.<\/p>\n<p>O discurso ambientalista n\u00e3o teve eco suficiente. As \u00e1rvores seguem sendo exploradas dos dois lados da fronteira. No Panam\u00e1, segundo seu governo, 96% da madeira ilegal comercializada vem do Dari\u00e9n.<\/p>\n<p>Bote<\/p>\n<p>Por isso, quando caminhamos por Paya, um povoado ind\u00edgena com casinhas alinhadas com teto de palha e paredes de madeira, grama bem cortada e sem um s\u00f3 rastro de lixo no ch\u00e3o, o argumento que se escuta para manter a selva inalterada n\u00e3o se refere tanto \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o ambiental, mas \u00e0 sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o concordo que abram o Dari\u00e9n. Vamos perder nossa comida.<\/p>\n<p>Entre os que falam, chama a aten\u00e7\u00e3o Lorencita Bastidas. Melhor dito, chamam a aten\u00e7\u00e3o as cores de Lorencita Bastidas.<\/p>\n<p>Ela caminha com sua blusa azul com gola bordada, um trabalho t\u00eaxtil de muitas camadas sobrepostas e temas de plantas e animais feito pelos ind\u00edgenas da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Com ouro pendurado no nariz e um tecido feito de pedrinhas coloridas envolvendo suas pernas at\u00e9 os joelhos, diz, orgulhosa: Quero que, quando as pessoas me vejam, deem-se conta de que sou uma mulher cuna.<\/p>\n<p>Se deixamos entrar todos, v\u00e3o desaparecer todos meus animais. V\u00e3o para longe, afirma, sacudindo a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Depois do almo\u00e7o, o guia Pizarro nos recomenda descansar. No dia seguinte, \u00e9 preciso madrugar para aproveitar as horas de luz. O caminho vai ser longo.<\/p>\n<p>Dia 4<\/p>\n<p>Acabamos de entrar no matagal e j\u00e1 entendemos por que \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil perder-se por esse terreno: n\u00e3o h\u00e1 forma de adivinhar o caminho. H\u00e1 poucos ind\u00edcios, escassos pontos que servem de refer\u00eancia.<\/p>\n<p>As \u00e1rvores centen\u00e1rias parecem arranha-c\u00e9us. A selva ferve o rosto. Suas dezenas de plantas espinhosas ferem nossos bra\u00e7os e m\u00e3os. Os cad\u00e1veres de \u00e1rvores ca\u00eddas nos obrigam a mudar nosso caminho.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 vest\u00edgios de migrantes: moletons da marca Adidas penduradas em \u00e1rvores, garrafas de energ\u00e9ticos na lama, soro para hidrata\u00e7\u00e3o, t\u00eanis, roupa de beb\u00ea.<\/p>\n<p>Pizarro nos pede que n\u00e3o toquemos em nada, que deixemos tal como est\u00e1.<\/p>\n<p>Os que passaram por aqui deixaram as coisas assim para servir de pista, para que os pr\u00f3ximos n\u00e3o se percam no caminho, explica.<\/p>\n<p>E onde est\u00e3o?, pergunto.<\/p>\n<p>N\u00e3o se deixam ver. N\u00e3o sabem se somos do Senafront, se somos mochileiros que levam drogas. Nos escutam e se ocultam. N\u00e3o v\u00e3o se arriscar, responde.<\/p>\n<p>Perto dali, aponta para o lugar onde foi enterrado um dos migrantes que n\u00e3o resistiu \u00e0 severidade da caminhada. N\u00e3o h\u00e1 placa nem cruz, s\u00f3 um leve sinal retangular na terra.<\/p>\n<p>Pizarro conta que era um africano e que seu corpo foi sepultado quando v\u00e1rios migrantes interceptaram uns \u00edndios que passavam por ali para pedir n\u00e3o s\u00f3 \u00e1gua e orienta\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m que os ajudassem a cavar a terra e dar um final digno a seu companheiro.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 n\u00fameros oficiais de quantas pessoas encontraram a morte no Dari\u00e9n.<\/p>\n<p>Estamos h\u00e1 duas horas dentro do Dari\u00e9n e nossa roupa e cabelo est\u00e3o molhados, como se tiv\u00e9ssemos acabado de sair de uma piscina.<\/p>\n<p>Chegamos \u00e0 fronteira entre o Panam\u00e1, do lado norte, e a Col\u00f4mbia, no sul.<\/p>\n<p>Come\u00e7a nesse lugar o que foi o ponto final para que a rodovia Panamericana nunca terminasse, como me avisou Jos\u00e9 E. Mosquera, um analista pol\u00edtico colombiano especialista na quest\u00e3o da rodovia.<\/p>\n<p>No come\u00e7o dos anos 70, surgiu na Col\u00f4mbia um surto de febre aftosa que afetou as vacas. E isso alarmou os Estados Unidos, que tinha sido o principal pa\u00eds a impulsionar a rota, explicou.<\/p>\n<p>Segundo Mosquera, Washington decidiu que a melhor forma de frear a expans\u00e3o do v\u00edrus era aproveitando-se do muro natural. Ofereceu \u00e0 Col\u00f4mbia a cria\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o de conserva\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica no lugar por onde se pensava que podia passar a Panamericana.<\/p>\n<p>Esse bloqueio de prote\u00e7\u00e3o \u00e9 o Parque Nacional Los Kat\u00edos, que come\u00e7amos a percorrer. \u00c9 o Dari\u00e9n colombiano.<\/p>\n<p>Mapa<\/p>\n<p>Com o recrudescimento da guerra na Col\u00f4mbia entre os grupos guerrilheiros, paramilitares e o ex\u00e9rcito, o Panam\u00e1 encontrou novos argumentos para postergar a rodovia: n\u00e3o s\u00f3 era uma zona de conserva\u00e7\u00e3o e um bloqueio contra a intromiss\u00e3o de v\u00edrus bovinos, como tamb\u00e9m uma aduana n\u00e3o oficial para evitar que o conflito vizinho invadisse o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Chegamos a oito horas de trajeto.<\/p>\n<p>O calor e a extens\u00e3o da caminhada jogam contra n\u00f3s. Nosso corpo come\u00e7a a ceder. Nossos passos s\u00e3o mais lentos e as pausas para descansar, mais frequentes.<\/p>\n<p>Pizarro fica nervoso e repete: temos que chegar antes que anoite\u00e7a.<\/p>\n<p>O caminho est\u00e1 totalmente enlameado. A lama vem at\u00e9 nossos joelhos.<\/p>\n<p>O pior temor de Pizarro se torna realidade. A noite nos alcan\u00e7a e eu compreendo sua afli\u00e7\u00e3o. A selva na escurid\u00e3o \u00e9 um lugar tenebroso, como uma m\u00e1scara que n\u00e3o te deixa respirar.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso mais, diz meu companheiro, desmaiando sobre o leito do Dari\u00e9n, exausto. Pizarro e os homens que nos servem de guias acendem suas lanternas e nos rodeiam para evitar que algum animal se aproxime.<\/p>\n<p>Eu tamb\u00e9m n\u00e3o aguento mais. Foram doze horas de batalha contra a natureza \u00e1spera, que fere a pele a cada dois metros, dentro de uma atmosfera sufocante, o corpo sempre molhado.<\/p>\n<p>Pizarro fala por r\u00e1dio e nos traz palavras de alento: Estamos a 25 minutos do rio Cacarica, onde nos espera um barco que nos levar\u00e1 \u00e0 comunidade Juin Phubuur. Vamos.<\/p>\n<p>Quando me levanto e avan\u00e7o alguns metros, vejo sobre a escurid\u00e3o da selva as sombras de uma cabana de palha, uma mesa rodeada por cadeiras r\u00fasticas acomodadas simetricamente uma frente \u00e0 outra, enquanto uma canoa flutua sobre um rio apraz\u00edvel.<\/p>\n<p>Vejo o quadro perfeitamente. Aqui est\u00e1, chegamos, digo euf\u00f3rico.<\/p>\n<p>N\u00e3o, a\u00ed n\u00e3o tem nada, me corrige um guia que est\u00e1 do meu lado cuidando de cada passo que dou. Voc\u00ea est\u00e1 come\u00e7ando a alucinar. Temos que chegar rapidamente.<\/p>\n<p>Joga \u00e1gua no meu pesco\u00e7o e me obriga a tomar grandes goles que me permitem voltar a concentrar no caminho. Os 25 minutos se tornam uma hora serpenteando pela lama, at\u00e9 que finalmente chegamos ao barco.<\/p>\n<p>Me jogo no meio da embarca\u00e7\u00e3o e meu primeiro impulso \u00e9 fechar os olhos, mas um dos guias sugere que nos mantenhamos acordados at\u00e9 chegarmos a Juin Phubuur. Se a lancha virar, temos que reagir a tempo para sair da \u00e1gua.<\/p>\n<p>Olha o c\u00e9u, olha como est\u00e3o as estrelas, sugere, para me distrair.<\/p>\n<p>As estrelas brilham sobre o fundo violeta do c\u00e9u do Dari\u00e9n e rodeiam a lua minguante, luminosa sem o filtro da polui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto a canoa avan\u00e7a, penso que o que acabo de fazer, acompanhado por cinco guias especialistas, \u00e1gua abundante e alimentos suficientes, roupa especializada e um sistema de comunica\u00e7\u00e3o de apoio, os migrantes fazem diariamente a p\u00e9. S\u00e3o 108 km de selva.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dez anos, 47 mil pessoas fizeram isso (em 2016, 27 mil). Alguns sem guia, comida ou sapatos adequados, com o objetivo \u00fanico de fugir da mis\u00e9ria e buscar um futuro melhor &#8211; que ainda estar\u00e1 muitos e muitos quil\u00f4metros dali.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 um inferno, me advertiram. 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Com 575 mil hectares, essa \u00e1rea de selva entre o Panam\u00e1 e a Col\u00f4mbia interrompe a rodovia Panamericana, que liga a maioria dos pa\u00edses da Am\u00e9rica. \u00c9 um &hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-19920","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19920","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19920"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19920\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19921,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19920\/revisions\/19921"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19920"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19920"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19920"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}