{"id":18725,"date":"2018-02-17T14:19:47","date_gmt":"2018-02-17T14:19:47","guid":{"rendered":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=18725"},"modified":"2018-02-17T14:19:47","modified_gmt":"2018-02-17T14:19:47","slug":"a-desconhecida-cordilheira-no-litoral-brasileiro-que-pode-virar-a-maior-reserva-marinha-do-atlantico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/a-desconhecida-cordilheira-no-litoral-brasileiro-que-pode-virar-a-maior-reserva-marinha-do-atlantico\/","title":{"rendered":"A desconhecida cordilheira no litoral brasileiro que pode virar a maior reserva marinha do Atl\u00e2ntico"},"content":{"rendered":"<p>Uma floresta tropical no fundo do mar &#8211; \u00e9 assim que o bi\u00f3logo capixaba Jo\u00e3o Luiz Gasparini descreve a cordilheira submersa na costa do Esp\u00edrito Santo, que logo poder\u00e1 se tornar uma das maiores reservas marinhas do mundo.<\/p>\n<p>Dona da maior variedade de esp\u00e9cies que vivem em recifes entre todas as ilhas brasileiras, a cadeia \u00e9 composta por cerca de 30 montes submarinos de origem vulc\u00e2nica entre a cidade de Vit\u00f3ria e a ilha de Trindade, a 1.200 km do continente.<\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0 BBC Brasil, o secret\u00e1rio de Biodiversidade do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, Jos\u00e9 Pedro de Oliveira Costa, disse que nos pr\u00f3ximos 45 dias o \u00f3rg\u00e3o dever\u00e1 entregar ao presidente Michel Temer um decreto para a cria\u00e7\u00e3o de uma unidade de conserva\u00e7\u00e3o em torno da cordilheira e de outra reserva no arquip\u00e9lago S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo, mais ao norte. A partir da\u00ed, s\u00f3 depende do presidente.<\/p>\n<p>Segundo Costa, a reserva na cadeia Vit\u00f3ria-Trindade teria cerca de 450 mil quil\u00f4metros quadrados &#8211; \u00e1rea equivalente \u00e0 da Su\u00e9cia. O estudo que embasou a proposta diz que ela seria a maior \u00e1rea marinha protegida do Atl\u00e2ntico. Na quarta-feira, o governo federal convocou consultas p\u00fablicas para discutir a cria\u00e7\u00e3o das unidades.<\/p>\n<p>A prote\u00e7\u00e3o da cordilheira \u00e9 uma demanda antiga de pesquisadores, que a consideram essencial para a manuten\u00e7\u00e3o de estoques pesqueiros em \u00e1guas vizinhas e um dos melhores laborat\u00f3rios naturais do mundo. A cadeia ganhou visibilidade global em agosto de 2017, quando um estudo baseado na forma\u00e7\u00e3o de sua fauna foi capa da prestigiada revista cient\u00edfica Nature.<\/p>\n<p>Casca do ovo<\/p>\n<p>Coautor do artigo, Jo\u00e3o Luiz Gasparini descreve o espanto de sua primeira visita a Trindade, em 1995. Logo ap\u00f3s desembarcar na ilha, diz ter encontrado numa po\u00e7a de mar\u00e9 uma esp\u00e9cie que jamais havia sido catalogada pela ci\u00eancia &#8211; um peixe azulado com uma mancha amarela no topo. De cara percebi que existia ali um universo fant\u00e1stico para ser explorado, ele diz.<\/p>\n<p>O animal &#8211; batizado Stegastes trindadensis &#8211; integra o grupo de 13 esp\u00e9cies de peixes recifais end\u00eamicas (restritas ao local) registradas na cordilheira at\u00e9 agora. Somando-as \u00e0s que tamb\u00e9m habitam outras regi\u00f5es, a lista alcan\u00e7a 270 esp\u00e9cies de peixes recifais &#8211; 24 delas amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o -, uma das mais altas taxas de diversidade entre todas as ilhas do Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m habitam a cordilheira cerca de 140 tipos de moluscos, 28 de esponjas, 87 de peixes de mar aberto, 17 de tubar\u00f5es e 12 de golfinhos e baleias.<\/p>\n<p>Para Gasparini, h\u00e1 muitas outras esp\u00e9cies a descobrir. A gente ainda mal arranhou a casca do ovo da biodiversidade da cadeia Vit\u00f3ria-Trindade.<\/p>\n<p>Ele e outros sete pequisadores devem iniciar neste s\u00e1bado (27) uma expedi\u00e7\u00e3o que pretende furar essa casca. A bordo do Paratii 2, barco que levou o navegador Amyr Klink \u00e0 Ant\u00e1rtida, a equipe tentar\u00e1 ultrapassar pela primeira vez o ponto no fundo do mar a partir do qual a temperatura cai drasticamente, varia\u00e7\u00e3o conhecida como termoclina. At\u00e9 agora, alcan\u00e7aram no m\u00e1ximo 80 metros de profundidade.<\/p>\n<p>Abaixo dessa zona, sobre montes mais distantes da superf\u00edcie, esperam encontrar esp\u00e9cies distintas das vistas at\u00e9 agora. Os recifes mais profundos s\u00e3o o novo \u00e9den, a pr\u00f3xima fronteira para quem quer fazer mergulho cient\u00edfico no mundo, diz Gasparini.<\/p>\n<p>Mergulho desafiador<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos anos pesquisadores tentam chegar \u00e0s \u00e1guas frias da cordilheira, mas a dist\u00e2ncia entre a costa e os montes submersos mais fundos torna a miss\u00e3o complexa.<\/p>\n<p>Navios da Marinha costumam levar tr\u00eas dias para chegar a Trindade, onde o Brasil mant\u00e9m uma base militar. E para mergulhar at\u00e9 as profundezas com seguran\u00e7a, \u00e9 preciso contar com equipamentos caros.<\/p>\n<p>Desta vez, a miss\u00e3o ser\u00e1 facilitada pelo Paratii 2, veleiro cedido aos pesquisadores por meio de uma parceria e capaz de ficar tr\u00eas meses no mar sem reabastecer. Os cientistas portar\u00e3o ainda rebreathers, aparelhos que reciclam o g\u00e1s carb\u00f4nico exalado, permitindo que o mergulhador passe at\u00e9 seis horas embaixo d\u00e1gua. Em sites de vendas no Brasil, um rebreather novo sai por at\u00e9 R$ 33 mil.<\/p>\n<p>A viagem &#8211; que contar\u00e1 com pesquisadores da California Academy of Sciences e das universidades federais do Esp\u00edrito Santo, Par\u00e1 e Para\u00edba &#8211; deve durar 20 dias.<\/p>\n<p>Chefe da expedi\u00e7\u00e3o, o bi\u00f3logo capixaba Hudson Pinheiro, que faz seu p\u00f3s-doutorado na institui\u00e7\u00e3o californiana, diz que as eras glaciais ajudam a explicar a biodiversidade da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Naqueles per\u00edodos, enquanto os habitats costeiros eram afetados pela redu\u00e7\u00e3o do n\u00edvel da \u00e1gua, os montes submarinos ficaram expostos como ilhas, tornando-se ref\u00fagios para a vida marinha.<\/p>\n<p>Conforme o n\u00edvel do mar subiu nos \u00faltimos 10 mil anos, muitas dessas esp\u00e9cies permaneceram isoladas e se adaptaram aos novos ambientes, agora submersos. Mesmo assim, a cadeia jamais perdeu a conex\u00e3o com o continente, pois muitas esp\u00e9cies costeiras usam os montes como trampolins, deslocando-se pela cadeia de uma extremidade \u00e0 outra, no meio do Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Hoje ao menos dez desses montes t\u00eam entre 30 e 150 metros de profundidade.<\/p>\n<p>O elo da cordilheira com o continente, diz Pinheiro, \u00e9 o que torna a forma\u00e7\u00e3o brasileira \u00fanica no mundo. H\u00e1 outras cadeias montanhosas de origem vulc\u00e2nica no meio do oceano, como o Hava\u00ed. Mas, como est\u00e3o distantes do continente, o deslocamento das esp\u00e9cies nessas \u00e1reas \u00e9 limitado.<\/p>\n<p>Outra explica\u00e7\u00e3o para a riqueza da fauna na cordilheira \u00e9 variedade de algas calc\u00e1rias, um tipo de planta marinha respons\u00e1vel pela forma\u00e7\u00e3o de recifes naturais. H\u00e1 na cadeia 16 esp\u00e9cies dessas algas, que criam nichos e habitats para centenas de outras esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>Pinheiro \u00e9 um dos principais entusiastas da cria\u00e7\u00e3o da reserva marinha. Hoje, diz ele, a \u00e1rea est\u00e1 amea\u00e7ada pela pesca comercial e pela minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 na regi\u00e3o relatos sobre a a\u00e7\u00e3o de barcos com redes presas a grandes rodas, do tamanho de pneus de caminh\u00e3o, que s\u00e3o arrastadas sobre os recifes.<br \/>\nImage caption O Minist\u00e9rio do Meio Ambiente enviar\u00e1 um decreto \u00e0 Presid\u00eancia para a cria\u00e7\u00e3o de uma unidade de conserva\u00e7\u00e3o em torno da cordilheira (Cr\u00e9dito: Jo\u00e3o Luiz Gasparini\/Divulga\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>Outro tipo de pesca que preocupa os pesquisadores \u00e9 a feita com espinhel, quando anz\u00f3is s\u00e3o enfileirados para capturar peixes maiores. Tubar\u00f5es s\u00e3o muito vulner\u00e1veis a esse m\u00e9todo de captura; como geram poucos filhotes, podem ser rapidamente aniquilados.<\/p>\n<p>A BBC Brasil pediu uma entrevista com o presidente do Sindicato das Ind\u00fastrias da Pesca do Estado do Esp\u00edrito Santo (Sindipesca) sobre a atividade pesqueira na regi\u00e3o, mas n\u00e3o obteve resposta.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00f3 barcos brasileiros atuam na cordilheira. Parte da cadeia Vit\u00f3ria-Trindade fica em \u00e1guas internacionais, por onde transitam barcos estrangeiros. Segundo os pesquisadores, h\u00e1 relatos de que esses barcos tamb\u00e9m estariam pescando no mar territorial brasileiro, o que \u00e9 ilegal.<\/p>\n<p>Em nota \u00e0 BBC Brasil, a Marinha disse realizar patrulhas regulares na cordilheira para inspecionar e apreender embarca\u00e7\u00f5es irregulares.<\/p>\n<p>Outro temor dos pesquisadores \u00e9 a minera\u00e7\u00e3o submarina. Segundo um estudo no site do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o e Biodiversidade), o Departamento Nacional de Produ\u00e7\u00e3o Mineral (DNPM) j\u00e1 concedeu duas licen\u00e7as para a explora\u00e7\u00e3o de bancos de rodolito (crostas de alga calc\u00e1ria e outros organismos) e recifes de corais na cadeia Vit\u00f3ria-Trindade.<\/p>\n<p>A atividade durou tr\u00eas anos, e o material extra\u00eddo foi usado como fertilizante em planta\u00e7\u00f5es de cana-de-a\u00e7\u00facar. No site do DNPM h\u00e1 registro de novos pedidos de licen\u00e7a na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O DNPM n\u00e3o respondeu um pedido da BBC Brasil sobre a minera\u00e7\u00e3o na cadeia Vit\u00f3ria-Trindade.<\/p>\n<p>Segundo Pinheiro, a atividade destr\u00f3i forma\u00e7\u00f5es que levam milhares de anos para se desenvolver e p\u00f5e em risco muitas esp\u00e9cies end\u00eamicas e amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O pesquisador diz esperar que a cria\u00e7\u00e3o da reserva ponha fim \u00e0 atividade e que a proibi\u00e7\u00e3o da pesca em partes da cordilheira ajude a repor estoques de peixes em \u00e1reas vizinhas sobrexploradas &#8211; o que, para ele, tamb\u00e9m seria ben\u00e9fico para pescadores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma floresta tropical no fundo do mar &#8211; \u00e9 assim que o bi\u00f3logo capixaba Jo\u00e3o Luiz Gasparini descreve a cordilheira submersa na costa do Esp\u00edrito Santo, que logo poder\u00e1 se tornar uma das maiores reservas marinhas do mundo. 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