{"id":18715,"date":"2018-02-17T14:18:41","date_gmt":"2018-02-17T14:18:41","guid":{"rendered":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=18715"},"modified":"2018-02-17T14:18:41","modified_gmt":"2018-02-17T14:18:41","slug":"a-manipulacao-de-imagens-pelos-sovieticos-muito-antes-da-era-das-fake-news","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/a-manipulacao-de-imagens-pelos-sovieticos-muito-antes-da-era-das-fake-news\/","title":{"rendered":"A manipula\u00e7\u00e3o de imagens pelos sovi\u00e9ticos, muito antes da era das fake news"},"content":{"rendered":"<p>N\u00f3s vivemos na era das fake news. Mas elas n\u00e3o foram inventadas com o Twitter ou o YouTube &#8211; foram usadas nos anos 1930 para fazer pessoas reais desaparecerem, diz Natalia Sidlina, curadora de uma exposi\u00e7\u00e3o aberta no fim do ano passado no museu Tate Modern, em Londres, chamada Red Star Over Russia (Estrela Vermelha Sobre a R\u00fassia, em portugu\u00eas).<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o, lan\u00e7ada no centen\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro &#8211; e em cartaz at\u00e9 18 de fevereiro -, tem como tema as poderosas imagens criadas na R\u00fassia e na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica entre 1905 e 1955, inevitavelmente permeadas pela pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A relev\u00e2ncia das imagens hoje \u00e9 clara. N\u00f3s planejamos a exposi\u00e7\u00e3o para que coincidisse com o anivers\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, e ainda assim ela parece provocar compara\u00e7\u00f5es com o que est\u00e1 acontecendo no mundo agora, diz o diretor de exposi\u00e7\u00f5es do Tate Modern, Matthew Gale.<\/p>\n<p>Uma das salas da exposi\u00e7\u00e3o apresenta um forte contraste entre as explos\u00f5es de cores e projetos gr\u00e1ficos arrojados que marcam as instala\u00e7\u00f5es que est\u00e3o nas paredes e uma mesa no centro cheia de fotos em preto e branco.<\/p>\n<p>Algumas mostram presos pol\u00edticos enviados aos Gulags, campos de trabalho for\u00e7ado, ou condenados \u00e0 morte durante o per\u00edodo que ficou conhecido como Grande Expurgo, movimento de repress\u00e3o pol\u00edtica capitaneado por Joseph Stalin.<\/p>\n<p>Outras parecem ser um conjunto de fotos de funcion\u00e1rios e estagi\u00e1rios do governo, mas uma observa\u00e7\u00e3o mais rigorosa revela que eles comp\u00f5em na verdade uma lista de alvos, com x sobre corpos, rostos rasurados e a frase inimigo do povo rabiscada em tinta.<\/p>\n<p>Uma s\u00e9rie de instant\u00e2neos mostra uma linha do tempo de arrepiar a espinha: na primeira foto (acima), Stalin aparece cercado de quatro camaradas; na pr\u00f3xima, datada de 23 anos mais tarde, tr\u00eas deles desapareceram; na terceira, ele aparece sozinho em um cart\u00e3o postal.<\/p>\n<p>Os que faziam parte do seleto c\u00edrculo interno que perderam a simpatia do l\u00edder foram simplesmente apagados das imagens oficiais: a manipula\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica era chave para reescrever a hist\u00f3ria sovi\u00e9tica. \u00c9 uma das nossas preocupa\u00e7\u00f5es hoje &#8211; as imagens s\u00e3o muito convincentes, mas elas tamb\u00e9m s\u00e3o facilmente manipul\u00e1veis, diz Gale.<\/p>\n<p>Ele v\u00ea um paralelo entre algumas das fotos da exposi\u00e7\u00e3o e o meme do s\u00e9culo 21. A rela\u00e7\u00e3o entre essas maneiras de tirar as pessoas da hist\u00f3ria e a imagem photoshopada \u00e9 bem significativa, e um aviso para n\u00f3s neste momento.<\/p>\n<p>Ela mostra o poder das imagens e, de certa forma, parte da hist\u00f3ria por tr\u00e1s dessa hist\u00f3ria que estamos desenhando\u2026 \u00e9 exatamente isso, olhar para o poder das imagens no espa\u00e7o p\u00fablico e para que tipo de informa\u00e7\u00e3o elas produzem.<\/p>\n<p>Apontar e atirar<\/p>\n<p>O tema da influ\u00eancia persuasiva da imagem aparece por toda a exibi\u00e7\u00e3o &#8211; n\u00e3o apenas na sala cheia de fotos, mas tamb\u00e9m nos banners vibrantes e nas litografias. Muitas vezes era isso o que dava o poder a essas imagens de propaganda, segundo Gale.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma combina\u00e7\u00e3o entre a abstra\u00e7\u00e3o e a figura concreta, geralmente mas n\u00e3o exclusivamente atrav\u00e9s da montagem de fotos, que \u00e9 uma novidade decisiva dos anos 1920 e 1930. A imagem fotogr\u00e1fica reconhec\u00edvel se mistura com uma composi\u00e7\u00e3o abstrata &#8211; algo que na \u00e9poca \u00e9 visto, ao mesmo tempo, como compreens\u00edvel e avant-garde e que hoje continua sendo extremamente influente em termos de design, diz.<\/p>\n<p>Mesmo no per\u00edodo dos anos 1930, quando, sob Stalin, o Realismo Socialista se tornou a \u00fanica modalidade aceit\u00e1vel e as pessoas consideradas avant-garde viviam sob suspeita, ainda assim essa maneira de pensar sobre composi\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 muito prevalente e empresta dinamismo \u00e0 forma como as obras eram produzidas naquele per\u00edodo.<\/p>\n<p>A imagem usada para o p\u00f4ster da exibi\u00e7\u00e3o \u00e9 um bom exemplo disso. A imagem de Adolf Strakhov da mulher emancipada consegue realizar v\u00e1rias coisas ao mesmo tempo, diz Gale. \u00c9 essencialmente monocrom\u00e1tica, mas usa o vermelho de maneira bastante dram\u00e1tica, ent\u00e3o de um ponto de vista color\u00edstico, \u00e9 extraordin\u00e1rio. Tem esse incr\u00edvel comando gr\u00e1fico que chega perto do fotogr\u00e1fico &#8211; e comunica uma imagem que \u00e9 fundamental para a forma como a sociedade foi reformada sob os bolcheviques.<\/p>\n<p>O rosto da mulher passa uma sensa\u00e7\u00e3o de proximidade, enquanto o fundo d\u00e1 um sentimento \u00e9pico. Essa \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o encontrada em muitos outros trabalhos da exposi\u00e7\u00e3o, que foram cedidos da cole\u00e7\u00e3o do designer gr\u00e1fico David King.<\/p>\n<p>Elas operam em um n\u00edvel pessoal &#8211; tentando convencer os cidad\u00e3os sovi\u00e9ticos a apoiar a causa comunista &#8211; e ao mesmo tempo exploram ideais coletivos.<br \/>\nCopos cor de rosa<\/p>\n<p>Muitas das imagens em exibi\u00e7\u00e3o s\u00e3o de mulheres. Segundo Sidlina, o governo usava muitos desses p\u00f4steres em sua estrat\u00e9gia de propaganda para arregimentar apoio no combate ao fascismo durante a Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia o rosto de Stalin &#8211; era muito dif\u00edcil inspirar as pessoas a irem \u00e0 guerra e a morrerem pelo l\u00edder do Partido Comunista, diz ela. Uma imagem de uma m\u00e3e ou de uma filha funcionaria muito melhor.<\/p>\n<p>Ainda assim, a imagem de Strakhov revela algo mais, diz Gale. Muitas coisas absolutamente horr\u00edveis aconteceram, mas a forma como eles se atuaram em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 igualdade entre os sexos era pioneira na Europa naquela \u00e9poca: dar \u00e0s mulheres o direito ao voto, pressionar pela alfabetiza\u00e7\u00e3o, por creches &#8211; eles eram idealistas, assim como tiranos.<\/p>\n<p>Essas obras trazem uma importante faceta do idealismo &#8211; uma que \u00e9 ecoada na arte de tempos mais antigos.<\/p>\n<p>Voc\u00ea s\u00f3 precisa ver a cabe\u00e7a gigante de Constantino no Museu Capitolino para saber que se trata de propaganda e tamb\u00e9m de arte extraordin\u00e1ria &#8211; ou os tetos pintados a \u00f3leo das igrejas cat\u00f3licas, diz Gale. O que \u00e9 fundamental por tr\u00e1s disso \u00e9 maravilhar as pessoas com imagens muito diretas que podem trazer certeza, ao menos no futuro &#8211; de que estamos no caminho certo e de que \u00e9 isso mesmo.<\/p>\n<p>Elas tamb\u00e9m compartilham algo em composi\u00e7\u00e3o com imagens religiosas.<\/p>\n<p>Segundo Gale, essa linguagem visual come\u00e7a com uma popula\u00e7\u00e3o com muito analfabetismo, dependente de imagens, e ent\u00e3o isso vira uma iconografia que se repete. Ele escolhe um entre os v\u00e1rios retratos de Vladimir L\u00eanin. Quando voc\u00ea olha para a maneira como L\u00eanin \u00e9 representado, h\u00e1 cerca de seis diferentes poses para ele, e se torna um vocabul\u00e1rio que, por mais que ele pare\u00e7a ou n\u00e3o a pessoa de verdade, torna-se reconhec\u00edvel &#8211; a iconografia crist\u00e3 funciona exatamente da mesma maneira.<\/p>\n<p>\u00c9 uma estrat\u00e9gia que permitia que imagens criadas por artistas fossem espalhadas entre a popula\u00e7\u00e3o junto a ferramentas de propaganda como trens agitpro, que eram decorados com murais e viajavam o pa\u00eds disseminando informa\u00e7\u00e3o com panfletos, filmes e rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Artistas que dedicavam seu trabalho ao apoio do regime viam a arte n\u00e3o mais como algo exclusivo, mas que poderia estar voltado ao povo, diz Gale.<br \/>\nArte de rua<\/p>\n<p>A premissa de fazer arte em primeiro lugar era a de que eles estavam levando seu programa art\u00edstico para as ruas. Depois de passar pela excita\u00e7\u00e3o da abstra\u00e7\u00e3o e do construtivismo, pessoas como Aleksander Rodchenko e El Lissitzky se dedicaram para aumentar a disponibilidade disso o m\u00e1ximo poss\u00edvel, com p\u00f4steres, transportes ferrovi\u00e1rios, nos vag\u00f5es, nos jornais e nas revistas.<\/p>\n<p>Eles fizeram isso em um momento de virada da arte. Vkhutemas, a escola de arte em Moscou, era dedicada sobretudo ao que eles chamavam de m\u00e9todo produtivista, o design por uma causa, em vez de simplesmente para proveito est\u00e9tico, o que est\u00e1 alinhado com a escola de Bauhaus na Alemanha no mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p>Na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, esse prop\u00f3sito virou trazer uma imagem apoiada pelo partido &#8211; uma mensagem que, de acordo com Gale, poderia mudar radical e inesperadamente se as pessoa que estavam no poder subitamente perdessem o poder e fossem derrubadas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o apagamento de rostos de pessoas de uma maneira incrivelmente sinistra mostra tanto o poder da imagem como tamb\u00e9m a import\u00e2ncia da pol\u00edtica como a condutora por tr\u00e1s da produ\u00e7\u00e3o desse material.<\/p>\n<p>Essas mudan\u00e7as eram aplicadas tanto a artistas quanto aos pol\u00edticos: em 1938, Gustav Klutsis &#8211; que usou fotomontagem no design politicamente carregado de p\u00f4steres e arte de rua &#8211; foi preso sob acusa\u00e7\u00f5es falsas e executado. Sua esposa Valentina Kulagina, outra artista, foi em seguida classificada como inimiga do povo e perdeu todas as comiss\u00f5es oficiais que recebia at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda que as imagens da exposi\u00e7\u00e3o sejam impactantes e que seu legado sejam percebi nos dias de hoje, elas n\u00e3o foram necessariamente criadas como obras de arte.<\/p>\n<p>Est\u00e1 claro que os artistas avant-garde que estavam no centro de muito da atividade nos anos 1920 e 1930 na R\u00fassia estavam conscientemente fazendo propaganda, diz Gale. N\u00f3s podemos apreciar os movimentos art\u00edsticos que moldaram essa cultura visual &#8211; mas a pol\u00edtica nunca est\u00e1 longe deles. Como disse Sidlina, isso nos lembra da responsabilidade e do poder da imagem na hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00f3s vivemos na era das fake news. 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