{"id":18685,"date":"2018-02-17T14:15:13","date_gmt":"2018-02-17T14:15:13","guid":{"rendered":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=18685"},"modified":"2018-02-17T14:15:13","modified_gmt":"2018-02-17T14:15:13","slug":"o-submundo-dos-videos-que-humilham-e-expoem-criancas-no-youtube","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/o-submundo-dos-videos-que-humilham-e-expoem-criancas-no-youtube\/","title":{"rendered":"O submundo dos v\u00eddeos que humilham e exp\u00f5em crian\u00e7as no YouTube"},"content":{"rendered":"<p>A plataforma de v\u00eddeos mais popular do mundo tem um problema s\u00e9rio com seu conte\u00fado: usu\u00e1rios t\u00eam publicado centenas de v\u00eddeos com crian\u00e7as em situa\u00e7\u00f5es \u00edntimas, violentas ou humilhantes e conseguido milhares de visualiza\u00e7\u00f5es com a explora\u00e7\u00e3o dessas imagens.<\/p>\n<p>Apesar do YouTube ter anunciado no fim do ano passado a retirada de 150 mil v\u00eddeos chocantes envolvendo menores e o cancelamento de alguns canais, ainda \u00e9 poss\u00edvel encontrar centenas de publica\u00e7\u00f5es com conte\u00fado impr\u00f3prio envolvendo crian\u00e7as ou voltadas para elas.<\/p>\n<p>H\u00e1 centenas de v\u00eddeos que cont\u00eam crian\u00e7as chorando, gritando de medo e claramente aterrorizadas. H\u00e1 imagens de meninas com roupas de banho em posi\u00e7\u00f5es em que suas partes \u00edntimas ficam em evid\u00eancia. Outras mostram situa\u00e7\u00f5es escatol\u00f3gicas envolvendo fezes, v\u00f4mito, cuspe e urina.<\/p>\n<p>Em muitos casos, os pequenos s\u00e3o perseguidos por pessoas em roupas de palha\u00e7o e outras fantasias assustadoras, s\u00e3o amarrados e alvo de imita\u00e7\u00f5es de situa\u00e7\u00f5es de sequestro. H\u00e1 crian\u00e7as tomando inje\u00e7\u00f5es ou sangrando ao terem o dente removido, centenas de pegadinhas violentas e perigosas e at\u00e9 v\u00eddeos com simula\u00e7\u00e3o de suic\u00eddio.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m uma s\u00e9rie de v\u00eddeos que imitam desenhos infantis, mas cont\u00e9m palavreado impr\u00f3prio, viol\u00eancia e situa\u00e7\u00f5es de cunho sexual &#8211; sem nenhum aviso de que o conte\u00fado \u00e9 impr\u00f3prio para menores. As imagens imitam anima\u00e7\u00f5es infantis como a Peppa Pig, Thomas, a Locomotiva a Vapor e filmes como Frozen e Meu Malvado Favorito, entre outros.<\/p>\n<p>A plataforma tem um filtro, o YouTube Kids, cujos controles s\u00e3o mais r\u00edgidos para proteger as crian\u00e7as da exposi\u00e7\u00e3o a conte\u00fado do tipo. Mas, muitas vezes, por serem muito parecidos ou por terem problemas apenas no \u00e1udio, os desenhos impr\u00f3prios acabam furando esse controle.<\/p>\n<p>Muitos dos v\u00eddeos impr\u00f3prios voltados para crian\u00e7as ou com crian\u00e7as em situa\u00e7\u00f5es abusivas v\u00eam de canais verificados e acumulam milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es. Em uma tentativa de conter o problema, o YouTube cancelou diversos destes canais no \u00faltimo ano.<\/p>\n<p>Um dos maiores, o Toy Freaks, tinha 8 milh\u00f5es de inscritos, 7 bilh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es acumuladas e recebia reclama\u00e7\u00f5es dos usu\u00e1rios h\u00e1 anos.<\/p>\n<p>No canal, o pai de duas garotas mostrava as filhas gritando de medo, cuspindo e urinando umas nas outras, sendo alimentadas \u00e0 for\u00e7a, tomando banho e fingindo serem beb\u00eas. Mas mesmo com a retirada do canal, ainda \u00e9 poss\u00edvel encontrar alguns dos v\u00eddeos, que foram salvos e republicados por outros usu\u00e1rios.<\/p>\n<p>O ToyFreaks era um dos canais que ganhavam dinheiro com os v\u00eddeos abusivos &#8211; por meio do pagamento pela veicula\u00e7\u00e3o de an\u00fancios antes dos v\u00eddeos com muitas visualiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 raro que outros canais verificados tenham casos de v\u00eddeos que colocam crian\u00e7as em situa\u00e7\u00f5es perigosas e abusivas.<\/p>\n<p>Pegadinhas extremamente violentas e assustadoras para crian\u00e7as s\u00e3o uma das categorias mais comuns. Em um v\u00eddeo de um canal verificado, por exemplo, duas crian\u00e7as pequenas gritam de medo e choram ao serem perseguidas por palha\u00e7os assustadores.<\/p>\n<p>Em um video de outro canal, duas meninas pequenas s\u00e3o mostradas no banheiro, usando a privada, at\u00e9 que aparece um palha\u00e7o assustador. Depois, uma delas \u00e9 mostrada chorando de medo.<\/p>\n<p>Muitos dos v\u00eddeos s\u00e3o feitos e postados pelas pr\u00f3prias fam\u00edlias das crian\u00e7as. Ao perceber que certo tipo de v\u00eddeo atrai mais p\u00fablico, alguns canais que lucram com o n\u00famero de visualiza\u00e7\u00f5es acabam produzindo mais conte\u00fado do tipo para satisfazer a audi\u00eancia.<\/p>\n<p>O conte\u00fado vai se tornando cada vez mais bizarro, explica Rodrigo Nejm, diretor de educa\u00e7\u00e3o da ong Safernet, que monitora e promove direitos humanos na internet. Conte\u00fado humilhante e brincadeiras em que as pessoas n\u00e3o est\u00e3o de acordo v\u00e3o criando uma banaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Os donos do canal DaddyOFive, j\u00e1 cancelado pelo YouTube, chegaram a perder a guarda de dois dos filhos por causa de pegadinhas.<\/p>\n<p>Mas os casos emblem\u00e1ticos em que houve alguma puni\u00e7\u00e3o, como os dos canais DaddyOFive e Toy Freaks, n\u00e3o impedem que mais centenas de v\u00eddeos parecidos sejam subidos diariamente para a plataforma.<\/p>\n<p>Nejm, da Safernet, explica que conte\u00fados explicitamente pornogr\u00e1ficos (com nudez ou sexo expl\u00edcito) ou com viol\u00eancia muito evidente, como com muito sangue, s\u00e3o automaticamente bloqueados pelos filtros do YouTube.<\/p>\n<p>O problema s\u00e3o conte\u00fados abusivos que n\u00e3o s\u00e3o automaticamente detectados pela plataforma, mas que podem ser chocantes.<\/p>\n<p>As pessoas t\u00eam que lembrar que, ainda que o conte\u00fado n\u00e3o seja explicitamente criminoso, mesmo assim pode ter o uso indevido de imagem de um menor de idade, diz ele.<\/p>\n<p>Para a psic\u00f3loga Ceneide Cerveny, da PUC-SP, as situa\u00e7\u00f5es em que as crian\u00e7as s\u00e3o colocadas podem afet\u00e1-las no longo prazo &#8211; o que \u00e9 piorado quando os criadores dos v\u00eddeos s\u00e3o os pais.<\/p>\n<p>Para a crian\u00e7a ofendida, assustada, sempre faz mal. Ela pode perder a confian\u00e7a nos pais, que deveriam ser respons\u00e1veis por sua seguran\u00e7a. \u00c9 muito s\u00e9rio quando \u00e9 um pai assustando com coniv\u00eancia da m\u00e3e. Ambos s\u00e3o irrespons\u00e1veis e sem condi\u00e7\u00f5es de serem pais, fazendo isso para ganhar dinheiro e fama, diz.<\/p>\n<p>As brincadeiras abusivas trazem consequ\u00eancias como medo, estresse, ins\u00f4nia, falta de confian\u00e7a nos adultos e principalmente a vergonha da exposi\u00e7\u00e3o a que est\u00e3o sujeitos, acrescenta.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 o respons\u00e1vel legal que permite a exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica dessa crian\u00e7a. Por isso que a gente insiste na import\u00e2ncia de conscientizar o p\u00fablico. \u00c0s vezes os pais n\u00e3o t\u00eam nem ideia da repercuss\u00e3o que um v\u00eddeo pode ter. Dois, tr\u00eas anos depois, ele pode se tornar um conte\u00fado que vai motivar um cyberbullying contra a crian\u00e7a, diz Nejm.<br \/>\nPredadores sexuais<\/p>\n<p>Em alguns casos, a pr\u00f3pria plataforma indica esses v\u00eddeos perturbadores: o algoritmo que controla as indica\u00e7\u00f5es no YouTube mostra na aba lateral publica\u00e7\u00f5es parecidas com o que o usu\u00e1rio est\u00e1 vendo.<\/p>\n<p>Boa parte do problema est\u00e1 a\u00ed. Algumas das indica\u00e7\u00f5es de anima\u00e7\u00f5es com linguagem impr\u00f3pria e sem informa\u00e7\u00e3o de que o conte\u00fado \u00e9 inadequado para menores, por exemplo, aparecem se voc\u00ea est\u00e1 vendo v\u00eddeos de desenhos animados de verdade.<\/p>\n<p>Esse sistema de indica\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica acaba criando um submundo de v\u00eddeos chocantes. A partir do momento em que o algoritmo percebe que um usu\u00e1rio costuma ver esse tipo de conte\u00fado com crian\u00e7as, passa a alimentar esse gosto com v\u00eddeos parecidos.<\/p>\n<p>\u00c9 por meio das sugest\u00f5es que \u00e9 poss\u00edvel perceber tend\u00eancias problem\u00e1ticas &#8211; e at\u00e9 ind\u00edcios de pedofilia. Alguns v\u00eddeos s\u00e3o em si, inocentes. H\u00e1 dezenas deles que mostram meninas pequenas fazendo gin\u00e1stica, por exemplo. Mas as imagens em destaque de todos os v\u00eddeos relacionados indicados ao lado s\u00e3o das meninas em posi\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade, como com as pernas abertas.<br \/>\nImage caption Em um postagem com crian\u00e7as brincando, os v\u00eddeos relacionados mostram meninas em posi\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis | Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/YouTube<\/p>\n<p>H\u00e1 um fator de risco ao expor uma crian\u00e7a na internet. Um conte\u00fado que a priori n\u00e3o \u00e9 pornogr\u00e1fico pode se tornar. Uma crian\u00e7a quando se filma n\u00e3o tem erotismo, mas quando (o v\u00eddeo) \u00e9 exposto na maior pra\u00e7a p\u00fablica, est\u00e1 aberto a todo tipo de consumo, afirma Rodrigo Nejm, da Safernet.<\/p>\n<p>Os v\u00eddeos tamb\u00e9m t\u00eam dezenas de coment\u00e1rios predat\u00f3rios e com conte\u00fado sexual direcionado \u00e0s crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Em um dos casos &#8211; subido em um canal brasileiro &#8211; uma menina pequena pula na chuva com uma roupa branca. Um dos coment\u00e1rios diz: d\u00e1 para ver o peitinho dela hahah te adoro.<\/p>\n<p>Em outra filmagem subida no mesmo canal, a mesma crian\u00e7a dan\u00e7a pole dance ao redor de um poste vestindo um shorts e um top. J\u00e1 sabe subi (sic) no pau, diz um usu\u00e1rio.<\/p>\n<p>Boa parte das imagens com crian\u00e7as pequenas nessas situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o subidas com datas aleat\u00f3rias como t\u00edtulo &#8211; um nicho que inclui centenas de v\u00eddeos com meninas pequenas em roupas \u00edntimas, em roupas de banho ou com a calcinha aparecendo.<\/p>\n<p>Alguns t\u00eam milhares ou milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es. Um v\u00eddeo de 5 minutos de uma garota pequena filmada com as pernas abertas fazendo gin\u00e1stica, por exemplo, foi assistido 1,8 milh\u00e3o de vezes.<\/p>\n<p>Depois de ser questionado pela BBC sobre o conte\u00fado, o YouTube retirou diversos dos v\u00eddeos do ar e desabilitou a se\u00e7\u00e3o de coment\u00e1rios em outros.<\/p>\n<p>O site tem tentado combater o problema mais agressivamente desde o ano passado, quando finalmente tirou do ar diversos canais que recebiam reclama\u00e7\u00f5es de usu\u00e1rios havia anos.<\/p>\n<p>O YouTube diz que leva a seguran\u00e7a das crian\u00e7as muito a s\u00e9rio e que refor\u00e7ou suas pol\u00edticas sobre quais conte\u00fados s\u00e3o adequados para a plataforma ou que podem gerar receita pela exibi\u00e7\u00e3o de an\u00fancios.<\/p>\n<p>Investimos em nossos times e na tecnologia de machine learning para ampliar os esfor\u00e7os dos nossos revisores humanos em escala. Estamos aplicando o que aprendemos no combate a conte\u00fado extremista e violento no combate a conte\u00fado problem\u00e1tico, incluindo discurso de \u00f3dio e seguran\u00e7a das crian\u00e7as, diz a empresa, em nota.<\/p>\n<p>A plataforma afirma tamb\u00e9m que sua equipe trabalha muito pr\u00f3xima ao NCMEC (Centro Nacional para Crian\u00e7as Desaparecidas e Exploradas, entidade americana), IWF (Internet Watch Foundation), e outras organiza\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a \u00e0 crian\u00e7a ao redor do mundo, para relatar o comportamento e contas predat\u00f3rias aos \u00f3rg\u00e3os judici\u00e1rios competentes.<\/p>\n<p>Qualquer pessoa pode chamar a aten\u00e7\u00e3o da plataforma para um conte\u00fado impr\u00f3prio &#8211; basta clicar no menu de tr\u00eas pontinhos abaixo do v\u00eddeo e selecionar Denunciar. No entanto, nem sempre os usu\u00e1rios tem resposta sobre o caso e muitas vezes s\u00e3o necess\u00e1rias v\u00e1rias reclama\u00e7\u00f5es para um v\u00eddeo ser retirado do ar.<\/p>\n<p>Muitas vezes \u00e9 uma linha t\u00eanue entre o que \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o normal e uma abusiva, afirma Nejm.<\/p>\n<p>O Google, que \u00e9 dono do YouTube, reconhece a import\u00e2ncia de revisores humanos para tomar decis\u00f5es contextualizadas sobre o conte\u00fado. A empresa diz que tem ampliando sua equipe e que deve elevar, em 2018, para mais de 10 mil o n\u00famero de pessoas trabalhando para encontrar conte\u00fados que possam violar suas pol\u00edticas.<br \/>\nReceitas e an\u00fancios<\/p>\n<p>Al\u00e9m de cr\u00edticas de usu\u00e1rios e especialistas, a reclama\u00e7\u00e3o e at\u00e9 finaliza\u00e7\u00e3o de contratos de anunciantes que tinham suas propagandas exibidas antes de v\u00eddeos impr\u00f3prios &#8211; inclusive em filmes de grupos extremistas &#8211; tamb\u00e9m contribuiu para que a plataforma tomasse uma postura mais agressiva em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 modera\u00e7\u00e3o do conte\u00fado.<\/p>\n<p>O site diz que tem adotado medidas para proteger os anunciantes, como crit\u00e9rios mais r\u00edgidos e mais curadoria manual. Queremos que os anunciantes tenham a tranquilidade de ter seus an\u00fancios rodando ao lado de conte\u00fados que reflitam seus valores de marca. Igualmente, queremos dar aos criadores confian\u00e7a de que sua receita n\u00e3o ser\u00e1 prejudicada pelas a\u00e7\u00f5es question\u00e1veis de alguns, afirma o YouTube.<\/p>\n<p>Diante do volume de dados, e diante do tamanho do problema, tamb\u00e9m \u00e9 preciso que haja estrat\u00e9gias mais massivas de conscientiza\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, defende Rodrigo Nejm, da Safernet.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso educar melhor o usu\u00e1rio para ele perceber quando acaba alimentando esse tipo de conte\u00fado. H\u00e1 diversas situa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o banalidades do cotidiano \u00e0s quais as pessoas acabam se atraindo. \u00c9 preciso pensar, no entanto, em quem est\u00e1 promovendo isso. Se o canal explicitamente tem muitos v\u00eddeos do tipo, \u00e9 poss\u00edvel suspeitar que tem algo de errado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A plataforma de v\u00eddeos mais popular do mundo tem um problema s\u00e9rio com seu conte\u00fado: usu\u00e1rios t\u00eam publicado centenas de v\u00eddeos com crian\u00e7as em situa\u00e7\u00f5es \u00edntimas, violentas ou humilhantes e conseguido milhares de visualiza\u00e7\u00f5es com a explora\u00e7\u00e3o dessas imagens. 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