{"id":18196,"date":"2018-02-17T13:16:59","date_gmt":"2018-02-17T13:16:59","guid":{"rendered":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=18196"},"modified":"2018-02-17T13:16:59","modified_gmt":"2018-02-17T13:16:59","slug":"historiador-russo-luta-para-tirar-vitimas-de-stalin-do-esquecimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/historiador-russo-luta-para-tirar-vitimas-de-stalin-do-esquecimento\/","title":{"rendered":"Historiador russo luta para tirar v\u00edtimas de St\u00e1lin do esquecimento"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 30 anos, o historiador russo Anatoli Razumov trabalha para trazer \u00e0 tona os nomes daqueles que foram executados nos expurgos de St\u00e1lin em Leningrado, atual S\u00e3o Petersburgo, um trabalho que tirou milhares de v\u00edtimas do anonimato.<\/p>\n<p>N\u00e3o encontrei nenhuma l\u00f3gica. Era desumano e inexplic\u00e1vel, disse o historiador \u00e0 AFP depois de anos de um meticuloso trabalho, em meio a um ambiente de indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>O trabalho de mem\u00f3ria hist\u00f3rica continua sendo dif\u00edcil mais de 80 anos depois do apogeu do regime de terror de St\u00e1lin, o qual provocou a morte de milh\u00f5es de pessoas e enviou milh\u00f5es para trabalhar nos gulags em condi\u00e7\u00f5es insalubres, \u00e0 beira da morte por inani\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As autoridades russas &#8211; com o presidente Vladimir Putin \u00e0 frente &#8211; buscam minimizar essas p\u00e1ginas sombrias do passado, usando a carta da unidade nacional.<\/p>\n<p>Nos 13 volumes de Martirol\u00f3gio de Leningrado (tradu\u00e7\u00e3o literal em portugu\u00eas do t\u00edtulo original), redigidos desde 1987 sob a dire\u00e7\u00e3o de Razumov, est\u00e3o nomes, datas de nascimento e de \u00f3bito, ocupa\u00e7\u00e3o e destino daqueles que um dia desapareceram das ruas de Leningrado. Desvaneceram-se como se nunca tivessem existido.<\/p>\n<p>No melhor dos casos, seus familiares eram informados de sua condena\u00e7\u00e3o sem direito a receber correspond\u00eancia, mas sem nunca chegar a saber o que, de fato, aconteceu.<\/p>\n<p>Iniciei minhas investiga\u00e7\u00f5es em 1987, na \u00e9poca da Perestroika, assim que foi poss\u00edvel, contou Razumov \u00e0 AFP.<\/p>\n<p>Filho de um militar sovi\u00e9tico que n\u00e3o foi engolido pela repress\u00e3o, Razumov mergulhou na tarefa de prestar uma \u00faltima homenagem a esses homens e mulheres, sem importar sua ocupa\u00e7\u00e3o. Homens e mulheres que foram caluniados e executados durante esta \u00e9poca de terror.<\/p>\n<p>O escrit\u00f3rio de Razumov, de 62 anos, fica no centro da cidade, antiga capital imperial, dentro do enorme edif\u00edcio que abriga a Biblioteca Nacional.<\/p>\n<p>O local est\u00e1 repleto de arm\u00e1rios cheios de livros e de documentos que ele conseguiu recuperar. Entre eles, destacam-se os arquivos da Pol\u00edcia pol\u00edtica de St\u00e1lin, a NKVD. O historiador tamb\u00e9m tem em m\u00e3os os pap\u00e9is enviados pelas fam\u00edlias das v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Razumov mostra um deles: os trechos dos interrogat\u00f3rios e o veredicto do processo contra Nina Dubrovskaya, uma estudante de 28 anos procedente da Pol\u00f4nia. Foi acusada de ser uma espi\u00e3 polonesa e terminou executada em 11 de dezembro de 1937.<\/p>\n<p>&#8211; M\u00e1quina punitiva &#8211;<\/p>\n<p>O per\u00edodo conhecido como o Grande Terror durou cerca de um ano e meio, at\u00e9 o outono de 1938. As execu\u00e7\u00f5es tiveram um car\u00e1ter de massa: matava-se todas as noites. N\u00e3o havia tribunais, explica.<\/p>\n<p>Os acusados compareciam diante de pequenos comit\u00eas de duas, ou tr\u00eas, pessoas que pronunciavam o veredicto.<\/p>\n<p>Era uma verdadeira m\u00e1quina punitiva, conta.<\/p>\n<p>Segundo o historiador, nesse breve per\u00edodo de tempo, um plano de liquida\u00e7\u00e3o elaborado por St\u00e1lin e por seus subordinados provocou a morte de 40.000 pessoas.<\/p>\n<p>O historiador afirma que nunca recebeu muita ajuda do Estado, apontando que h\u00e1 uma indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos expurgos stalinistas. Em seu trabalho, enfrenta, muitas vezes, a hostilidade das autoridades &#8211; relata.<\/p>\n<p>Anatoli Razumov conta que acaba de viajar para Petrozavodsk, na Rep\u00fablica da Car\u00e9lia, pertencente \u00e0 R\u00fassia, para apoiar seu colega Yuri Dmitriyev, um historiador membro da ONG Memorial. Dmitriyev tamb\u00e9m \u00e9 conhecido por suas pesquisas sobre os desaparecidos desse per\u00edodo.<\/p>\n<p>Dmitriyev passou mais de um ano na pris\u00e3o por acusa\u00e7\u00f5es de pornografia infantil. A ONG denunciou essas acusa\u00e7\u00f5es como falsas, com \u00fanico objetivo de obstaculizar suas investiga\u00e7\u00f5es sobre o passado.<\/p>\n<p>As autoridades russas raramente fazem refer\u00eancia \u00e0 repress\u00e3o, e o presidente Vladimir Putin n\u00e3o assiste ao evento anual realizado pela organiza\u00e7\u00e3o sobre esse tema.<\/p>\n<p>Nesse contexto, muitos familiares ainda desconhecem o paradeiro de seus entes queridos, ou as acusa\u00e7\u00f5es que um dia pesaram contra eles.<\/p>\n<p>Razumov afirma que continuar\u00e1 sua pesquisa, sem se importar com a postura do Estado.<\/p>\n<p>Tenho a impress\u00e3o de trabalhar para eles, que, mais tarde, v\u00e3o querer compreender. Estou fazendo isso e vou continuar o que tenho de fazer, apesar de tudo, completou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 30 anos, o historiador russo Anatoli Razumov trabalha para trazer \u00e0 tona os nomes daqueles que foram executados nos expurgos de St\u00e1lin em Leningrado, atual S\u00e3o Petersburgo, um trabalho que tirou milhares de v\u00edtimas do anonimato. N\u00e3o encontrei nenhuma l\u00f3gica. 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