{"id":17557,"date":"2018-02-17T11:50:26","date_gmt":"2018-02-17T11:50:26","guid":{"rendered":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=17557"},"modified":"2018-02-17T11:50:26","modified_gmt":"2018-02-17T11:50:26","slug":"ancine-diz-que-nenhuma-mulher-negra-produziu-ou-dirigiu-filmes-nacionais-em-2016","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/ancine-diz-que-nenhuma-mulher-negra-produziu-ou-dirigiu-filmes-nacionais-em-2016\/","title":{"rendered":"Ancine diz que nenhuma mulher negra produziu ou dirigiu filmes nacionais em 2016"},"content":{"rendered":"<p>A popula\u00e7\u00e3o brasileira tem 51% de mulheres e 54% de negros, mas os homens brancos dirigiram 75,4% dos longas-metragens nacionais lan\u00e7ados comercialmente em 2016, um total de 142 filmes. Na outra ponta da tabela, as mulheres negras n\u00e3o assinaram a dire\u00e7\u00e3o, o roteiro ou a produ\u00e7\u00e3o executiva de nenhum filme nacional naquele ano.<\/p>\n<p>Os dados foram apresentados hoje (25) pela Ag\u00eancia Nacional de Cinema (Ancine) e fazem parte do estudo Diversidade de G\u00eanero e Ra\u00e7a nos lan\u00e7amentos brasileiros de 2016.<\/p>\n<p>A pesquisa levantou 1.326 profissionais \u2013 atuando na dire\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o e como atores &#8211; envolvidos nos 142 longas lan\u00e7ados comercialmente em 2016. No recorte de g\u00eanero, 62% eram homens e 38%, mulheres. J\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ra\u00e7a, 71% foram identificados como brancos, 5% como pretos e 3% como pardos, segundo a terminologia do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). Nenhum ind\u00edgena foi contabilizado essas produ\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o foi poss\u00edvel determinar a ra\u00e7a de 21% dos profissionais.<\/p>\n<p>A defini\u00e7\u00e3o da cor da pele dos profissionais foi feita por dois analistas, que, quando entravam em diverg\u00eancia, submetiam a classifica\u00e7\u00e3o a uma comiss\u00e3o de sete pessoas.<\/p>\n<p>O estudo concluiu que 75,4% dos diretores desses longas s\u00e3o homens brancos e 19,7%, mulheres brancas. Os homens negros, por outro lado, dirigiram 2,1%, e as mulheres  negras n\u00e3o assinaram a dire\u00e7\u00e3o de nenhum dos 142 filmes. <\/p>\n<p>O roteiro desses filmes tamb\u00e9m foi escrito principalmente por homens brancos (59,9%), mulheres brancas (16,2%) e parcerias entre homens brancos e mulheres brancas (16,9%).  Os homens negros foram roteiristas em 2,1% dos filmes e estiveram em parcerias com homens brancos em 3,5%. Os longas-metragens brasileiros lan\u00e7ados em 2016 tamb\u00e9m n\u00e3o tiveram nenhuma mulher negra como roteirista, segundo a pesquisa. <\/p>\n<p>Na produ\u00e7\u00e3o executiva dos filmes, as mulheres brancas (36,9%) ficaram \u00e0 frente dos homens brancos (26,2%). Parcerias entre mulheres e homens brancos realizaram mais 26,2% dos filmes. Os homens negros permaneceram no percentual de 2,1% nesta fun\u00e7\u00e3o, e as mulheres negras, mais uma vez, foram totalmente exclu\u00eddas.<\/p>\n<p>Defensora das mulheres negras no Brasil pela ONU Mulheres, a atriz, roteirista e diretora negra Kenia Maria destaca que \u00e9 preciso abrir espa\u00e7o para que novas narrativas transformem o imagin\u00e1rio da popula\u00e7\u00e3o sobre o negro no Brasil. T\u00eam milhares de hist\u00f3rias que n\u00e3o est\u00e3o sendo contadas. E o mais graves \u00e9 que, na maioria das vezes, quando elas s\u00e3o contadas, elas s\u00e3o contadas por brancos, diz ela. \u201cSe a gente respeita a diversidade do Brasil, s\u00e3o mais de 110 milh\u00f5es de habitantes [negros], e a gente precisa ser ouvido, a gente tem hist\u00f3ria bonita pra contar\u201d.<\/p>\n<p>Desigualdade nos elencos<\/p>\n<p>A desigualdade racial apontada nas fun\u00e7\u00f5es de realiza\u00e7\u00e3o no cinema brasileiro continua quando observado o elenco principal dos filmes. Segundo a Ancine, apenas 13,3% do elenco dos 142 filmes eram formados por pretos e pardos.<\/p>\n<p>De acordo com a pesquisa, 42% dos filmes lan\u00e7ados no Brasil em 2016 n\u00e3o tiveram ator ou atriz negro ou negra no elenco principal, e 33% dos longas foram filmados com apenas 1% a 20% de negros. Somente 9% dos filmes t\u00eam ao menos 41% dos pap\u00e9is principais ocupados por negros, que representam 54% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Financiamento p\u00fablico<\/p>\n<p>A cineasta Sabrina Fidalgo acompanhou a apresenta\u00e7\u00e3o dos dados e pediu a palavra para lembrar que muitos desses filmes recebem recursos p\u00fablicos, pagos tamb\u00e9m pela popula\u00e7\u00e3o negra que fica de fora deles.<\/p>\n<p>Esses filmes s\u00e3o, em sua maioria, financiados pela Ancine com dinheiro p\u00fablico, e, sendo a popula\u00e7\u00e3o negra a maioria no pa\u00eds, a conclus\u00e3o que se chega \u00e9 que pessoas negras patrocinam filmes em que elas n\u00e3o s\u00e3o representadas. A popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 mecenas de filmes de realizadores brancos, filmes excludentes racialmente ou por quest\u00f5es de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Segundo a pesquisa, 61,3% dos filmes analisados tiveram recursos de incentivo, sejam eles diretos ou indiretos. Apesar de a presen\u00e7a de mulheres ser maior entre esses filmes, a de negros fica ainda menor.<\/p>\n<p>Os dados mostram que 100% dos filmes incentivados foram dirigidos por brancos e 98% tamb\u00e9m foram roteirizados por brancos. Entre os filmes n\u00e3o incentivados, 94% dos diretores s\u00e3o brancos, e 93% dos roteiristas tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de negros na dire\u00e7\u00e3o dos filmes, segundo a Ancine, aumenta as chances de haver mais atores e atrizes negras em 65,8%. Quando o roteirista \u00e9 um homem ou uma mulher negra, as chances aumentam em 52,5%.<\/p>\n<p>Corrigindo diferen\u00e7as<\/p>\n<p>Para o cineasta mineiro Joel Zito, \u00e9 preciso adotar uma medida semelhante a que foi tomada para reduzir as desigualdades entre os incentivos \u00e0 produ\u00e7\u00e3o audiovisual do Sudeste e das outras regi\u00f5es do pa\u00eds. A ag\u00eancia j\u00e1 trabalha com indutores regionais que determinam a participa\u00e7\u00e3o de projetos do Norte, Nordeste e Centro-Oeste em editais, respeitando exig\u00eancias t\u00e9cnicas.<\/p>\n<p>\u201cA Ancine j\u00e1 tem experi\u00eancia em corrigir desigualdades, e o que estou pleiteando \u00e9 que essa experi\u00eancia seja aplicada pra corrigir essa desigualdade de g\u00eanero e ra\u00e7a\u201d, argumentou o cineasta, que considera inadmiss\u00edvel o n\u00edvel de desigualdade entre negros e brancos no cinema brasileiro. N\u00e3o se trata de criar pol\u00edticas para minorias. Se trata de criar pol\u00edticas para a maioria. A maioria est\u00e1 exclu\u00edda.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio do audiovisual do Minist\u00e9rio da Cultura, Jo\u00e3o Batista Silva, tamb\u00e9m assistiu \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o e reconheceu que \u201ch\u00e1 uma d\u00edvida hist\u00f3rica com a popula\u00e7\u00e3o negra, e uma d\u00edvida cultural com a quest\u00e3o de g\u00eanero\u201d. Ele afirmou que o assunto ser\u00e1 discutido na pr\u00f3xima reuni\u00e3o do Conselho Superior de Cinema, em 6 de fevereiro, e que o pr\u00f3ximo edital da Secretaria de Audiovisual trar\u00e1 a\u00e7\u00f5es nesse sentido j\u00e1 em 7 de fevereiro.<\/p>\n<p>Estamos finalizando um grande programa de fomento da Secretaria de Audiovisual que ser\u00e1 lan\u00e7ado nos pr\u00f3ximos dias. Esse programa ter\u00e1, sim, resposta para essas quest\u00f5es. Ter\u00e1 ali um tratamento bastante significativo e realista para essa quest\u00e3o, prometeu.<\/p>\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: Davi Oliveira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A popula\u00e7\u00e3o brasileira tem 51% de mulheres e 54% de negros, mas os homens brancos dirigiram 75,4% dos longas-metragens nacionais lan\u00e7ados comercialmente em 2016, um total de 142 filmes. 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