{"id":13308,"date":"2018-01-24T00:04:00","date_gmt":"2018-01-24T00:04:00","guid":{"rendered":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=13308"},"modified":"2018-01-24T20:40:00","modified_gmt":"2018-01-24T20:40:00","slug":"manifestantes-contrarios-a-lula-fazem-carreata-na-zona-sul-do-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/manifestantes-contrarios-a-lula-fazem-carreata-na-zona-sul-do-rio\/","title":{"rendered":"Brasileira presa na S\u00edria por 21 dias: \u201cEu era feliz e n\u00e3o sabia\u201d"},"content":{"rendered":"<p>\u201c\u00c0s vezes n\u00e3o gosto de falar sobre essa hist\u00f3ria, porque \u00e9 tristeza demais, muito arrependimento\u201d, diz Juliana Cruz pouco menos de tr\u00eas meses ap\u00f3s desembarcar no Brasil depois de 21 dias presa em um centro de deten\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia na <strong><a href=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/noticias-sobre\/siria\">S\u00edria<\/a><\/strong>.<\/p>\n<p>A auxiliar administrativa de 24 anos deixou <strong>Cuiab\u00e1<\/strong> e viajou para <strong>Damasco<\/strong> em 13 de novembro em busca de \u201cuma aventura\u201d: sua primeira viagem internacional. Durante uma campanha de arrecada\u00e7\u00e3o de fundos para refugiados e soldados daquele pa\u00eds na capital do Mato Grosso, conheceu uma fam\u00edlia de s\u00edrios pela internet \u2013com quem conversava por meio de ferramentas de tradu\u00e7\u00e3o online\u2013, que a convidou para passar 15 dias em sua casa e mostrar a realidade do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cV\u00e1rias pessoas me ajudaram na campanha. Paguei uma cirurgia para um soldado amigo dessa fam\u00edlia e depois continuamos conversando por mensagem\u201d, conta Juliana. \u201cFoi quando eles me convidaram para ir para l\u00e1, ver tudo de perto. Quis me aventurar, n\u00e3o tenho filho, nada que me prenda\u201d, diz.<\/p>\n<div class=\"quote-box with-author\">\n<p>\u201cEu era feliz e n\u00e3o sabia.\u201d<\/p>\n<p><strong class=\"author\">\u2014 Juliana Cruz<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>Juliana n\u00e3o podia imaginar que seria presa sem justificativas e mantida em celas min\u00fasculas, comendo nada mais que uma fruta a cada cinco dias. \u201cEu era feliz e n\u00e3o sabia\u201d, diz. \u201cPesquisei sobre a cidade e sobre o caminho que percorreria, mas n\u00e3o foquei na situa\u00e7\u00e3o do governo, na hierarquia do pa\u00eds. Esse foi meu erro\u201d, admite.<\/p>\n<p>Amigas pr\u00f3ximas da jovem suspeitavam que ela teria se apaixonado por um dos s\u00edrios com quem conversava pela Internet, um rapaz chamado Zakharia. Chegaram inclusive a dizer que Juliana viajou para se casar. Mas ela nega essa vers\u00e3o e aponta para o fato de que mantinha um relacionamento de<\/p>\n<p>quatro anos em Cuiab\u00e1 \u2014 o namorado rompeu com ela ap\u00f3s a viagem por suspeitar da vers\u00e3o das amigas.<\/p>\n<h3>A viagem<\/h3>\n<p>Juliana pediu para uma colega de trabalho comprar as passagens em seu nome: 5.200 reais parcelados em oito vezes. N\u00e3o contou para a fam\u00edlia ou namorado o destino de suas f\u00e9rias. Para sua m\u00e3e, disse que iria ao <strong><a href=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/noticias-sobre\/libano\/\">L\u00edbano<\/a><\/strong>. \u201cSe eu soubesse para onde estava indo acorrentava ela, bloqueava a passagem\u201d, diz a m\u00e3e, K\u00e1tia Oliveira, de 46 anos.<\/p>\n<p>Para poder viajar, tirou o visto de turismo na embaixada s\u00edria em Bras\u00edlia. \u201cDeram um visto em 20 minutos. Pensei que tudo devia estar tranquilo mesmo no pa\u00eds, n\u00e3o dificultarem em nada\u201d, afirma a mo\u00e7a, que tamb\u00e9m ouviu de seus amigos s\u00edrios que a viagem seria segura.<\/p>\n<div class=\"quote-box with-author\">\n<p>\u201cQuis me aventurar, n\u00e3o tenho filho, nada que me prenda.\u201d<\/p>\n<p><strong class=\"author\">\u2014 Juliana Cruz<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>Na madrugada do dia 16 de novembro, Juliana desembarcou em Beirute, capital do L\u00edbano, pa\u00eds vizinho \u00e0 S\u00edria. Ali, encontraria uma guia brasileira, Carla Mussallam, que a ajudaria na tradu\u00e7\u00e3o e no seu primeiro dia no Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>A guia vinha insistentemente advertindo Juliana de que, ao contr\u00e1rio do que seus contatos haviam informado, a viagem \u00e0 S\u00edria era muito perigosa. No \u00faltimo minuto, no entanto, a mato-grossense desistiu da ajuda de Carla e acabou viajando sozinha de carro at\u00e9 Damasco, capital da S\u00edria, com um vizinho da fam\u00edlia que visitaria \u2014 um trajeto que em condi\u00e7\u00f5es normais levaria pouco mais de duas horas.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s passar por diversos postos de controle militar libaneses e s\u00edrios para a confer\u00eancia do passaporte e do visto, Juliana finalmente chegou a seu destino ainda na manh\u00e3 do dia 16, onde toda a fam\u00edlia j\u00e1 aguardava por ela. \u201cMe trataram muito bem\u201d, conta Juliana. Entretanto, as f\u00e9rias da brasileira duraram muito pouco: ela foi presa naquele mesmo dia, \u00e0 noite, quando um oficial do Ex\u00e9rcito compareceu \u00e0 casa em que estava hospedada e pediu que ela o acompanhasse para mais uma checagem de documentos.<\/p>\n<p>Juliana foi levada a uma base militar, tamb\u00e9m em Damasco, e logo em seguida a um centro prisional. \u201cN\u00e3o tinham motivos para me prender. Eu n\u00e3o fiz nada, tinha visto, passaporte, estava legal\u201d, diz a jovem, reconhecendo que suas expectativas quanto a uma viagem tur\u00edstica no pa\u00eds estavam totalmente erradas.<\/p>\n<p>Juliana conta que Zakharia seria membro do Ex\u00e9rcito s\u00edrio e que no momento de sua deten\u00e7\u00e3o chegaram a mostrar-lhe fotos do rapaz. A jovem desconfia que estava sendo vigiada justamente por estar hospedada na casa de um militar.<\/p>\n<h3>Pris\u00e3o<\/h3>\n<p>Juliana foi mantido em dois centros de deten\u00e7\u00e3o diferentes. No primeiro, dividia a cela com outras 45 mulheres, entre elas oito gr\u00e1vidas. O local era extremamente iluminado e vigiado 24 horas por c\u00e2meras, segundo conta. Sem camas ou cadeiras, passava o dia sentada no ch\u00e3o, de c\u00f3coras.<\/p>\n<p>N\u00e3o conseguia comer a refei\u00e7\u00e3o \u00e1rabe oferecida todos os dias, servida em uma grande bacia para ser compartilhada. \u201cTentei comer quando cheguei, no meu limite de fome, mas vomitava\u201d, conta. \u201cEnt\u00e3o me davam uma laranja, dia sim dia n\u00e3o\u201d, diz a jovem, que tamb\u00e9m bebia \u00e1gua da pia do banheiro que ficava na cela e tomava o tradicional ch\u00e1 \u00e1rabe todas as manh\u00e3s.<\/p>\n<div class=\"quote-box with-author\">\n<p>\u201cAli era bem pior, muito mais rigoroso e s\u00f3 me davam uma laranja a cada cinco dias.\u201d<\/p>\n<p><strong class=\"author\">\u2014 Juliana Cruz<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>Depois de oito dias, foi transferida para outra pris\u00e3o, dessa vez no centro de intelig\u00eancia de Kfar Sussa, uma zona administrativa de Damasco. \u201cAli era bem pior, muito mais rigoroso e s\u00f3 me davam uma laranja a cada cinco dias\u201d, diz Juliana, contando que dividiu a cela min\u00fascula, sem janelas e banheiro com 18 mulheres e 9 crian\u00e7as. \u201cEra bem abafada, fiquei sufocada e passei mal v\u00e1rias vezes\u201d, relata. \u201cAs carcereiras nos davam rem\u00e9dio para dormir e ficarmos quietas, mas eu sempre cuspia\u201d.<\/p>\n<p>Passou 13 dias confinada ali, sem poder conversar e sob constante amea\u00e7a das carcereiras. \u201cElas batiam em quem falasse muito. At\u00e9 mesmo nas crian\u00e7as\u201d, afirma. Apesar disso, conseguiu fazer algumas amizades. \u201cAs outras presas me ajudavam, at\u00e9 me davam os gominhos das laranjas delas\u201d, contou. Ainda assim, emagreceu 7 quilos durante os 21 dias em que ficou detida.<\/p>\n<h3>Resgate<\/h3>\n<p>Depois de tr\u00eas dias sem conseguir contactar a filha, K\u00e1tia j\u00e1 estava desesperada. Acionou a Pol\u00edcia Federal no Mato Grosso, mas foi informada que ainda era muito cedo para a abertura de uma investiga\u00e7\u00e3o. Buscou ent\u00e3o a ajuda do Itamaraty e da embaixada brasileira na S\u00edria.<\/p>\n<p>\u201cFiquei sem comer, sem beber e sem dormir\u201d, conta K\u00e1tia, que s\u00f3 descobriu que a filha estava na S\u00edria dias ap\u00f3s seu desaparecimento. \u201cA cada dia as not\u00edcias pioravam. N\u00e3o desejo isso para m\u00e3e nenhuma\u201d. A fam\u00edlia que Juliana conheceu na S\u00edria n\u00e3o deu informa\u00e7\u00f5es para a fam\u00edlia da jovem e s\u00f3 contou que ela estava na pris\u00e3o muitos dias ap\u00f3s sua deten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div class=\"quote-box with-author\">\n<p>\u201cMuitas pessoas disseram que passei por tudo isso porque colhi o que plantei. Mas isso n\u00e3o \u00e9 verdade, fiz tudo de cora\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p><strong class=\"author\">\u2014 Juliana Cruz<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>A embaixada em Damasco conseguiu localizar Juliana ap\u00f3s muita procura. A princ\u00edpio, as autoridades s\u00edrias negavam que houvesse uma brasileira presa no pa\u00eds. Diplomatas brasileiros acionaram ent\u00e3o contatos mais altos na hierarquia local, que\u00a0passaram a auxiliar na busca pela jovem e a negociar sua libera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim que deixou sua cela, Juliana foi levada ao Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do governo de Bashar Al-Assad, onde o vice-ministro do exterior do pa\u00eds, Faisal Mekdad, aguardava pela jovem juntamente com tr\u00eas diplomatas brasileiros. Segundo Juliana, ele pediu desculpas \u00e0 mo\u00e7a pelo ocorrido e garantiu que entraria em contato no futuro,\u00a0ap\u00f3s a guerra, para convid\u00e1-la a conhecer seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>Juliana voltou ao Brasil no dia 6 de novembro. Foi internada no hospital e fez uma bateria de exames para detectar poss\u00edveis infec\u00e7\u00f5es no organismo. Ficou dias sem conseguir se alimentar direito e ainda tem crises de choro constante. Trancou o quinto semestre de direito que cursava em uma faculdade de Cuiab\u00e1 e deixou seu trabalho na Associa\u00e7\u00e3o Mato-Grossense dos Munic\u00edpios. \u201cMuitas pessoas disseram que passei por tudo isso porque colhi o que plantei. Mas isso n\u00e3o \u00e9 verdade, fiz tudo de cora\u00e7\u00e3o\u201d, garante.<\/p>\n<div class=\"quote-box with-author\">\n<p>\u201cEla foi avisada. Mas ela \u00e9 jovem e quis se aventurar, infelizmente acabou nessa situa\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p><strong class=\"author\">\u2014 Carla Mussallam, guia tur\u00edstica brasileira no L\u00edbano<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>Quando a embaixada brasileira recuperou os pertences da casa em que ficou hospedada em Damasco, muitas coisas estavam faltando: celular e outros eletr\u00f4nicos, roupas e 2.000 d\u00f3lares que havia enviado por transfer\u00eancia eletr\u00f4nica e que foram sacados no pa\u00eds para serem entregues a Juliana. \u201cN\u00e3o tenho mais contato com a fam\u00edlia, mas n\u00e3o guardo m\u00e1goas\u201d, afirma a jovem, que agora desconfia das inten\u00e7\u00f5es dos s\u00edrios que a convidaram para ficar em sua casa.<\/p>\n<p>A guia brasileira, Carla Mussallam, que ajudaria Juliana em sua chegada ao L\u00edbano, conta que alertou a jovem para os perigos de viajar \u00e0 S\u00edria e tentou dissuadi-la da viagem. \u201cEla foi avisada. Mas ela \u00e9 jovem e quis se aventurar, infelizmente acabou nessa situa\u00e7\u00e3o\u201d, diz.<\/p>\n<p>Alguns outros poucos brasileiros foram presos na S\u00edria nos \u00faltimos anos. Entre eles est\u00e3o o fot\u00f3grafo Gabriel Chaim e o jornalista Klester Cavalcanti, que passou seis dias detido em Alepo. Os dois viajavam a trabalho.<\/p>\n<p>Assim como Juliana, muitas mulheres s\u00e3o ludibriadas por pessoas que conhecem na Internet e acabam em situa\u00e7\u00f5es de dificuldade ao viajarem para o exterior ou ao fazerem dep\u00f3sitos banc\u00e1rios para supostos conhecidos.<\/p>\n<p>Uma pessoa pr\u00f3xima \u00e0 jovem que n\u00e3o quis se identificar diz crer que talvez Juliana tenha sido ing\u00eanua ao n\u00e3o compreender poss\u00edveis segundas inten\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia: \u201ctalvez para o rapaz s\u00edrio existisse uma chance amorosa ou dele conseguir vir para o Brasil, talvez tudo tenha sido um golpe\u201d.<\/p>\n<p>A Pol\u00edcia Federal do Mato Grosso ainda investiga o caso da jovem de Cuiab\u00e1. A empresa para a qual Juliana trabalhava cedeu seu laptop \u00e0 per\u00edcia. As autoridades buscam agora mais pistas que expliquem o motivo da viagem \u201cde f\u00e9rias\u201d da estudante para um pa\u00eds t\u00e3o conflagrado e em ebuli\u00e7\u00e3o como a S\u00edria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c\u00c0s vezes n\u00e3o gosto de falar sobre essa hist\u00f3ria, porque \u00e9 tristeza demais, muito arrependimento\u201d, diz Juliana Cruz pouco menos de tr\u00eas meses ap\u00f3s desembarcar no Brasil depois de 21 dias presa em um centro de deten\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia na S\u00edria. 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