{"id":13074,"date":"2018-01-21T16:28:04","date_gmt":"2018-01-21T16:28:04","guid":{"rendered":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=13074"},"modified":"2018-01-22T16:02:30","modified_gmt":"2018-01-22T16:02:30","slug":"carmen-lucia-julgara-recurso-contra-posse-de-cristiane-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/carmen-lucia-julgara-recurso-contra-posse-de-cristiane-brasil\/","title":{"rendered":"&#8216;As chances do v\u00edrus da febre amarela se espalhar pela metr\u00f3pole s\u00e3o bastante remotas&#8217;"},"content":{"rendered":"<div id=\"pub-in-text\" class=\"outstream clearfix\">\n<p>Considerado um dos principais especialistas em febre amarela no mundo, o virologista brasileiro Pedro da Costa Vasconcelos diz ter fortes raz\u00f5es para acreditar que o atual surto silvestre da doen\u00e7a n\u00e3o dever\u00e1 evoluir para uma epidemia urbana.<\/p>\n<p>Em entrevista ao <strong>Estado<\/strong>, o cientista, que dirige o Instituto Evandro Chagas, em Ananindeua (PA), explicou que o <em>Aedes aegypti<\/em> &#8211; o mosquito que tem a capacidade de transmitir a doen\u00e7a nas cidades &#8211; n\u00e3o \u00e9 um bom vetor para o v\u00edrus da febre amarela, embora seja muito eficiente para multiplicar os v\u00edrus da zika, da dengue e da chikungunya.<\/p>\n<p>Os \u00faltimos casos urbanos foram registrados h\u00e1 mais de 80 anos, quando a popula\u00e7\u00e3o de <em>Aedes aegypti <\/em>era muito maior e pertencia a uma linhagem africana mais apta \u00e0 transmiss\u00e3o da febre amarela do que a linhagem asi\u00e1tica que existe hoje no Pa\u00eds, de acordo com Vasconcelos.<\/p>\n<p>Segundo o cientista, com parte da popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 vacinada, com uma linhagem do mosquito menos apta a espalhar a doen\u00e7a e reduzida pelas medidas de controle tomadas por causa dos outros v\u00edrus, um tr\u00e1gico alastramento da febre amarela pelas grandes metr\u00f3poles como S\u00e3o Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro seria improv\u00e1vel. A vigil\u00e2ncia, ainda assim, \u00e9 absolutamente indispens\u00e1vel, de acordo com ele.<\/p>\n<p>Membro titular da Academia Brasileira de Ci\u00eancias e do Comit\u00ea de Febre Amarela da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade, Vasconcelos tamb\u00e9m coordena o Instituto Nacional de Ci\u00eancia e Tecnologia para Febres Hemorr\u00e1gicas Virais.<\/p>\n<p>M\u00e9dico de forma\u00e7\u00e3o, ele tem mais de 250 artigos cient\u00edficos publicados e participou diretamente da descoberta de mais de 100 novos v\u00edrus.<\/p>\n<p><strong>J\u00e1 estamos acostumados com epidemias de v\u00edrus transmitidos por mosquitos no ver\u00e3o. Em que esse surto de febre amarela se diferencia das epidemias de dengue, chikungunya e zika que vimos nos \u00faltimos anos?<\/strong><\/p>\n<p>Os seis v\u00edrus urbanos competem entre si: os quatro subtipos da dengue, o da zika e o da chikungunya. Com o v\u00edrus da febre amarela \u00e9 diferente. Ele \u00e9 predominantemente silvestre e h\u00e1 mais de 80 anos n\u00e3o temos casos urbanos no Brasil. A altern\u00e2ncia dos v\u00edrus de maior preval\u00eancia a cada temporada \u00e9 natural &#8211; \u00e9 uma quest\u00e3o evolutiva do v\u00edrus. H\u00e1 um termo em ingl\u00eas para essa din\u00e2mica: &#8220;shift&#8221;. Quando h\u00e1 um surto de determinado v\u00edrus, as pessoas s\u00e3o infectadas e ficam imunes, o que vai reduzindo o n\u00famero de suscet\u00edveis. Um outro v\u00edrus ent\u00e3o assume a posi\u00e7\u00e3o, \u00e0 medida que vai encontrando pessoas suscet\u00edveis. Assim, os subtipos do v\u00edrus da dengue, por exemplo, v\u00e3o se alternando. H\u00e1 alguns anos, no Nordeste, depois de uma epidemia muito intensa, a popula\u00e7\u00e3o suscet\u00edvel n\u00e3o se esgotou, mas foi reduzida e diminuiu muito a capacidade do v\u00edrus se manter circulando. O mesmo aconteceu com a chikungunya &#8211; que, no entanto, teve comportamento diferente e n\u00e3o explodiu como a zika e a dengue, mas continua circulando. A zika tamb\u00e9m passou por esse processo e o n\u00famero de infec\u00e7\u00f5es caiu, mas esse v\u00edrus voltar\u00e1 a dar problema dentro de oito ou 10 anos, quando a popula\u00e7\u00e3o de suscet\u00edveis for renovada.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o j\u00e1 teria sido poss\u00edvel prever tamb\u00e9m este surto de febre amarela?<\/strong><\/p>\n<p>Sim e n\u00e3o. Sim, porque ele est\u00e1 ocorrendo em \u00e1reas muito pr\u00f3ximas de onde ocorreu no passado. Era poss\u00edvel prever que o v\u00edrus continuaria a circular nessas \u00e1reas e que poderia reemergir em fun\u00e7\u00e3o da quantidade de macacos. Quando h\u00e1 muitos macacos, h\u00e1 muitos mosquitos <em>Hemagogus<\/em> (um dos transmissores da febre amarela silvestre), que ir\u00e3o infect\u00e1-los. O macaco infectado pode transferir o v\u00edrus para centenas de <em>Hemagogous<\/em>, que o transmitem ao longo de toda sua vida. E h\u00e1 transmiss\u00e3o vertical, isto \u00e9, a f\u00eamea passa o v\u00edrus para parte dos seus ovos que, quando eclodem, j\u00e1 d\u00e3o origem a mosquitos infectados. Por outro lado, o surto n\u00e3o era previsto porque se esperava que houvesse uma vacina\u00e7\u00e3o mais intensa nessas \u00e1reas. Aparentemente essa vacina\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorreu, n\u00e3o sei por qual raz\u00e3o. Estou acompanhando de longe a epidemia no Sudeste. Mas se a\u00a0maior parte da popula\u00e7\u00e3o estivesse vacinada, n\u00e3o haveria tantos casos e, principalmente, n\u00e3o haveria tantas mortes.<\/p>\n<p><strong>A mortalidade est\u00e1 maior que a normal?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, est\u00e1 at\u00e9 mais baixa. No ano passado, tivemos cerca de 770 casos, com 291 \u00f3bitos, uma letalidade de aproximadamente 30%. A letalidade m\u00e9dia no Brasil \u00e9 de 50% entre os casos notificados. Se o diagn\u00f3stico pudesse ser feito em todas as pessoas infectadas, estimo que a letalidade giraria entre 10% e 20% dos casos confirmados.<\/p>\n<p><strong>Na sua opini\u00e3o, quais s\u00e3o os riscos reais desse surto de febre amarela se tornar uma epidemia urbana na metr\u00f3pole paulista? <\/strong><\/p>\n<p>Quantificar riscos \u00e9 um tanto dif\u00edcil, porque envolve uma s\u00e9rie de vari\u00e1veis que precisam ser analisadas. N\u00e3o tenho como fazer uma estimativa s\u00f3lida, mas, teoricamente, podemos fazer uma avalia\u00e7\u00e3o comparando o que ocorreu no passado e o que ocorre hoje. Nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20 &#8211; at\u00e9 1930, quando a \u00faltima grande epidemia de febre amarela urbana foi debelada no Estado do Rio de Janeiro, t\u00ednhamos um \u00edndice muito alto de infesta\u00e7\u00e3o. Mas a quantidade de mosquitos era muito maior que agora e certamente podemos dizer que as condi\u00e7\u00f5es atuais n\u00e3o permitem uma epidemia t\u00e3o severa. N\u00e3o temos essa quantidade de mosquitos hoje no Brasil, porque temos um controle do vetor urbano. Embora n\u00e3o se consiga impedir uma epidemia de dengue, zika, ou chikungunya, conseguimos evitar a transmiss\u00e3o humana do v\u00edrus da febre amarela. Isso acontece porque, no <em>Aedes aegypti<\/em>, esse v\u00edrus n\u00e3o se replica de forma t\u00e3o eficiente quanto os outros tr\u00eas. Tanto \u00e9 que os \u00edndices de infesta\u00e7\u00e3o no Brasil costumam ficar em 5%, chegando no m\u00e1ximo a 10% em alguns locais. Esses n\u00fameros nos d\u00e3o quase a certeza de que n\u00e3o teremos um surto de febre amarela urbana.<\/p>\n<p><strong>Gra\u00e7as \u00e0 limita\u00e7\u00e3o do v\u00edrus da febre amarela para infectar o <em>Aedes aegyti<\/em>?<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, grande parte da popula\u00e7\u00e3o pode dispor a vacina &#8211; mesmo fracionada &#8211; em um eventual in\u00edcio de transmiss\u00e3o urbana. Isso nos permite agir prontamente e acabar com a situa\u00e7\u00e3o de forma r\u00e1pida, vacinando a popula\u00e7\u00e3o rapidamente, eliminando criadouros e borrifando mosquitos adultos. Essa foi a experi\u00eancia que tivemos em um pequeno surto de febre amarela que houve na regi\u00e3o metropolitana de Assun\u00e7\u00e3o, em 2008. Com essas medidas, rapidamente o v\u00edrus foi debelado e o aumento do n\u00famero de casos foi detido. Mesmo assim, l\u00e1 foi estimado, na \u00e9poca, logo no in\u00edcio da epidemia, que os \u00edndices eram de cerca de 20%. A gente imagina que isso n\u00e3o v\u00e1 ocorrer no Brasil. Como hoje o controle vetorial e a vacina\u00e7\u00e3o s\u00e3o descentralizados, atribu\u00eddos aos munic\u00edpios, temos que estar alertas, porque se um munic\u00edpio em uma \u00e1rea complexa, como as regi\u00f5es metropolitanas de S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, n\u00e3o fizer o combate como deveria, os \u00edndices de infesta\u00e7\u00e3o sobem e, ao mesmo tempo, o local come\u00e7a a escoar a popula\u00e7\u00e3o de mosquitos para os munic\u00edpios vizinhos. Os gestores de cada unidade da federa\u00e7\u00e3o devem ficar atentos. Mas tenho certa tranquilidade para dizer que, efetivamente, n\u00e3o vamos vivenciar um surto de febre amarela urbana no Brasil.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Considerado um dos principais especialistas em febre amarela no mundo, o virologista brasileiro Pedro da Costa Vasconcelos diz ter fortes raz\u00f5es para acreditar que o atual surto silvestre da doen\u00e7a n\u00e3o dever\u00e1 evoluir para uma epidemia urbana. 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