{"id":12370,"date":"2018-01-19T16:53:46","date_gmt":"2018-01-19T16:53:46","guid":{"rendered":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=12370"},"modified":"2018-01-19T16:53:46","modified_gmt":"2018-01-19T16:53:46","slug":"pesquisador-haitiano-da-ufrj-leva-projeto-de-moradias-populares-ao-pais-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/pesquisador-haitiano-da-ufrj-leva-projeto-de-moradias-populares-ao-pais-natal\/","title":{"rendered":"Pesquisador haitiano da UFRJ leva projeto de moradias populares ao pa\u00eds natal"},"content":{"rendered":"<p>O haitiano Jac-Ssone com jovens no bairro de Don de l\u2019amiti\u00e9, na pequena cidade de Duchity, \u00e0 oeste da capital Porto Pr\u00edncipe, onde o pesquisador da UFRJ pretende construir casas ecol\u00f3gicas em regime de mutir\u00e3o<\/p>\n<p>Era fim de tarde de uma ter\u00e7a-feira quando a terra come\u00e7ou a balan\u00e7ar, levando mais de 300 mil edif\u00edcios ao ch\u00e3o e provocando uma multid\u00e3o superior a 1 milh\u00e3o de desabrigados no Haiti. O terremoto de 2010, que atingiu 7 graus na escala Richter, deixou um pa\u00eds abalado e com o desafio de enterrar cerca de 200 mil mortos.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio completou exatos oito anos ontem (12) e est\u00e1 na mem\u00f3ria do pa\u00eds. Justamente para que trag\u00e9dia similar n\u00e3o se repita, o engenheiro haitiano Jac-Ssone Alerte, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), planeja implementar no Haiti um projeto de extens\u00e3o voltado para a constru\u00e7\u00e3o de moradias populares.<\/p>\n<p>A iniciativa, que busca chamar a aten\u00e7\u00e3o para a necessidade de aprimorar as pol\u00edticas habitacionais no pa\u00eds, ser\u00e1 aplicada no bairro de Don de l\u2019amiti\u00e9 da pequena cidade de Duchity, \u00e0 oeste da capital Porto Pr\u00edncipe. Foi l\u00e1 que Jac-Ssone nasceu. A comunidade foi devastada em outubro de 2016 por outro fen\u00f4meno natural, o Furac\u00e3o Matthew, que deixou mais de mil mortos no Haiti.<\/p>\n<p>Ao visitar o bairro ap\u00f3s o desastre, o engenheiro sentiu que era hora de colocar em pr\u00e1tica um desejo antigo: contribuir para a melhoria daquela sociedade. Era uma sensa\u00e7\u00e3o de deserto. Era vis\u00edvel as cicatrizes no pa\u00eds inteiro. Ver as fachadas espalhadas, as barracas. E era como se nada estivesse acontecendo em termos de empenho para a reconstru\u00e7\u00e3o das moradias, diz.<\/p>\n<p>Mutir\u00e3o<\/p>\n<p>O projeto de extens\u00e3o de Jac-Ssone envolve o in\u00edcio da constru\u00e7\u00e3o da Vila Marie Celiane Alexis, que recebeu esse nome em homenagem \u00e0 m\u00e3e do engenheiro que j\u00e1 faleceu. Para tanto, ele se articulou com lideran\u00e7as locais e adquiriu um terreno junto com seu pai, onde ir\u00e1 aplicar a t\u00e9cnica solo-cimento em regime de mutir\u00e3o para construir moradias seguras e resistentes a tremores e ventos fortes.<\/p>\n<p>As casas tamb\u00e9m ser\u00e3o projetadas de acordo com as proje\u00e7\u00f5es do Painel Intergovernamental de Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (IPCC-ONU) para a regi\u00e3o, isto \u00e9, preparadas para a maior incid\u00eancia de dias quentes e ondas de calor, garantindo assim maior bem-estar aos moradores.<\/p>\n<p>J\u00e1 houve uma pr\u00e9-sele\u00e7\u00e3o, com base em perfis socioecon\u00f4micos, dos 15 primeiros moradores que ficaram desabrigados em decorr\u00eancia do furac\u00e3o e que ser\u00e3o beneficiados para construir suas pr\u00f3prias casas. Tamb\u00e9m foi contratada uma empresa para furar um po\u00e7o artesiano e garantir a disponibilidade de \u00e1gua antes do in\u00edcio das obras, previsto para o final desse ano.<\/p>\n<p>A t\u00e9cnica solo-cimento envolve a utiliza\u00e7\u00e3o de terra crua como base para fabrica\u00e7\u00e3o de tijolos ecol\u00f3gicos. Ela vem sendo estudada j\u00e1 h\u00e1 alguns anos na UFRJ como uma alternativa \u00e0s t\u00e9cnicas convencionais empregadas pela ind\u00fastria da constru\u00e7\u00e3o civil. Uma das vantagens do m\u00e9todo reside no fato de que a terra \u00e9 um material que apresenta grande disponibilidade na natureza e baixo custo, al\u00e9m de boas propriedades t\u00e9rmicas.<\/p>\n<p>Seria, portanto, mais sustent\u00e1vel ao meio ambiente. O projeto da Jac-Ssone toma por base as pesquisas de seu professor orientador, o engenheiro Leandro Torres Di Greg\u00f3rio, que j\u00e1 constatou os benef\u00edcios do uso da t\u00e9cnica solo-cimento a partir da mobiliza\u00e7\u00e3o de um mutir\u00e3o. O desafio inicial foi adaptar as propostas para a realidade haitiana e agora \u00e9 coloc\u00e1-las em pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o por meio de mutir\u00e3o tamb\u00e9m tem o papel de fomentar uma no\u00e7\u00e3o de pertencimento \u00e0 comunidade, fortalecendo o esp\u00edrito de equipe. A autoconstru\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 muito forte no Haiti. E seria importante ter um grupo de assist\u00eancia t\u00e9cnica para acompanhar as pessoas que constroem as suas pr\u00f3prias moradias. Isso n\u00e3o existe. E \u00e9 dif\u00edcil para uma pessoa que n\u00e3o tem conhecimento em engenharia fazer uma casa que seja adequada para resistir a essas cargas s\u00edsmicas e \u00e0 for\u00e7a do vento, avalia Jac-Ssone.<\/p>\n<p>Ele explica que o Haiti est\u00e1 geograficamente localizado entre duas placas tect\u00f4nicas e \u00e9 um dos pa\u00edses do mundo mais vulner\u00e1veis a desastres naturais.<\/p>\n<p>Terremoto<\/p>\n<p>Jac-Ssone chegou ao Brasil em 2008 para estudar a l\u00edngua portuguesa e acabou ficando. Ingressou no curso de gradua\u00e7\u00e3o de engenharia civil da UFRJ e, uma vez formado, seguiu na institui\u00e7\u00e3o para dar sequ\u00eancia aos seus estudos no programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em planejamento, gest\u00e3o e controle de obras civis. Paralelamente, fundou com outros engenheiros a Jell Engenharia, uma empresa voltada para constru\u00e7\u00f5es sustent\u00e1veis de impacto social.<\/p>\n<p>No dia do terremoto, Jac-Ssone se encontrava no Brasil. Ele lembra que conseguiu as primeiras not\u00edcias dos familiares atrav\u00e9s de um amigo, que lhe enviou um e-mail detalhado a situa\u00e7\u00e3o. Com problemas nos meios de comunica\u00e7\u00e3o do Haiti, o contato direto com seus parentes s\u00f3 ocorreu uma semana depois. Felizmente, estavam todos bem.<\/p>\n<p>Os mesmos problemas de comunica\u00e7\u00e3o afetaram a chegada de informa\u00e7\u00f5es a quem estava no Haiti. O major do Ex\u00e9rcito Brasileiro, Fabr\u00edcio Gon\u00e7alez, que integrou a Miss\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Estabiliza\u00e7\u00e3o no Haiti (Minustah), conta que foi tudo numa fra\u00e7\u00e3o de segundos, com um barulho muito alto seguido de um tremor que dava a sensa\u00e7\u00e3o de estar sobre uma plataforma com um trem est\u00e1 se aproximando. Me recolhi a um canto que me pareceu seguro naquele momento. Na \u00e9poca, ele era capit\u00e3o e subcomandante da companhia de fuzileiros que ficava em Cit\u00e9 Soleil, a maior comunidade de Porto Pr\u00edncipe onde vivem cerca de 300 mil pessoas. O local foi um dos mais atingidos pelo desastre.<\/p>\n<p>Segundo ele, n\u00e3o houve feridos na sua companhia e os socorros aos afetados nas proximidades come\u00e7aram no mesmo dia. Naquele momento n\u00f3s ficamos sem comunica\u00e7\u00e3o nenhuma. No dia seguinte, na parte da tarde, foi que as patrulhas foram retomadas nas ruas e come\u00e7amos a receber as imagens. E foi a\u00ed que tivemos a real dimens\u00e3o dos estragos. Foi tamb\u00e9m no dia seguinte que ele teve o conhecimento de que o edif\u00edcio onde ficava a sede das Minustah havia ca\u00eddo e muitas pessoas envolvidas com a miss\u00e3o estavam desaparecidas.<\/p>\n<p>Para Fabr\u00edcio Gon\u00e7alez, do ponto de vista estrutural, as edifica\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram preparadas. O estrago foi muito maior do que a intensidade do terremoto. Foram 7 graus na escala Richter e h\u00e1 exemplos no mundo de terremotos mais fortes com menos impacto. Dizem que havia 80 anos que n\u00e3o tinha um terremoto no pa\u00eds. Ent\u00e3o, no \u00faltimo abalo, o Haiti tinha uma popula\u00e7\u00e3o muito menor.<\/p>\n<p>Para o Jac-Ssone, houve mobiliza\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico para garantir investimentos necess\u00e1rios que permitissem dar in\u00edcio o quanto antes \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o dos pr\u00e9dios p\u00fablicos, sobretudo na capital. Mas a maior parte da popula\u00e7\u00e3o no Haiti vive em zonas rurais. Segundo ele, n\u00e3o houve o mesmo empenho com as moradias populares em regi\u00f5es afastadas, longe de Porto Pr\u00edncipe. Em algumas localidades, o custo mensal do financiamento de uma casa popular teria sido superior ao sal\u00e1rio m\u00e9dio das pessoas.<\/p>\n<p>Depois de um desastre natural, um desafio que se tem \u00e9 a provis\u00e3o habitacional. E no Haiti se faz de uma maneira que n\u00e3o \u00e9 bem coordenada. N\u00e3o conseguem dar uma resposta efetiva e com o tempo os gestores v\u00e3o desaparecendo. Passado o sofrimento de um desastre natural, fica uma oportunidade de planejar o que n\u00e3o havia sido bem planejado antes. E hoje vemos a\u00e7\u00f5es pontuais, diz o engenheiro. Ele acredita que se o seu projeto for bem sucedido, pode dar o exemplo da import\u00e2ncia do planejamento e se converter em uma pol\u00edtica p\u00fablica que envolva e organize as popula\u00e7\u00f5es v\u00edtimas de desastres.<\/p>\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: Denise Griesinger<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O haitiano Jac-Ssone com jovens no bairro de Don de l\u2019amiti\u00e9, na pequena cidade de Duchity, \u00e0 oeste da capital Porto Pr\u00edncipe, onde o pesquisador da UFRJ pretende construir casas ecol\u00f3gicas em regime de mutir\u00e3o Era fim de tarde de uma ter\u00e7a-feira quando a terra come\u00e7ou a balan\u00e7ar, levando mais de 300 mil edif\u00edcios ao &hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12117,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-12370","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12370","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12370"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12370\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12371,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12370\/revisions\/12371"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12117"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12370"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12370"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12370"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}