{"id":12311,"date":"2018-01-19T16:34:17","date_gmt":"2018-01-19T16:34:17","guid":{"rendered":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=12311"},"modified":"2018-01-19T16:34:17","modified_gmt":"2018-01-19T16:34:17","slug":"festival-do-livro-ocupa-escolas-bibliotecas-e-pracas-em-sao-paulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/festival-do-livro-ocupa-escolas-bibliotecas-e-pracas-em-sao-paulo\/","title":{"rendered":"Festival do Livro ocupa escolas, bibliotecas e pra\u00e7as em S\u00e3o Paulo"},"content":{"rendered":"<p>Ocupando bibliotecas, pra\u00e7as, espa\u00e7os culturais e escolas, o 8\u00ba Festival do Livro e da Literatura de S\u00e3o Miguel traz atividades par mais de 50 pontos da zona leste de S\u00e3o Paulo. A partir do tema Letras Pretas: po\u00e9ticas de corpo e liberdade, a mostra vai discutir o racismo e a equidade racial na produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria com debates, apresenta\u00e7\u00f5es musicais, hist\u00f3rias e teatro. A programa\u00e7\u00e3o come\u00e7a hoje (8) e vai at\u00e9 sexta-feira (10).<\/p>\n<p>O eixo condutor das atividades segue uma constru\u00e7\u00e3o elaborada nas \u00faltimas duas edi\u00e7\u00f5es do festival, como explica o coordenador da programa\u00e7\u00e3o cultural da Funda\u00e7\u00e3o Tide Setubal, In\u00e1cio Pereira.<\/p>\n<p>Segundo ele, com a crise pol\u00edtica de 2015, foi feita a op\u00e7\u00e3o de se discutir democracia e hist\u00f3ria na perspectiva de diferentes vozes. No ano passado, a programa\u00e7\u00e3o passou pelas discuss\u00f5es de g\u00eanero, e, agora, pelas de ra\u00e7a. \u201c\u00c9 a quest\u00e3o do povo negro, da identidade da produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, refletindo sobre a ess\u00eancia da literatura negra e perif\u00e9rica\u201d, disse.<\/p>\n<p>A funda\u00e7\u00e3o organiza o evento, que come\u00e7ou como uma feira do livro e se expandiu, em boa parte, por conta da aproxima\u00e7\u00e3o com as escolas da regi\u00e3o. \u201c\u00c9 um festival do livro constru\u00eddo de forma colaborativa a partir de uma rede de v\u00e1rios atores locais\u201d, afirmou Pereira.<\/p>\n<p>\u201cAs escolas entraram no festival como p\u00fablico em um primeiro momento, come\u00e7aram a dialogar, depois quiseram participar com os seus projetos\u201d, acrescentou sobre como alunos e professores foram se apropriando do evento.<\/p>\n<p>Assim, os dias de festival se tornam, segundo o coordenador, um momento para que docentes e estudantes conhe\u00e7am propostas geradas dentro da pr\u00f3pria comunidade. \u201cExiste uma troca de experi\u00eancias das pr\u00e1ticas de literatura e media\u00e7\u00e3o dos projetos, somando essas tem\u00e1ticas que s\u00e3o transversais, quest\u00e3o de g\u00eanero, equidade racial, democracia, ocupa\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os p\u00fablicos, direito \u00e0 cidade\u201d, observou.<\/p>\n<p>Ocupando a rua e o simb\u00f3lico<\/p>\n<p>Para elaborar a programa\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m envolve artistas e grupos culturais que trabalham na perspectiva perif\u00e9rica, foi formado um grupo curatorial com artistas, educadores e ativistas. \u00c9 pensado, desse modo, um festival que n\u00e3o s\u00f3 traga atra\u00e7\u00f5es de outros espa\u00e7os, mas que a produ\u00e7\u00e3o da comunidade e de fora ocupe a regi\u00e3o de diversas formas. \u201cA ideia n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ocupar a pra\u00e7a, mas tamb\u00e9m ocupar o simb\u00f3lico\u201d, disse Pereira.<\/p>\n<p>Como exemplo desse tipo de experimenta\u00e7\u00e3o, o coordenador citou a releitura feita por um grupo de alunos da personagem Tia Nast\u00e1cia, de Monteiro Lobato, presente nas hist\u00f3rias do S\u00edtio do Pica-Pau Amarelo. \u201cA Tia Nast\u00e1cia dentro da l\u00f3gica do Monteiro Lobato voc\u00ea n\u00e3o conhece a hist\u00f3ria da fam\u00edlia dela, n\u00e3o sabe se foi casada, se teve netos. Ela uma figura acess\u00f3ria para contar a hist\u00f3ria de uma fam\u00edlia branca\u201d, explicou. Por\u00e9m, os estudantes, em um esquete montado para o festival, criam um momento em que a cozinheira negra conta a pr\u00f3pria hist\u00f3ria para a boneca Em\u00edlia.<\/p>\n<p>Mulheres negras<\/p>\n<p>\u201cA crian\u00e7a que assistir essa hist\u00f3ria, quando ela for ver de novo o Monteiro Lobato, com certeza aquela hist\u00f3ria que ela viu na pra\u00e7a ver\u00e1 com que ela veja Tia Nast\u00e1cia de uma maneira diferente, humanizada, com fam\u00edlia, com filhos, netos\u201d, destaca sobre a import\u00e2ncia das reflex\u00f5es feitas pelos jovens.<\/p>\n<p>A necessidade de recontar a hist\u00f3ria das mulheres negras, n\u00e3o s\u00f3 de uma perspectiva social e racial diferente, mas desconstruindo estere\u00f3tipos de g\u00eanero tem fomentado diversos grupos culturais na periferia, segundo D\u00e9bora Garcia, fundadora do Sarau das Pretas. \u201cO nosso corpo sempre foi colocado \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do outro: essa coisa da maternidade, da ama de leite, da mulher hipersexualizada. Ent\u00e3o, hoje, n\u00f3s mulheres negras temos uma demanda muito forte de olharmos para n\u00f3s mesmas\u201d, ressaltou a ativista que tamb\u00e9m participou da curadoria do festival.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s acreditamos que a literatura \u00e9 um lugar de fala muito importante, porque historicamente n\u00f3s n\u00e3o tivemos acesso \u00e0 escrita formal, a nossa hist\u00f3ria, as nossas quest\u00f5es sempre foram trazidas pela oralidade\u201d, disse ao lembrar que as mulheres negras ainda sofrem com a falta de escolaridade. \u201cAs mulheres negras ainda est\u00e3o na base da pir\u00e2mide social, s\u00e3o as que t\u00eam a menor escolaridade, as que acessam aos piores sal\u00e1rios e cargos de emprego\u201d, completa.<\/p>\n<p>Por isso, D\u00e9bora defende a necessidade de narrativas constru\u00eddas por outros autores e autoras, n\u00e3o somente os homens brancos de boa condi\u00e7\u00e3o financeira, o que, de acordo com ela, tem sido a regra na literatura ocidental. \u201cQuando n\u00f3s vamos escrever um texto, n\u00f3s colocamos mulheres que s\u00e3o complexas, que t\u00eam sonhos, que t\u00eam compreens\u00e3o do seu lugar no mundo, n\u00e3o a ver navios. E isso muda tudo, porque n\u00f3s criamos refer\u00eancias positivas\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ocupando bibliotecas, pra\u00e7as, espa\u00e7os culturais e escolas, o 8\u00ba Festival do Livro e da Literatura de S\u00e3o Miguel traz atividades par mais de 50 pontos da zona leste de S\u00e3o Paulo. 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