{"id":11808,"date":"2018-01-18T05:40:06","date_gmt":"2018-01-18T05:40:06","guid":{"rendered":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=11808"},"modified":"2018-01-18T05:40:06","modified_gmt":"2018-01-18T05:40:06","slug":"ataques-incendiarios-complicam-ida-do-papa-ao-coracao-do-conflito-indigena-no-chile","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/ataques-incendiarios-complicam-ida-do-papa-ao-coracao-do-conflito-indigena-no-chile\/","title":{"rendered":"Ataques incendi\u00e1rios complicam ida do Papa ao cora\u00e7\u00e3o do conflito ind\u00edgena no Chile"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/01\/16\/internacional\/1516105106_908702.html\">A visita do Papa ao Chile<\/a>, que h\u00e1 algumas semanas parecia uma viagem sem muita import\u00e2ncia, torna-se cada vez mais complicada. Depois de um dia intenso em Santiago, <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/01\/15\/album\/1516008667_642306.html\">dominado pelos protestos contra os abusos sexuais na Igreja chilena<\/a>, pelos quais o papa Francisco pediu perd\u00e3o, o segundo dia em Temuco, a capital da Araucan\u00eda e cora\u00e7\u00e3o do conflito da etnia mapuche, tamb\u00e9m foi conturbado por inc\u00eandios contra outras tr\u00eas igrejas cat\u00f3licas e uma evang\u00e9lica, conduzidos, muito provavelmente, por grupos dessa etnia, a mais importante do pa\u00eds, <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/03\/27\/internacional\/1490626020_914629.html\">que reivindica essas terras tanto no Chile quanto na Argentina<\/a> desde que esses povos foram dizimados no final do s\u00e9culo XIX. Al\u00e9m disso, um outro grupo incendiou tr\u00eas helic\u00f3pteros em uma empresa da regi\u00e3o e outro, que tentou bloquear a estrada, feriu um policial com um tiro em um confronto. Esses grupos exigem o retorno das terras que est\u00e3o agora nas m\u00e3os do setor privado.<\/p>\n<p>Os ataques com artefatos incendi\u00e1rios s\u00e3o frequentes na regi\u00e3o da Araucan\u00eda, onde nos \u00faltimos anos houve mais de uma centena de atentados contra maquinaria florestal e templos religiosos, ondas de viol\u00eancia onde v\u00e1rios comuneiros de origem mapuche, policiais e agricultores morreram. Os mapuches tamb\u00e9m foram mortos pelas m\u00e3os da pol\u00edcia; a morte mais recente, de Rafael Nahuel, ocorreu na Argentina, causada por tiro. <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/08\/03\/internacional\/1501790093_426310.html\">O conflito marca h\u00e1 d\u00e9cadas as comunidades mapuches<\/a>, que reivindicam terras ancestrais de empresas florestais ou agr\u00edcolas. Antes da chegada dos conquistadores espanh\u00f3is no Chile, em 1541, os mapuches ocupavam essas terras do rio Biob\u00edo at\u00e9 500 quil\u00f4metros mais ao sul. No final do s\u00e9culo XIX, campanhas de conquista e exterm\u00ednio no Chile e na Argentina levaram os mapuches a\u00a0perder todas as suas terras. S\u00f3 no Chile estima-se a morte de 10.000, dos 190.000 que habitavam a regi\u00e3o em 1881, quando o Estado respondeu com crueldade a um levante mapuche e entregou as terras aos colonos europeus.<\/p>\n<p>Esta tens\u00e3o e o medo do Governo do Chile de um ataque contra o Papa fizeram com que toda a \u00e1rea de Temuco fosse militarizada. At\u00e9 4.000 agentes foram mobilizados para impedir incidentes, conseguindo que o trajeto do Papa fosse tranquilo, mas mobilizando um impressionante aparato. Da aterrissagem no aeroporto de Temuco at\u00e9 o aer\u00f3dromo de Maquehue, a estrada estava cercada por soldados e ve\u00edculos blindados, transformando a regi\u00e3o quase em uma zona de guerra.<\/p>\n<p>Neste ambiente de grande tens\u00e3o, o Papa celebrou sua missa multitudin\u00e1ria na zona mais pobre do Chile, <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/01\/12\/opinion\/1515777060_831337.html\">onde tentou acalmar os \u00e2nimos e assumir o papel de mediador entre os mapuches<\/a>, que reivindicam terras, e o Estado chileno, que combate duramente os ataques dos ind\u00edgenas e inclusive aplicou a lei antiterrorista contra eles, o que motivou cr\u00edticas internacionais. Francisco se posicionou claramente pelos direitos dos mapuches, povoando a missa com gestos para eles.<\/p>\n<p>O Papa come\u00e7ou a missa em sua l\u00edngua, o que motivou muitos aplausos, enquanto um grupo de membros desse povo origin\u00e1rio, com suas vestimentas tradicionais, cantava e oferecia uma cerim\u00f4nia em homenagem ao Pont\u00edfice no meio da missa. Depois, ele se reuniu com alguns de seus representantes. Mas, ao mesmo tempo em que defendia sua causa e seu direito de exigir as terras que foram tomadas de seus antepassados, Francisco exigia tamb\u00e9m que terminassem com a viol\u00eancia, embora n\u00e3o tenha feito men\u00e7\u00e3o expl\u00edcita \u00e0 queima de igrejas.<\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\"><em>Minha rejei\u00e7\u00e3o absoluta aos covardes e violentos ataques ocorridos no sul, na v\u00e9spera da visita do papa Francisco a La Araucania. Combateremos o terrorismo com maior vontade e efic\u00e1cia, e para isso precisamos da colabora\u00e7\u00e3o e da unidade de todos os chilenos.<\/em><\/p>\n<p>Francisco colocou no mesmo n\u00edvel dois tipos de viol\u00eancia: a do Estado, que n\u00e3o cumpre as promessas feitas aos mapuches, e a dos grupos que atacam e queimam todo tipo de estabelecimento, o que j\u00e1 chegou a provocar mortes. Para boa parte da opini\u00e3o p\u00fablica chilena e argentina \u2013 o territ\u00f3rio reivindicado est\u00e1 nos dois pa\u00edses \u2013, trata-se de terroristas que devem ser combatidos com a maior dureza. Para o Papa argentino, s\u00e3o grupos que devem frear imediatamente a viol\u00eancia, mas que exigem um direito leg\u00edtimo e devem ser ouvidos.<\/p>\n<p>\u201cExistem duas formas de viol\u00eancia\u201d, analisou o Papa. \u201cEm primeiro lugar, elaborar belos acordos que nunca chegam a se concretizar. Isso tamb\u00e9m \u00e9 viol\u00eancia, porque frustra a esperan\u00e7a. Em segundo lugar, uma cultura do reconhecimento m\u00fatuo n\u00e3o pode ser constru\u00edda com base na viol\u00eancia e na destrui\u00e7\u00e3o, que termina provocando perdas de vidas humanas. N\u00e3o se pode pedir reconhecimento aniquilando o outro. A viol\u00eancia acaba tornando mentirosa a causa mais justa.\u201d Esse trecho do discurso recebeu aplausos das 150.000 pessoas reunidas no aer\u00f3dromo de Maqueue, boa parte delas integrantes da comunidade mapuche, embora houvesse cat\u00f3licos de todo o sul do Chile e tamb\u00e9m da Argentina, que vieram expressamente e liderados por um amigo do Papa, o ativista Juan Grabois.<\/p>\n<p>Os aplausos chegaram nesses momentos espec\u00edficos, mas em nenhuma das missas multitudin\u00e1rias do Papa foi observado <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/01\/15\/politica\/1516041445_742902.html\">um grande fervor por uma personalidade que em outros pa\u00edses<\/a> gera uma ades\u00e3o incondicional e se transformou em estrela mundial. De fato, apesar dos milhares de pessoas presentes nas duas grandes concentra\u00e7\u00f5es, podiam-se perceber importantes espa\u00e7os vazios em todas as zonas isoladas pela seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>O Papa n\u00e3o evita nenhum tema delicado. De fato, havia sido criticado por escolher este aer\u00f3dromo porque ali, durante a <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/dictadura_pinochet\/a\">ditadura de Pinochet<\/a>, cerca de 600 pessoas foram detidas e torturadas; v\u00e1rias outras desapareceram a partir desse centro de deten\u00e7\u00e3o. Francisco decidiu falar do assunto diretamente: \u201cCelebramos a eucaristia neste aer\u00f3dromo, onde ocorreram graves viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos. Oferecermos esta celebra\u00e7\u00e3o por todos os que sofreram e morreram, e pelos que levam nas costas o peso de tantas injusti\u00e7as.\u201d<\/p>\n<p>Francisco conseguiu superar sem incidentes o momento mais delicado para a seguran\u00e7a da viagem, mas essa visita parece ser tudo, menos tranquila. O Vaticano esperava terminar com a pol\u00eamica sobre os abusos sexuais com a decis\u00e3o do Papa de receber em Santiago, na ter\u00e7a-feira, algumas v\u00edtimas de forma privada \u2013 embora n\u00e3o as mais conhecidas que lhe haviam pedido um encontro. Mas o inc\u00eandio n\u00e3o se apaga. Sobretudo porque tem um grande protagonista que se nega a adotar um papel discreto: o bispo de Osorno, Juan Barros, acusado pelas v\u00edtimas de acobertar os abusos do sacerdote Fernando Karadima.<\/p>\n<p>No primeiro dia, minutos ap\u00f3s o Papa, que sempre defendeu a inoc\u00eancia de Barros, ter dito que sentia \u201cvergonha\u201d dos abusos, Barros participou, como todos os demais bispos, da missa multitudin\u00e1ria em Santiago e foi o grande protagonista do dia com suas declara\u00e7\u00f5es \u00e0 imprensa insistindo que as v\u00edtimas que o acusam est\u00e3o mentindo. No segundo dia, Barros inclusive viajou no mesmo avi\u00e3o que os jornalistas chilenos e internacionais a Temuco. Na chegada, portanto, houve um enorme tumulto que o transformou de\u00a0novo em protagonista. Os rep\u00f3rteres lhe perguntavam se era consciente de que sua presen\u00e7a estava arruinando a visita do Papa e sua mensagem a favor das v\u00edtimas, mas Barros, cada vez mais nervoso e encurralado pelas c\u00e2meras \u2013seguran\u00e7as o protegeram para que pudesse evit\u00e1-las \u2013 s\u00f3 repetia que nunca havia presenciado os abusos. E suplicava aos jornalistas: \u201cPe\u00e7o a voc\u00eas que me deixem tranquilo.\u201d Finalmente, depois de um longo momento de perguntas aos gritos, corridas e uma enorme tens\u00e3o muito pouco habitual numa visita do Papa, Barros p\u00f4de se refugiar entre os Carabineiros [a pol\u00edtica militarizada chilena] e se esquivar da imprensa. <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/01\/15\/album\/1516008667_642306.html\">Mas a pol\u00eamica n\u00e3o diminui<\/a> \u2013 e compromete uma viagem que parecia tranquila, mas que se complica a cada dia.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A visita do Papa ao Chile, que h\u00e1 algumas semanas parecia uma viagem sem muita import\u00e2ncia, torna-se cada vez mais complicada. 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