{"id":11639,"date":"2018-01-17T17:31:18","date_gmt":"2018-01-17T17:31:18","guid":{"rendered":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=11639"},"modified":"2018-01-17T17:31:18","modified_gmt":"2018-01-17T17:31:18","slug":"palestra-da-escritora-conceicao-evaristo-causa-comocao-e-inspiracao-na-flipelo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/palestra-da-escritora-conceicao-evaristo-causa-comocao-e-inspiracao-na-flipelo\/","title":{"rendered":"Palestra da escritora Concei\u00e7\u00e3o Evaristo causa como\u00e7\u00e3o e inspira\u00e7\u00e3o na Flipel\u00f4"},"content":{"rendered":"<p>No segundo dia de atividades abertas para o p\u00fablico, um dos casar\u00f5es do Centro Hist\u00f3rico de Salvador pareceu pequeno para a plateia que assistiu, na noite dessa sexta-feira (11), \u00e0 palestra da escritora mineira Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, uma das principais convidadas para a primeira edi\u00e7\u00e3o da Festa Liter\u00e1ria Internacional de Salvador, a Flipel\u00f4.<\/p>\n<p>Em pouco mais de uma hora, a autora falou sobre gratid\u00e3o, reconhecimento, resist\u00eancia, negritude, racismo e milit\u00e2ncia, sem deixar de lado a arte que a consagrou como uma figura premiada e reconhecida internacionalmente: a literatura. Aos 71 anos, Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, reconhece que seus esfor\u00e7os foram v\u00e1lidos para que chegasse onde chegou. No entanto, fez quest\u00e3o de agradecer aos presentes e \u00e0s mulheres negras em geral, por a terem lido e levado suas obras a espa\u00e7os sociais, como coletivos de milit\u00e2ncia, escolas, universidades e livrarias.<\/p>\n<p>\u201cEu tenho certeza absoluta de que quem me trouxe aqui foram voc\u00eas. Se hoje sou publicada por outras editoras, sei que as editoras negras que apostaram e confiaram em mim, antes. Tenho dito isso muito, porque quero que me ajudem a sustentar esse discurso de que n\u00e3o \u00e9 o Pr\u00eamio Jabuti que me fez, n\u00e3o foi a Flip [Feira Liter\u00e1ria Internacional de Paraty], nem alguma editora que vem me procurar, mas a m\u00eddia me descobriu depois que voc\u00eas me mostraram\u201d, disse a autora, seguida de aplausos.<\/p>\n<p>O anfiteatro do Sesc Pelourinho lotou, a ponto de uma parte do p\u00fablico ser direcionada \u00e0 arena externa do espa\u00e7o, onde o bate-papo foi transmitido, por meio de um tel\u00e3o, em tempo real. Entre frases e palavras de incentivo e de resist\u00eancia, Concei\u00e7\u00e3o Evaristo arrancava aplausos dos presentes e elogios dos mais diversos. Ovacionada do in\u00edcio ao fim da apresenta\u00e7\u00e3o, a escritora &#8211; que d\u00e1 voz a hist\u00f3rias da mulher negra por meio de seus personagens \u2013 arrancou, tamb\u00e9m, risadas com seu bom humor e pitadas de ironia.<\/p>\n<p>Personagens inspirados em conhecidos<\/p>\n<p>Sobre suas obras, Concei\u00e7\u00e3o Evaristo disse que muitas personagens foram inspiradas em pessoas com as quais conviveu desde que saiu da periferia de Belo Horizonte e foi para o Rio de Janeiro, onde se graduou em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela contou ao p\u00fablico o processo pelo qual passou, quando escreveu Insubmissas L\u00e1grimas de Mulheres, atribuindo a enfermidade que enfrentou, durante o doutorado, \u00e0 \u201ccrueldade da academia\u201d.<\/p>\n<p>A autora ainda revelou que pretende lan\u00e7ar um novo livro de contos, cujo modelo se assemelha a Insubmissas L\u00e1grimas de Mulheres. O t\u00edtulo da obra inspirou o nome do projeto independente Di\u00e1logos Insubmissos de Mulheres Negras, cujo primeiro ciclo encerrou-se na noite desta sexta-feira, no Pelourinho.<\/p>\n<p>\u201cA nossa hist\u00f3ria n\u00e3o come\u00e7a com vit\u00f3ria, sempre come\u00e7a com luta e resist\u00eancia, mas eu queria escrever hist\u00f3rias de vit\u00f3rias e centrar mulheres negras nas hist\u00f3rias, como protagonistas. Eu parti do hist\u00f3rico doloroso dessas mulheres, mas n\u00e3o consegui escrever ainda uma hist\u00f3ria que eu n\u00e3o traga um elemento meu, que n\u00e3o tenha o elemento dor. Todas as personagens ali, n\u00e3o est\u00e3o na linha da pobreza e miserabilidade e pensando nisso, saiu o Insubmissas L\u00e1grimas de Mulheres\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Conselho \u00e0s mulheres negras<\/p>\n<p>\u00c0s mulheres negras presentes, ou que pensam em come\u00e7ar no mundo da literatura, Concei\u00e7\u00e3o Evaristo aconselhou que leiam os textos umas das outras, que compartilhem obras de mulheres negras e se inspirem no mundo da literatura, para que o reconhecimento seja coletivo, assim como foi o dela, que atribui sua trajet\u00f3ria ao movimento negro, com o qual ainda convive. Apesar disso, ela criticou o machismo que ainda existe por parte dos homens, negros ou n\u00e3o, e a aus\u00eancia das mulheres negras como refer\u00eancias ou cita\u00e7\u00f5es desses pensadores.<\/p>\n<p>\u201cEu acredito que, o dia em que os homens negros perceberem que eles precisam ser nossos aliados, que na maioria das vezes n\u00f3s somos o amparo para as fragilidades deles, eles talvez nos citem. Os homens negros foram os primeiros a crescer academicamente e as mulheres cuidaram dos filhos. Em muitas situa\u00e7\u00f5es os homens negros n\u00e3o nos citam e n\u00e3o valorizam o nosso trabalho, mas essa falta de cumplicidade, na verdade faz com que eles fiquem, muitas vezes, sozinhos\u201d, disse.<\/p>\n<p>Concei\u00e7\u00e3o Evaristo \u00e9 mestre e doutora em literatura, atuante na defesa das mulheres negras e publicou seis livros, al\u00e9m de ser publicada em antologias. Atualmente \u00e9 professora visitante da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ao fim da palestra, ela destacou a import\u00e2ncia da literatura como ferramenta de reflex\u00e3o e resist\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cHoje eu vejo que a literatura, a academia, \u00e9 um lugar de milit\u00e2ncia. Se um texto liter\u00e1rio for capaz de promover uma reflex\u00e3o e uma a\u00e7\u00e3o, principalmente, eu acho que, mesmo minimamente, essa literatura faz sentido como signo de resist\u00eancia, de esperan\u00e7a, de den\u00fancia\u201d.<\/p>\n<p>Inspira\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o evento, homens e principalmente mulheres demonstravam encantamento com as palavras de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, que foi aplaudida mais uma vez. Uma das espectadoras, a rec\u00e9m-graduada em administra\u00e7\u00e3o de empresas, Graciela Nobre, assistiu \u00e0 palestra com olhos atentos e, ao fim, contou que ter ouvido os relatos da escritora \u201cfoi inspirador\u201d, porque mostra aonde a mulher pode chegar, mesmo sendo negra e com \u201cmenos portas abertas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o s\u00f3 ela como todas as outras do evento, s\u00e3o mulheres de refer\u00eancia, e isso \u00e9 o que eu busco. S\u00e3o pessoas perto das quais quero chegar. Hoje sa\u00ed outra mulher, porque isso agrega e transforma, nos faz diferentes do que \u00e9ramos antes\u201d, disse a moradora de Salvador de 23 anos.<\/p>\n<p>A Flipel\u00f4 est\u00e1 na primeira edi\u00e7\u00e3o e as atividades ocorrem at\u00e9 domingo (13). A organiza\u00e7\u00e3o do evento espera a participa\u00e7\u00e3o de 30 mil pessoas, ao final das mais de 60 atividades. Toda a programa\u00e7\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel no site.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No segundo dia de atividades abertas para o p\u00fablico, um dos casar\u00f5es do Centro Hist\u00f3rico de Salvador pareceu pequeno para a plateia que assistiu, na noite dessa sexta-feira (11), \u00e0 palestra da escritora mineira Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, uma das principais convidadas para a primeira edi\u00e7\u00e3o da Festa Liter\u00e1ria Internacional de Salvador, a Flipel\u00f4. 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