{"id":10737,"date":"2018-01-13T15:21:31","date_gmt":"2018-01-13T15:21:31","guid":{"rendered":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=10737"},"modified":"2018-01-13T15:21:31","modified_gmt":"2018-01-13T15:21:31","slug":"pela-1a-vez-suica-condena-banqueiro-por-papel-na-lava-jato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/pela-1a-vez-suica-condena-banqueiro-por-papel-na-lava-jato\/","title":{"rendered":"Pela 1\u00aa vez, Su\u00ed\u00e7a condena banqueiro por papel na Lava Jato"},"content":{"rendered":"<p>GENEBRA \u2013 A Justi\u00e7a su\u00ed\u00e7a condena, pela primeira vez, um banqueiro por conta de seu papel em esquemas de corrup\u00e7\u00e3o revelados pela Opera\u00e7\u00e3o <a href=\"http:\/\/www.estadao.com.br\/tudo-sobre\/operacao-lava-jato\"><strong>Lava Jato<\/strong><\/a>. Um dos diretores do banco Heritage violou as leis do pa\u00eds europeu ao n\u00e3o notificar \u00e0s autoridades sobre as movimenta\u00e7\u00f5es suspeitas do ex-diretor da Petrobr\u00e1s, <a href=\"http:\/\/tudo-sobre.estadao.com.br\/nestor-cervero\"><strong>Nestor Cerver\u00f3<\/strong><\/a>. O brasileiro conseguiu, assim, praticamente esvaziar sua conta enquanto ela n\u00e3o foi denunciada e bloqueada.<\/p>\n<p>Em 2017, o <strong>Estado<\/strong> revelou com exclusividade como os bancos su\u00ed\u00e7os passaram a ser investigados por seu papel na Lava Jato, depois que o Minist\u00e9rio P\u00fablico em Berna descobriu mais de mil contas envolvendo o esc\u00e2ndalo no Brasil. Pelo artigo 37 da lei su\u00ed\u00e7a sobre o combate \u00e0 lavagem de dinheiro, bancos s\u00e3o obrigados a notificar a ag\u00eancia de controle financeiro diante de qualquer ind\u00edcio de movimenta\u00e7\u00f5es fora dos padr\u00f5es ou que impliquem volumes suspeitos.<\/p>\n<p>A constata\u00e7\u00e3o do Tribunal foi de que o diretor-adjunto do banco, Thierry Zumstein, violou essa determina\u00e7\u00e3o, apesar de contar com informa\u00e7\u00f5es suficientes que apontariam para suspeitas em rela\u00e7\u00e3o ao cliente. Ele j\u00e1 havia sido condenado em primeira inst\u00e2ncia a pagar uma multa de 30 mil francos su\u00ed\u00e7os. Mas recorreu.<\/p>\n<p>Apesar de confirmar a condena\u00e7\u00e3o, o tribunal reduziu a pena para apenas 15 mil francos e os custos do processo, uma fra\u00e7\u00e3o do valor que passou pelas contas de Cerver\u00f3. Ainda assim, a condena\u00e7\u00e3o \u00e9 considerada como simb\u00f3lica, j\u00e1 que representa um reconhecimento das falhas dos bancos no esquema no Brasil.<\/p>\n<p>Entre os banqueiros, a condena\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foi recebida como um recado de que a Justi\u00e7a su\u00ed\u00e7a, de uma forma in\u00e9dita, ir\u00e1 aprofundar os inqu\u00e9ritos para tentar determinar a responsabilidade dos intermedi\u00e1rios financeiros no caso da Lava Jato. No total, US$ 1,1 bilh\u00e3o foram encontrados nos bancos su\u00ed\u00e7os relativos ao esc\u00e2ndalo no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Pasadena<\/strong> &#8211; O caso julgado se refere \u00e0s contas da sociedade Forbal Investiment, com sede em Belize e contas na Su\u00ed\u00e7a desde 2008. Cerver\u00f3 foi preso no Brasil em janeiro de 2015 e condenado \u00e0 pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre dezembro de 2014 e janeiro de 2015, com Cerver\u00f3 j\u00e1 sob investiga\u00e7\u00e3o, o banco n\u00e3o teria tomado a iniciativa de informar as autoridades sobre a exist\u00eancia das contas. Enquanto isso, ela foi praticamente esvaziada, passando de mais de US$ 200 mil para apenas US$ 6,1 mil. Foi apenas no dia 27 de janeiro de 2015 que o banco decidiu ir \u00e0s autoridades e revelar a exist\u00eancia das contas. A decis\u00e3o foi tomada depois que jornais brasileiros noticiaram a pris\u00e3o de seu cliente.<\/p>\n<p>De acordo com a investiga\u00e7\u00e3o, o banco sabia das suspeitas que pesavam sobre Cerver\u00f3 desde o in\u00edcio de 2014, quando primeiro foi revelado o caso da compra da refinaria de Pasadena, pela Petrobr\u00e1s. Reuni\u00f5es internas no banco foram realizadas para tentar decifrar se a refer\u00eancia ao cliente era suficiente para denunciar sua conta \u00e0s autoridades su\u00ed\u00e7as, uma obriga\u00e7\u00e3o por lei.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 2014, Cerver\u00f3 foi afastado da Petrobr\u00e1s pelo esc\u00e2ndalo de Pasadena. Mas, em maio daquele ano, o banco decidiu &#8216;n\u00e3o comunicar&#8217; o caso de seu cliente \u00e0s autoridades. O banco chegou \u00e0 constata\u00e7\u00e3o de Cerver\u00f3 era apenas uma &#8216;testemunha&#8217; e que n\u00e3o haveria nada contra ele. Foi decidido que, se os recursos de o ex-diretor da Petrobr\u00e1s estivessem bloqueados no Brasil, o banco tamb\u00e9m o faria. Mas, do contr\u00e1rio, nenhuma iniciativa seria tomada.<\/p>\n<p>Num relat\u00f3rio interno, o banco chega a mencionar a ex-presidente Dilma Rousseff, apontando que ela se defendeu alegando que \u201ccertas cl\u00e1usulas do contrato (de Pasadena) n\u00e3o foram mencionados no informe prestado pelos servi\u00e7os de Cerver\u00f3\u201d.<\/p>\n<p>O mesmo informe interno do Heritage explicou que \u201cas cr\u00edticas contra a compra da refinaria ocorriam no contexto das elei\u00e7\u00f5es presidenciais no Brasil\u201d. \u201cAlgumas mat\u00e9rias mencionavam mesmo que a compra da refinaria poderia se revelar como um dos melhores neg\u00f3cios conclu\u00eddos pela Petrobr\u00e1s em 30 anos\u201d, apontou a senten\u00e7a do tribunal, citando o informe do banco.<\/p>\n<p>O Heritage, assim, \u201cconclui seu memorando dizendo que, naquele est\u00e1gio, n\u00e3o haveria nenhuma raz\u00e3o para duvidar da origem legal dos bens depositados\u201d por Cerver\u00f3. Nenhum an\u00fancio \u00e0s autoridades fora feito e o banco decidiu continuar a rela\u00e7\u00e3o com seu cliente.<\/p>\n<p><strong>&#8216;Imprensa exagerada&#8217; <\/strong>&#8211; Em outubro de 2014, o banco voltou a olhar o caso de Cerver\u00f3, diante de um relat\u00f3rio do TCU que o citara e teria indicado o congelamento de sua conta. Mas um dos funcion\u00e1rios de controle do Heritage alegou em outro informe que \u201ca imprensa n\u00e3o era verdadeiramente confi\u00e1vel e que tinha tend\u00eancia ao exagero, em especial no Brasil\u201d. A informa\u00e7\u00e3o do congelamento da conta ainda foi negada pelo advogado do brasileiro, vers\u00e3o que foi privilegiada pela dire\u00e7\u00e3o do banco.<\/p>\n<p>No dia 27 daquele m\u00eas, o banco pediu que um dos funcion\u00e1rios do Heritage voltasse a ler as 324 p\u00e1ginas do documento do TCU e determinasse se Cerver\u00f3 estava ou n\u00e3o implicado no caso. Uma semana depois, o funcion\u00e1rio \u201calegou que o portugu\u00eas n\u00e3o era sua l\u00edngua nativa\u201d e relativizou o conte\u00fado do informe. Segundo o tribunal, por\u00e9m, \u201co funcion\u00e1rio falava fluentemente essa l\u00edngua\u201d e deu cr\u00e9dito apenas \u00e0 vers\u00e3o dos advogados de Cerver\u00f3.<\/p>\n<p>No dia 1\u00ba de dezembro, comunicados internos do banco voltam a chegar \u00e0 constata\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o havia necessidade de informar \u00e0s autoridades.<\/p>\n<p>Durante o per\u00edodo em que o banco se recusou a informar \u00e0s autoridades, o tribunal revela como Cerver\u00f3 esvaziou a conta. Ela passou de um saldo original de US$ 200 mil, para US$ 97 mil no in\u00edcio de dezembro de 2014 e para apenas US$ 6,1 mil quando foi finalmente denunciada, em janeiro de 2015.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do Tribunal, alertar \u00e0s autoridades era uma obriga\u00e7\u00e3o de Zumstein, que dirigia o departamento de compliance do Heritage. \u201cEle foi negligente\u201d, determinou o tribunal que, apesar da condena\u00e7\u00e3o, qualificou sua culpabilidade \u201cde leve \u00e0 m\u00e9dio\u201d.<\/p>\n<p>A lei permitiria o tribunal cobrar uma multa de at\u00e9 150 mil francos su\u00ed\u00e7os. Mas, por conta do hist\u00f3rico do banqueiro e do fato de ele ter colaborado plenamente nas investiga\u00e7\u00f5es, a Justi\u00e7a aplicou uma pena praticamente simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>Ainda assim, para a ju\u00edza Nathalie Zufferey Franciolli, a mera exist\u00eancia de uma d\u00favida j\u00e1 deveria ser suficiente para que o banco comunicasse o caso \u00e0s autoridades. Cerver\u00f3 ainda era classificado dentro do sistema financeiro su\u00ed\u00e7o como PEP \u2013 Pessoa exposta politicamente. Na pr\u00e1tica, isso exigiria do banco um maior acompanhamento sobre suas movimenta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O diretor de compliance do banco n\u00e3o foi o \u00fanico punido. Em abril de 2016, a ag\u00eancia reguladora do sistema financeiro su\u00ed\u00e7o, a FINMA, contatou que o Heritage violou &#8216;gravemente&#8217; as leis ao n\u00e3o conseguir controlar a origem do dinheiro brasileiro depositado em suas contas.<\/p>\n<p>Contatado pelo <strong>Estado<\/strong>, o banco Heritage n\u00e3o deu respostas sobre os questionamentos colocados pela reportagem e nem sobre a situa\u00e7\u00e3o de seu banqueiro condenado. Mas indicou que vai recorrer da decis\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GENEBRA \u2013 A Justi\u00e7a su\u00ed\u00e7a condena, pela primeira vez, um banqueiro por conta de seu papel em esquemas de corrup\u00e7\u00e3o revelados pela Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato. Um dos diretores do banco Heritage violou as leis do pa\u00eds europeu ao n\u00e3o notificar \u00e0s autoridades sobre as movimenta\u00e7\u00f5es suspeitas do ex-diretor da Petrobr\u00e1s, Nestor Cerver\u00f3. 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