{"id":10566,"date":"2018-01-13T00:47:13","date_gmt":"2018-01-13T00:47:13","guid":{"rendered":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/?p=10566"},"modified":"2018-01-13T00:47:13","modified_gmt":"2018-01-13T00:47:13","slug":"presidios-brasileiros-uma-antologia-de-violencia-sem-tregua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goiasemtempo.com.br\/home\/presidios-brasileiros-uma-antologia-de-violencia-sem-tregua\/","title":{"rendered":"Pres\u00eddios brasileiros, uma antologia de viol\u00eancia sem tr\u00e9gua"},"content":{"rendered":"<p>Dezenas de presos se amontoam no corredor de um pres\u00eddio formando uma longa fila que termina em uma mesa servida fartamente com 146 linhas de coca\u00edna. Um a um, os presos a aspiram em meio a um clima de festa e ostenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essas imagens, registradas com o celular por um detento e publicadas nas redes sociais, integram uma antologia alucinada de v\u00eddeos divulgados nos primeiros dias de 2018, pouco depois do assassinato de nove reclusos em uma penitenci\u00e1ria de Goi\u00e1s, que voltou a trazer \u00e0 tona o descontrole do sistema penitenci\u00e1rio brasileiro.<\/p>\n<p>A rebeli\u00e3o come\u00e7ou em 1\u00ba de janeiro, exatamente um ano depois do massacre de 56 internos em um pres\u00eddio de Manaus, que deu in\u00edcio a um ano com muitas mortes nas pris\u00f5es.<\/p>\n<p>O Brasil tem a terceira maior popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria do mundo: 726.712 presos, segundo os \u00faltimos dados oficiais de junho de 2016. Com edif\u00edcios anacr\u00f4nicos e superlotados, escasso or\u00e7amento e a metade dos detentos sem pena definitiva, o Estado foi perdendo o controle para as fac\u00e7\u00f5es criminosas.<\/p>\n<p>Marcos Fuchs, diretor da ONG Conectas, dedicada a cuidar dos direitos humanos, considera que 75% dos centros de deten\u00e7\u00e3o s\u00e3o controlados pelo crime organizado.<\/p>\n<p>O Estado n\u00e3o cuida do preso, n\u00e3o zela pela sa\u00fade dele, coloca mais presos dentro da unidade, ele perde o controle. Perdendo o controle, quem manda \u00e9 um comando paralelo, disse ele \u00e0 AFP.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 scanners corporais, funcion\u00e1rios treinados, tem corrup\u00e7\u00e3o, toler\u00e2ncia de permitir a entrada de celulares, bebida alco\u00f3lica, drogas. E a\u00ed tem essas imagens feitas pelo pr\u00f3prios presos para que o Brasil veja, acrescentou.<\/p>\n<p>O ministro da Defesa, Raul Jungmann, reconheceu o v\u00e1cuo de autoridade.<\/p>\n<p>E ele sabe do que fala. Em 2017, o Ex\u00e9rcito apreendeu 10.882 armas em 31 pris\u00f5es que alojavam 22.910 internos. Uma a cada dois presos.<\/p>\n<p>A metade da popula\u00e7\u00e3o (carcer\u00e1ria) brasileira est\u00e1 armada. \u00c9 um absurdo incompreens\u00edvel e evidentemente isso maximiza os massacres e a viol\u00eancia, assinalou.<\/p>\n<p>Durante essas apreens\u00f5es, que usaram equipamentos de seguran\u00e7a dos Jogos Ol\u00edmpicos de 2016, foram encontrados quase 2.000 celulares e drogas em abund\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&#8211; (In)seguran\u00e7a &#8211;<\/p>\n<p>Os massacres de 2017 deixaram mais de 100 presos mortos em uma guerra travada dentro dos pres\u00eddios de todo o pa\u00eds entre as fac\u00e7\u00f5es Primeiro Comando da Capital (PCC), origin\u00e1ria de S\u00e3o Paulo, e Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>O ano de 2018 tamb\u00e9m come\u00e7ou violento.<\/p>\n<p>Os nove internos assassinados em Goi\u00e1s despertaram o temor de outras a\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia, mas a crise foi sufocada depois de tr\u00eas rebeli\u00f5es.<\/p>\n<p>Durante o motim, 243 presos escaparam e a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), C\u00e1rmen L\u00facia, teve que cancelar a sua visita \u00e0 pris\u00e3o na segunda-feira porque n\u00e3o podiam garantir a sua seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>As imagens que circulam na Internet incluem festas regadas a \u00e1lcool e drogas em plena luz do dia, registros de homic\u00eddios e fugas, como a filmada na pris\u00e3o de Luzi\u00e2nia, em Goi\u00e1s, na qual dois homens for\u00e7am as grades de uma cela at\u00e9 abrir espa\u00e7o para que 10 detidos sa\u00edssem.<\/p>\n<p>Para Julio Waiselfiz, coordenador do programa de estudos sobre viol\u00eancia da Faculdade Latino-Americana de Ci\u00eancias Sociais, o problema excede os muros das pris\u00f5es.<\/p>\n<p>Nada indica que os problemas v\u00e3o acabar. Haver\u00e1 novas rebeli\u00f5es e massacres dentro e fora das cadeias porque a crise de seguran\u00e7a n\u00e3o \u00e9 exclusiva dos pres\u00eddios, disse.<\/p>\n<p>O Brasil registrou 61.619 homic\u00eddios em 2016, segundo o F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. O dado superou o que em 2015 levou o Instituto Igarap\u00e9, dedicado \u00e0 quest\u00e3o da seguran\u00e7a, a list\u00e1-lo como o pa\u00eds com mais assassinatos no mundo.<\/p>\n<p>O Estado n\u00e3o tem respostas, n\u00e3o tem pol\u00edticas para conter essa viol\u00eancia, acrescentou o soci\u00f3logo.<\/p>\n<p>&#8211; Votos &#8211;<\/p>\n<p>Ap\u00f3s as rebeli\u00f5es de 2017, o presidente Michel Temer anunciou a constru\u00e7\u00e3o de novas pris\u00f5es.<\/p>\n<p>Esses centros separar\u00e3o os presos por crimes menores dos criminosos mais perigosos &#8211; algo que n\u00e3o ocorre atualmente &#8211; e ter\u00e3o bloqueadores de celulares, que al\u00e9m de servirem para divulgar os festas carcer\u00e1rias, s\u00e3o usados para comandar opera\u00e7\u00f5es criminosas.<\/p>\n<p>Investimento e segrega\u00e7\u00e3o por periculosidade s\u00e3o parte das solu\u00e7\u00f5es propostas por especialistas, junto com mudan\u00e7as na Justi\u00e7a e na pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Os ju\u00edzes acham que a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 privar de liberdade as pessoas. Ter\u00edamos que ter ju\u00edzes mais criativos, aplicando penas com uso maior de tornozeleira, regime aberto e ter menos presos provis\u00f3rios, disse Fuchs.<\/p>\n<p>Vamos ser sinceros, essa n\u00e3o \u00e9 uma pasta que seja popular e d\u00ea votos. Nenhum governante que fala que vai cuidar do sistema prisional vai ganhar votos, encerrou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dezenas de presos se amontoam no corredor de um pres\u00eddio formando uma longa fila que termina em uma mesa servida fartamente com 146 linhas de coca\u00edna. Um a um, os presos a aspiram em meio a um clima de festa e ostenta\u00e7\u00e3o. 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