Cidades

Crivella barra repórteres do jornal O Globo em entrevista no Rio

Na entrada do evento, um repórter e uma repórter-fotográfica foram abordados por dois assessores de imprensa da prefeitura. Esses disseram que O Globo não poderia participar da entrevista porque não havia sido convidado.

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – A equipe do prefeito do Rio de Janeiro impediu a entrada de dois profissionais do jornal O Globo em entrevista coletiva na manhã desta terça-feira (3) sobre a festa de Réveillon em Copacabana.

Na entrada do evento, um repórter e uma repórter-fotográfica foram abordados por dois assessores de imprensa da prefeitura. Esses disseram que O Globo não poderia participar da entrevista porque não havia sido convidado.

 

A declaração foi dada nas redes sociais, na segunda-feira (2), após o jornal publicar reportagem em que revelou que o Ministério Público do Rio de Janeiro apura um esquema de corrupção na prefeitura, com base na colaboração premiada de um doleiro.

“Pela primeira vez, vou processar, sim, os jornalistas que me acusam, indevidamente, pois os limites já se excederam há tempos”, escreveu Crivella.

Em um vídeo no qual aparece cercado por cinco assessores, o prefeito disse que os jornalistas fizeram “papel de canalha” ao construir uma história sem pé nem cabeça. “Quando o sujeito não tem caráter, passam-se os anos e ele continua o mesmo patife”, afirmou, em referência a um dos repórteres.

“Mais uma vez a Rede Globo tenta manchar a minha honra e a integridade da minha gestão, fabricando notícias facciosas, na clara intenção de que nos curvemos aos seus caprichos”, escreveu.

No domingo, Crivella afirmou que não irá mais responder a solicitações de informação feitas pelo jornal, a pedido de seus assessores.

“O sistema de comunicação da prefeitura me fez um pedido que eu compreendi. Eles estão indignados com O Globo, que não é jornal, não faz mais jornalismo. É um panfleto político, fazendo militância, tentando de todas as formas, através de ameaças e chantagens, que a prefeitura ceda às suas ambições de publicidade”, disse Crivella em publicação nas redes sociais.

“Lamentavelmente, o prefeito age de forma pouco transparente ao vetar que a prefeitura forneça respostas a O Globo. A prefeitura é estrutura pública e, nesta condição, teria o dever de prestar contas para a sociedade. Com a recusa, perde oportunidade de fornecer seu contraponto e oferecer explicações”, afirmou o presidente da ANJ (Associação Nacional de Jornais), Marcelo Rech.

Em nota, o jornal O Globo disse lamentar a decisão do prefeito.

“O Globo lamenta a decisão do prefeito Marcelo Crivella de, a partir de agora, ignorar os pedidos de informação feitos pelo jornal. Medida, diga-se, tomada na véspera de o jornal publicar reportagem revelando que o prefeito é alvo de investigação do Ministério Público do Rio. Ao não atender a essas demandas, o prefeito deixa de prestar esclarecimentos não ao jornal, mas à população do Rio de Janeiro, que o elegeu”, afirmou.

“O objetivo do Globo ao solicitar esclarecimentos a governos e governantes, quaisquer que sejam, é avaliar informações apuradas sobre a gestão pública e dar espaço ao contraditório, como determinam os princípios editoriais do Grupo Globo. Ao contrário do que sugere o prefeito, o Globo pratica jornalismo e não mistura a produção de conteúdo editorial com atividades publicitárias.”

A nota do jornal prossegue: “A despeito de decisão de Crivella, o jornal seguirá solicitando informações e dando espaço à prefeitura antes de publicar reportagens sobre a gestão municipal e suas autoridades –por respeito a nossos leitores, nossos princípios editoriais e ao bom jornalismo”.

Inconstitucional

O advogado Marcus Vinícius Cordeiro, diretor de comunicação da seccional da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) no Rio, a atitude de Crivella fere os direitos de imprensa. “Essa determinação representa, no plano da ação do agente público, uma arbitrariedade que se choca com a Constituição. A Constituição prevê a liberdade de expressão e informação, o que pressupõe que os órgãos de imprensa tenham ampla liberdade de trabalhar”, afirmou.

“Quando o agente público impede um veículo de participar de uma cobertura ele escolhe a quem falar. É uma forma de criar uma imprensa chapa branca. Vemos isso com gravidade. Isso está perpassando os poderes constituídos. Desde o presidente proibir que a Folha participe de licitações até essas ações da prefeito contra O Globo”, completa.

Diretora executiva da ONG Artigo 19, especializada em direitos humanos e acesso à informação, Denise Dora ressalta que, ao atacar O Globo, Crivella acaba acertando a população, que tem o direito de receber informações por fontes diversas.

A ABI (Associação Brasileira de Imprensa) também repudiou o ato de prefeito. Em comunicado, o órgão afirma que a decisão de Crivella “representa uma afronta ao princípio da publicidade da administração pública, à liberdade de expressão e ao direito dos cariocas em terem acesso às informações sobre a gestão municipal”.

O fato ocorreu após o jornal publicar reportagem sobre investigação do MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) a respeito da existência de um suposto balcão de negócios na prefeitura para a liberação de verbas a empresas mediante pagamento de propina.

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